Trump negocia volta de petrolíferas americanas à Rússia em troca de acordo de paz na Ucrânia

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Fonte da notícia: Notícias Veja Notícias Veja

O governo de Donald Trump está negociando com a Rússia a possibilidade de reabrir o mercado russo a grandes empresas americanas, em uma tentativa de usar oportunidades comerciais para convencer Vladimir Putin a encerrar a guerra na Ucrânia. As conversas incluem investimentos em petróleo e gás, retomada de rotas aéreas e acordos de fornecimento de matérias-primas estratégicas.

Segundo o Financial Times, autoridades de Washington e Moscou discutem uma série de projetos que poderiam ser executados após um eventual acordo de paz. A estratégia representa uma mudança na relação econômica entre os dois países, marcada desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, por sanções, restrições comerciais e saída de companhias ocidentais do mercado russo.

Continua após a publicidade As propostas ainda estão em estágio preliminar.

Não há contratos concluídos nem garantia de que as empresas envolvidas estejam dispostas a retomar suas atividades na Rússia. O governo americano afirma que uma normalização econômica mais ampla dependeria de um entendimento para encerrar o conflito.

Continua após a publicidade A iniciativa também enfrenta oposição de governos europeus, que rejeitam a flexibilização das sanções antes do fim da guerra e cobram participação nas decisões que possam afetar o abastecimento energético do continente.

Petróleo russo está no centro das negociações Uma das principais possibilidades em discussão é a retomada de uma parceria entre companhias americanas e russas na exploração de petróleo na ilha de Sacalina, no extremo leste da Rússia.

Continua após a publicidade A região abriga o projeto Sakhalin-1, um dos grandes empreendimentos petrolíferos russos desenvolvidos com participação estrangeira.

A ExxonMobil detinha 30% da operação antes de anunciar sua saída do país, em 2022, após a invasão da Ucrânia. Continua após a publicidade

Posteriormente, o governo russo assumiu o controle da participação americana. A ExxonMobil informou no ano passado que mantinha conversas sobre uma possível compensação pelos ativos perdidos, mas descartou planos de retomar suas operações na Rússia.

Continua após a publicidade Outro projeto avaliado envolve a participação de petrolíferas americanas na retomada do fornecimento de petróleo russo à Europa pelo oleoduto Druzhba, uma das principais estruturas de transporte de petróleo construídas durante o período soviético.

O sistema conecta a Rússia a países europeus e teve seu funcionamento afetado pela guerra, pelas sanções e pelas mudanças na política energética da União Europeia. Uma eventual retomada mais ampla das exportações dependeria de acordos comerciais, condições operacionais e decisões políticas dos países envolvidos.

Aviação e indústria também entram na negociação As conversas vão além do setor energético.

Washington e Moscou avaliam permitir novamente que companhias aéreas americanas utilizem o espaço aéreo russo em voos internacionais. A medida poderia reduzir distâncias e despesas com combustível em determinadas rotas, especialmente nas ligações entre os Estados Unidos e destinos asiáticos.

O fechamento do espaço aéreo russo a empresas ocidentais, após o início da guerra, obrigou companhias a modificar trajetos e aumentou custos operacionais. Também está em discussão a retomada da cooperação na produção e no fornecimento de titânio, metal utilizado na fabricação de aeronaves devido à combinação de resistência mecânica e baixo peso.

Antes da guerra, a Boeing mantinha uma parceria industrial com uma empresa russa para trabalhar com o material. A fabricante americana suspendeu a cooperação em 2022 e passou a diversificar sua cadeia de fornecedores.

O eventual restabelecimento dessas relações poderia beneficiar setores industriais dos dois países, mas exigiria uma revisão das restrições comerciais e uma avaliação dos riscos de novos investimentos. Projetos podem movimentar bilhões de dólares

As propostas fazem parte de uma aproximação econômica discutida por representantes dos dois governos desde o ano passado. Steve Witkoff, enviado especial de Trump, tratou de possíveis negócios com Putin durante uma reunião em São Petersburgo, em setembro.

As conversas também envolveram Jared Kushner, genro do presidente americano, e Kirill Dmitriev, representante do Kremlin para investimentos e cooperação econômica. Em fevereiro, Dmitriev estimou em US$ 14 bilhões o valor potencial de projetos considerados nas negociações, cifra equivalente a aproximadamente R$ 70 bilhões, utilizando um câmbio de referência de R$ 5 por dólar.

O conjunto de iniciativas discutidas inclui ainda a possível participação da empresa russa Novatek em um empreendimento de gás natural liquefeito no Alasca e a venda de ativos internacionais da petrolífera Lukoil a investidores ligados ao entorno da Casa Branca. Outra possibilidade seria a retomada do fornecimento de gás russo à Europa por meio da infraestrutura remanescente dos gasodutos Nord Stream, danificados por explosões em 2022.

A reativação dessas operações, entretanto, esbarraria na decisão europeia de reduzir a dependência energética da Rússia. O governo alemão já se manifestou contra a retomada do Nord Stream 2.

Europa resiste à reaproximação A União Europeia considera que qualquer flexibilização das sanções deve estar condicionada a um acordo efetivo para encerrar a guerra.

Diplomatas europeus também defendem que decisões sobre energia, infraestrutura e comércio envolvendo países do bloco não podem ser tomadas exclusivamente por Washington e Moscou. Entre os projetos em discussão está um possível entendimento para aliviar restrições sobre fertilizantes potássicos russos e permitir sua exportação por portos do mar Báltico.

A proposta exigiria mudanças em medidas restritivas adotadas pela União Europeia. Outro tema sensível é o futuro da usina nuclear de Zaporizhzhia, localizada em território ucraniano ocupado pelas forças russas.

Uma das hipóteses discutidas prevê transferir a administração da instalação a uma entidade americana, que distribuiria a eletricidade produzida entre Ucrânia e Rússia. A proposta envolve obstáculos políticos e de segurança, além da questão central da soberania ucraniana sobre a instalação.

Negociações ainda enfrentam impasse territorial Apesar da oferta de incentivos econômicos, Putin não demonstrou disposição para abandonar suas principais exigências nas negociações de paz.

As conversas anteriores encontraram resistência diante da tentativa russa de condicionar um acordo a concessões territoriais por parte da Ucrânia. Os Estados Unidos esperam retomar o diálogo trilateral com representantes russos e ucranianos em Abu Dhabi, em novembro.

A agenda deverá incluir garantias de segurança para os dois países e possíveis condições para encerrar o conflito. A Casa Branca afirma que os projetos comerciais estão subordinados a um acordo de paz mais amplo e que nenhuma iniciativa foi concluída.

O governo americano também reconhece que a participação efetiva de empresas privadas dependerá de suas próprias avaliações de risco. A possibilidade de voltar à Rússia representa uma decisão complexa para grandes grupos internacionais.

Além das sanções, as companhias precisam considerar a segurança jurídica, o risco de novas restrições e o histórico recente de perda de ativos estrangeiros no país. A ExxonMobil, por exemplo, ainda busca uma solução para sua antiga participação no Sakhalin-1, enquanto a Boeing reorganizou sua cadeia de suprimentos para reduzir a dependência de fornecedores russos.

A estratégia de Trump aposta na perspectiva de investimentos e receitas futuras para aproximar Moscou de um acordo. O principal obstáculo, porém, permanece político: transformar oportunidades econômicas em concessões concretas capazes de interromper a guerra.

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Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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