Trump se irrita com pergunta e chama jornalista de 'vergonhosa' após ataque em Washington
Menos de um dia após um homem armado invadir o tradicional jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou a jornalista Norah O’Donnell, da CBS, de “vergonhosa”. A declaração, feita durante entrevista exibida na noite deste domingo no programa 60 Minutes, ocorreu após O’Donnell ler trechos de um manifesto escrito pelo suspeito — que parecia referir-se a Trump como “estuprador” e “pedófilo” —, e questionar a reação do republicano.
Entenda: Trump capitaliza ataque, fala em grandeza histórica e defende reforma na Casa Branca
Contexto: Atirador do jantar de imprensa escreveu manifesto 'anticristão' com incentivo a ataques a membros do govern
— Eu estava esperando você ler isso, porque sabia que você leria, porque vocês são pessoas horríveis. Pessoas horríveis — disse o presidente, que, até então, vinha respondendo de forma relativamente contida. — Sim, ele escreveu isso. Eu não sou um estuprador. Eu não estuprei ninguém. Eu não sou um pedófilo. Com licença, com licença. Você lê esse lixo de uma pessoa doente? Eu fui associado a todo tipo de coisa que não tem nada a ver comigo. Fui totalmente inocentado.
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No trecho citado pela jornalista, o suposto atirador, Cole Allen, de 31 anos, teria escrito: “Não estou mais disposto a permitir que um pedófilo, estuprador e traidor suje minhas mãos com seus crimes”. Após a reação de Trump, O’Donnell tentou interromper o presidente para questionar se achava que o texto fazia referência a ele, mas foi ignorada pelo republicano, que continuou declarando:
— Os seus amigos do outro lado são os que estavam envolvidos com, digamos, Epstein ou outras coisas. Mas eu disse a mim mesmo: “Sabe de uma coisa? Vou dar essa entrevista a eles”. Eu li o manifesto. Você sabe, ele é uma pessoa doente. Mas você deveria se envergonhar por ler isso, porque eu não sou nenhuma dessas coisas. Você não deveria estar lendo isso no 60 Minutes. Você é uma vergonha. Mas vá em frente. Vamos terminar a entrevista. Você é vergonhosa.
Trump reagiu com irritação ao que pareceu interpretar como uma insinuação sobre sua relação com o financista Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais — algo que não foi citado nominalmente nem no manifesto nem pela jornalista. O presidente continuou a criticar O’Donnell ao longo do restante da conversa. Depois que ela mencionou que Allen, o suspeito, teria participado de um protesto “No Kings” (Sem Reis), contra o governo do republicano, Trump respondeu:
— A razão de você ter pessoas assim é que há gente fazendo “No Kings”. Eu não sou um rei. Se eu fosse um rei, não estaria lidando com você.
Trump havia inicialmente demonstrado um sentimento de camaradagem com membros da imprensa que o receberam no jantar anual e que vivenciaram o mesmo momento inicial de pânico quando agentes armados das forças de segurança entraram no salão. Pouco antes, O’Donnell havia perguntado a ele se a experiência de sábado mudaria sua relação com a imprensa. Ele respondeu de forma indireta, afirmando que o corpo de jornalistas é majoritariamente alinhado à esquerda e contrário às suas políticas sobre imigração e crime.
— Por algum motivo, discordamos em muitos assuntos. Eu sou muito firme em relação ao crime, e parece que a imprensa não é. Não é tanto a imprensa, é a imprensa junto com os democratas, porque eles são praticamente a mesma coisa. É algo absurdo. Eu tenho a fronteira mais forte que já tivemos no país, onde, como você sabe, ficou em zero o número de pessoas que entraram no nosso país pela fronteira sul.
Mais cedo neste domingo, havia afirmado que o homem acusado de invadir o perímetro de segurança no jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca na noite de sábado havia escrito um “manifesto” com conteúdo anticristão, denominando-se um “assassino federal amigável”. Segundo autoridades, o conteúdo da mensagem, enviada pelo suspeito a familiares minutos antes do ataque, reforça a hipótese de que a ação teve motivação política e tinha como alvo integrantes do governo americano, incluindo o líder republicano.
— Esse cara é um doente — disse Trump em entrevista à rede conservadora Fox News. — Quando você lê o manifesto dele, vê que ele odeia os cristãos. A família dele já havia procurado as autoridades. Ele era um sujeito muito perturbado.
De acordo com investigadores, os escritos do suspeito tinham mais de mil palavras e combinavam desabafos, críticas políticas e pedidos de desculpas aos familiares. Em um dos trechos citados pelas autoridades, o autor afirmava que “virar a outra face quando outra pessoa é oprimida não é comportamento cristão; é cumplicidade nos crimes do opressor”. O texto também fazia referências indiretas a Trump, sem citá-lo nominalmente, e mencionava queixas relacionadas a ações do governo.
A mensagem foi enviada pouco antes dos disparos no hotel Washington Hilton, onde o evento era realizado. Após recebê-las, o irmão de Allen entrou em contato com a polícia de New London, em Connecticut, que acionou autoridades federais. Investigadores tratam os textos, junto a postagens em redes sociais e depoimentos de familiares, como algumas das evidências mais claras até agora sobre o estado mental do suspeito, que foi preso, e seus possíveis motivos.
O episódio de sábado é mais um capítulo da violência política nos EUA, que, segundo pesquisas, está em alta. Em 2024, houve uma tentativa de assassinato contra Trump na Pensilvânia, quando um tiro de raspão atingiu a sua orelha. Apenas 64 dias depois, ele voltou a ser alvo de um possível assassinato enquanto jogava golfe em seu campo na Flórida. O assassinato do comentarista conservador Charlie Kirk em Utah no ano passado expôs ainda mais as profundas divisões políticas do país.
