Trump volta a ameaçar o Irã com ataque se regime 'matar pessoas': 'Atingiremos muito duramente'

 

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Em meio a protestos em, pelo menos, 25 das 31 províncias do Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a ameaçar o país nesta quinta-feira, afirmando que Teerã poderá ser "atingido muito duramente" caso as autoridades iranianas passem a matar manifestantes. A declaração ocorre no mesmo dia em que a ONG Vigilância de Segurança Cibernética Netblocks informou que o regime impôs um corte de internet em "escala nacional", no 12º dia de um movimento de protestos que desafia diretamente o poder da República Islâmica, acusado de intensificar a repressão.

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— Deixei claro para eles que se começarem a matar pessoas — o que tendem a fazer durante as manifestações, que eles têm muitas —, nós os atingiremos muito duramente — afirmou Trump durante uma entrevista ao apresentador de rádio conservador Hugh Hewitt.

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Trump já havia feito uma ameaça semelhante na semana passada, quando afirmou que os EUA estão "com as armas preparadas e carregadas, prontos para agir". Não se sabe até que ponto Trump está disposto a usar seu poderio militar — como quer um de seus maiores aliados , Israel — mas o resultado final pode não ser o esperado pela Casa Branca.

Manifestantes agitam bandeiras do Irã anteriores à Revolução Islâmica de 1979 durante um protesto contra a repressão do regime iraniano aos protestos no centro de Paris, em 4 de janeiro de 2026

BLANCA CRUZ / AFP

"Se o Irã atirar e matar violentamente manifestantes pacíficos, o que é seu costume, os Estados Unidos da América virão em seu socorro", escreveu o presidente em sua plataforma Truth Social, na última sexta-feira, pouco mais de seis meses depois de bombardear instalações nucleares no país.

Após essas primeiras declarações, o chefe do Exército iraniano, general Amir Hatami, respondeu, dizendo que "considera a escalada da retórica inimiga contra a nação iraniana como uma ameaça".

Já o presidente do Irã, Masud Pezeshkian, pediu nesta quinta-feira "a máxima moderação" frente aos manifestantes, bem como o "diálogo" e a escuta às "reivindicações do povo".

Historicamente, as autoridades iranianas recorrem à violência para reprimir levantes. Em 2022, após a morte sob custódia de Mahsa Amini, detida por uso considerado inadequado do hijab, mais de 550 pessoas teriam sido mortas por forças de segurança, segundo organizações de direitos humanos. Desta vez, a resposta inicial pareceu mais contida, mas vídeos verificados mostram intensificação do uso da força desde último sábado.

Protestos já duram nove dias no Irã; manifestações começaram com o intuito de protestar pelo custo de vida. Agora, avançaram para questões políticas

UGC/AFP

Os protestos no Irã eclodiram em 28 de dezembro, quando comerciantes de Teerã organizaram uma manifestação contra o aumento dos preços no país e o colapso do rial, o que desencadeou uma onda de ações semelhantes em outras cidades. Desde então, os atos deixaram dezenas de mortos, incluindo membros das forças de segurança.

Segundo a ONG Iran Human Rights, ao menos 45 manifestantes morreram durante os protestos. A quarta-feira, por exemplo, foi o dia mais sangrento, com 13 mortos, ainda de acordo com a ONG, que também indicou que "centenas" de pessoas ficaram feridas e que mais de 2 mil foram detidas. A agência de notícias francesa France-Presse (AFP), por sua vez, informou que o balanço seria de ao menos 21 mortos.

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A República Islâmica já havia classificado como "linha vermelha" e desestabilização regional uma possível intervenção americana no país após as primeiras ameaças de Trump. As declarações do republicano provocaram, inclusive, uma reação de dois assessores do líder supremo do Irã, Ali Khamenei.

"Qualquer mão intervencionista que ataque a segurança do Irã sob qualquer pretexto será alvo de uma resposta", escreveu Ali Shamkhani, conselheiro de Khamenei, em uma publicação no X. "A segurança do Irã é uma linha vermelha." Já o também conselheiro Ali Larijani escreveu que "Trump deveria saber que qualquer interferência dos Estados Unidos neste assunto interno seria o equivalente a desestabilizar toda a região e prejudicar os interesses americanos": "Que tenha cuidado com seus soldados", acrescentou.

De acordo com vídeos cuja autenticidade foi verificada pela AFP, os manifestantes entoavam slogans como "é a batalha final, Pahlavi voltará", em alusão à dinastia derrubada pela Revolução Islâmica de 1979, ou "Seyyed Ali será destituído", em referência ao líder supremo Ali Khamenei, no poder desde 1989.