Trump recebe Petro na Casa Branca semanas depois de ameaçar atacar a Colômbia e em meio a desconfiança mútua
Após meses de tensão diplomática, que envolveu acusações, sanções e ameaças, os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da Colômbia, Gustavo Petro, se encontraram pessoalmente pela primeira vez na Casa Branca nesta terça-feira. No começo do mês, logo depois de atacar a Venezuela e capturar o presidente Nicolás Maduro, Trump sugeriu que a Colômbia poderia ser o próximo alvo, mas um telefonema costurado por representantes dos dois governos abriu caminho para a reunião. Mas a bandeira branca temporária não significa que a desconfiança mútua tenha desaparecido.
"Hoje (terça-feira) inicio minha agenda em Washington como chefe de Estado, pronto para continuar fortalecendo a relação entre duas nações que compartilham um objetivo comum: a luta contra o narcotráfico, com uma abordagem que prioriza a vida e a paz em nossos territórios", escreveu Petro na rede social X, pouco antes do início da reunião. "Minha família está comigo, me oferecendo seu carinho, antes do meu encontro com o presidente Trump."
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A reunião durou cerca de uma hora e ocorreu a portas fechadas. O presidentes não fizeram declarações prévias à imprensa.
A relação entre Petro e Trump começou da pior forma possível. Na mensagem em que parabenizou o republicano pela vitória eleitoral, Petro, primeiro presidente de esquerda da Colômbia, criticou as ideias de Trump para o clima, atacou sua promessa de deportar milhões de imigrantes e o apoio dos EUA a Israel na guerra em Gaza. Depois da posse e do início das deportações, ele barrou duas aeronaves que levavam imigrantes à Colômbia, mas recuou após a ameaça de tarifas.
Mas o grande campo de batalha entre Trump e Petro estava em um antigo terreno de cooperação entre EUA e Colômbia: o combate ao narcotráfico. No ano passado, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, disse que Petro era “amigo” da organização criminosa Tren de Aragua, baseada na Venezuela. Meses depois, em setembro, a Casa Branca retirou a certificação da Colômbia como parceiro no combate ao narcotráfico, apesar de prometer manter o financiamento.
Petro criticou a decisão, afirmando que o governo colombiano aumentou a pressão sobre os cartéis em seu território, com um volume crescente de apreensões de drogas e prisões de criminosos, e afirmou que o consumo de drogas era um problema da sociedade dos EUA, e não da Colômbia.
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O presidente foi além, e defendeu que soldados americanos descumprissem as ordens de Trump, durante um discurso no qual acusou os EUA de apoiarem “o genocídio em Gaza”. Em resposta, perdeu seu visto — a viagem aos EUA nesta terça só foi possível graças a uma autorização especial — e foi incluído na lista de sanções do Departamento do Tesouro. Washington alegou que ele era cúmplice do narcotráfico.
O ápice da crise veio em dezembro, em meio ao maior deslocamento militar dos EUA no Caribe em décadas, e que tinha na Venezuela de Maduro seu grande alvo. Em reunião de Gabinete, Trump disse que poderia atacar qualquer país que enviasse drogas aos Estados Unidos, citando a Colômbia e Petro. Ali, afirmou que “era melhor ele (Petro) se ligar, ou será o próximo”. Petro respondeu que Trump estava “desinformado”.
Após o ataque a Caracas e a captura de Maduro, o risco de uma ação na Colômbia ficou evidente. Trump chamou Petro de “doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la para os Estados Unidos, e ele não vai continuar fazendo isso por muito tempo”, recomendando mais uma vez que ficasse atento.
Inicialmente, Petro e suas Forças Armadas disseram que estavam prontos para "pegar em armas", mas houve um esforço nos bastidores para baixar a temperatura entre Bogotá e Washington. Os altos escalões da diplomacia colombiana acionaram contatos na capital americana — entre eles, o senador republicano Rand Paul, que se opôs ao ataque contra a Venezuela — e abriram caminho para o telefonema do dia 7 de janeiro e para a reunião desta terça. Mas as divergências entre os dois líderes, que ocupam campos políticos distintos, ainda são numerosas.
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Petro amenizou, mas não eliminou, as críticas às políticas do republicano, e vê com receio a reedição da Doutrina Monroe — América para os americanos — pelo governo atual. Além de exercerem uma presença mais intensa na região, Trump quer reduzir a presença de influências consideradas hostis, especialmente a China. A Colômbia é um dos poucos países da América Latina que têm nos EUA os principais parceiros comerciais, mas Pequim tem aumentado o volume de trocas comerciais. Por outro lado, Washington entende que a estabilidade da Venezuela pós-Maduro depende em boa parte da cooperação da Colômbia em matéria de controle de fronteiras e de grupos armados.
O líder colombiano também quer aparar arestas antes da eleição presidencial de maio. Aliados de Petro temem que o agravamento da crise com Washington seja usado pelos adversários para minar a candidatura de seu aliado, Iván Cepeda. Há o risco de uma interferência de Trump na votação, como a declaração de apoio a um rival, como fez em processos recentes na América Latina. Se retornar para casa com bons resultados na bagagem, Petro eliminaria um dos principais argumentos de seus rivais na votação: o de que está destruindo as relações com os EUA.
Como gesto simbólico, o mandatário colombiano levou a Washington uma cesta tradicional de itens colombianos, incluindo café e chocolate, produzidos por famílias que trocaram o plantio da coca por cultivos de alimentos através de programas do governo.
