Trump será principal desafio externo de Lula

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deverá manter o diálogo com Donald Trump para negociar a redução das tarifas americanas e preservar a soberania brasileira em meio a divergências sobre segurança, comércio e a atuação dos Estados Unidos na América Latina. A avaliação de integrantes do governo brasileiro é que a vitória eleitoral não encerrará as pressões americanas nem a influência de aliados do bolsonarismo sobre a administração Trump, relata a Folha de S.Paulo.

A relação com Washington será o principal desafio externo do quarto mandato do petista, que coincidirá com os dois anos finais da gestão do republicano. A orientação será combinar negociações com a defesa da soberania, tema que ganhou destaque na campanha de Lula.

Até a publicação da reportagem da Folha, a Casa Branca não havia se pronunciado oficialmente sobre o resultado das urnas. A frente comercial concentra uma das principais expectativas.

Interlocutores do governo brasileiro afirmam que Washington sinalizou disposição para destravar as negociações sobre as tarifas de 37,5% após a eleição. Reduzir essas barreiras será um dos primeiros testes da capacidade do Planalto de converter o discurso de autonomia em resultados econômicos.

Outra decisão será a autorização para que Daniel Perez, indicado pelos Estados Unidos para a embaixada em Brasília, assuma o cargo. O governo brasileiro precisa conceder o chamado agrément, aval diplomático necessário para a nomeação.

A expectativa relatada pela Folha é que a aprovação ocorra até o fim do ano, como um possível sinal de disposição para diminuir as tensões. O histórico recente da relação entre os presidentes reúne manifestações contraditórias.

Trump recebeu Lula na Casa Branca e o descreveu como “dinâmico”, mas também chamou o brasileiro de “volátil” e afirmou que “não poderia se importar menos” com ele. Apesar dessas declarações, há sinais de abertura para conversas.

De acordo com relatos de um encontro com o banqueiro André Esteves, em agosto, divulgados pela coluna de Mônica Bergamo, Trump demonstrou respeito pelo presidente brasileiro. Essa disposição não se estende de maneira uniforme à administração americana.

O Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, tem adotado uma postura mais crítica a Lula. A pasta também impôs sanções a diversos integrantes do governo brasileiro.

Um ex-integrante do primeiro governo Trump ouvido pela Folha avalia que as críticas do petista e de seus principais assessores à política americana ampliaram a resistência em Washington. Na análise dele, a falta de interlocutores capazes de explicar os interesses brasileiros e as particularidades da política nacional dificulta a redução da desconfiança.

O mesmo ex-integrante pondera que parte expressiva da administração republicana dedica pouca atenção ao Brasil. Nesses setores, o interesse estaria concentrado na disposição dos governos estrangeiros de atender às demandas dos Estados Unidos.

Para Paulo Abrão, ex-secretário nacional de Justiça no governo Dilma Rousseff e diretor do Washington Brazil Office, o encerramento da disputa presidencial pode abrir espaço para uma relação menos tensionada, desde que os americanos aceitem o resultado eleitoral. “Se Washington concluir que terá de negociar com Lula, pode haver incentivo para substituir parte dessa disputa eleitoral por uma negociação entre governos”, afirma.

Abrão considera que o governo brasileiro precisará demonstrar que a defesa da soberania pode produzir redução de barreiras comerciais, atração de investimentos e acordos favoráveis ao país. O pesquisador Lucas de Souza Martins, professor da Universidade Temple, nos Estados Unidos, também espera maior pragmatismo.

Ele lembra que Lula já manteve diálogo com presidentes de diferentes orientações políticas, entre eles o republicano George W. Bush.

A segurança será outra área decisiva. O governo Trump designou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, em uma política regional que combina enfrentamento ao crime organizado, cooperação militar e contenção da influência de potências concorrentes.

Nesse contexto, Washington promove o Escudo das Américas, coalizão de governos alinhados aos Estados Unidos com compromissos econômicos e de segurança. O governo Lula rejeita aderir à iniciativa por considerar que suas prioridades foram estabelecidas unilateralmente pelos americanos, sem negociação com os demais países.

Abrão admite, ainda assim, a possibilidade de o Brasil discutir uma participação condicionada caso o grupo passe a concentrar instrumentos relevantes de combate ao crime organizado. Uma negociação poderia envolver acesso a inteligência e tecnologia, preservando a posição brasileira contrária à presença de forças americanas em operações no território nacional.

Steven Dudley, diretor do InSight Crime, organização especializada em crime e segurança na América Latina, observa que a troca de informações entre autoridades brasileiras e americanas ocorre há anos e costuma sobreviver às divergências políticas, embora possa perder intensidade.

Ele também aponta que o reforço de forças de segurança, isoladamente, não resolve problemas estruturais e que a descentralização das polícias brasileiras dificulta a execução de políticas nacionais. A competição entre Estados Unidos e China acrescentará dificuldades às negociações.

O Brasil pretende preservar a relação com os chineses, seus principais parceiros comerciais, enquanto Washington procura reduzir a dependência de Pequim em áreas estratégicas. Terras raras e outros minerais críticos devem ocupar espaço crescente nessa agenda.

A posição do governo brasileiro é buscar parcerias que incluam processamento e produção industrial no país, para ampliar o retorno econômico desses recursos além da exportação de matérias-primas. Os canais mantidos por Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e outros aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro em Washington também continuarão sob acompanhamento do Planalto.

A avaliação de interlocutores de Lula é que essas articulações permanecerão ativas após a derrota eleitoral. Durante a campanha e na Assembleia Geral da ONU, em setembro, Lula criticou a interferência americana na América Latina e a submissão de países da região a potências estrangeiras.

Com a eleição encerrada, a relação bilateral passará por decisões concretas sobre tarifas, representação diplomática, cooperação em segurança e exploração de recursos estratégicos.

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