Trump luta para desapropriar área com 'Cristo Redentor' da Igreja Católica nos EUA
As tensões entre o presidente Donald Trump e a Igreja Católica ganharam um novo capítulo. Autoridades federais estão tentando desapropriar da Igreja Católica uma área numa colina acidentada na fronteira entre EUA e México, coroada por uma enorme estátua de Jesus, alegando que precisam do terreno para construir o muro na fronteira proposto pelo chefe da Casa Branca e impedir a entrada de imigrantes ilegais.
A ação de desapropriação do governo federal sobre o Monte Cristo Rei, na "tríplice fronteira" entre Texas, Novo México e Chihuahua (México), foi protocolada em 7 de maio em tribunal no Novo México, e ocorre num momento de divergências entre Trump e o Papa Leão XIV sobre o tratamento dado aos imigrantes nos EUA.
O Papa Leão XIV é o primeiro pontífice nascido nos EUA e tem repetidamente alertado que a rígida política de imigração de Trump é contrária aos ensinamentos de Jesus.
A estátua de Jesus na cruz, no topo da montanha, voltada para o nascer do sol a leste, em pose semelhante ao do Cristo Redentor, no Rio, há muito tempo atrai peregrinos religiosos de ambos os lados da fronteira, embora a estátua esteja localizada a algumas centenas de metros do lado americano.
Por décadas, o muro de aço que separa a região de El Paso de Juárez terminava na base da montanha. Isso se deve em parte ao fato de a montanha ser perigosamente acidentada e uma barreira natural, e em parte para permitir que peregrinos de ambos os países acessem o local construído na década de 1930, contou o "USA Today".
'Cristo Redentor' na fronteira entre EUA e México
Reprodução
A Diocese Católica de Las Cruces, no Novo México, pediu a um juiz federal que impeça a aquisição pelo governo, argumentando que a tomada dos 5,7 hectares violaria os direitos religiosos dos peregrinos que rotineiramente fazem a caminhada de 8 quilômetros, muitas vezes descalços. Alguns carregam cruzes ou sobem de joelhos como sinal de humildade. Cerca de 40.000 pessoas sobem a montanha no dia da festa de Cristo Rei a cada outono, segundo a diocese.
"A construção de um muro na fronteira através ou ao longo deste local sagrado poderia danificar irreparavelmente sua santidade religiosa e cultural, obstruir rotas de peregrinação e transformar o espaço sagrado em um símbolo de divisão", afirmou a igreja em um documento judicial.
Porém, para o governo federal, os interesses da segurança nacional devem ser considerados antes dos religiosos. Inicialmente, alega Washington, foi feita uma oferta para a compra do terreno. Mas, como a iniciativa foi rechaçada, o governo apelou para o movimento de desapropriação.
Na disputa entre Trump e o Papa Leão XIV — boa parte dela, unilateral — o chefe da Casa Branca afirmou que o Pontífice estava "colocando muitos católicos em perigo" por não se pronunciar sobre a guerra no Irã e chamando, na rede Truth Social, o chefe da Igreja Católica de "fraco no combate ao crime e péssimo para a política externa".
Tráfico humano e de drogas
Historicamente, o relevo acidentado e íngreme da montanha dificultou a construção de barreiras físicas contínuas. Isto transformou o local num dos pontos mais visados na região de Sunland Park (Novo México) e no setor de El Paso (Texas). Redes de tráfico humano e cartéis de drogas passaram a utilizar motos, quadriciclos e patinetes nas encostas para transportar pessoas e entorpecentes de forma ágil. Por ser um local de peregrinação religiosa aberta ao público, muitos imigrantes — incluindo brasileiros — acreditavam que conseguiriam passar despercebidos. No entanto, a área passou a ser fortemente monitorada pela tecnologia da patrulha de fronteira dos EUA.
"O significado cultural e religioso do Monte Cristo Rei é fundamental para nossa região", declarou a deputada democrata Veronica Escobar, democrata que representa de El Paso, em nota à imprensa. "Apropriar-se desse patrimônio comunitário para construir um muro na fronteira demonstra o flagrante desrespeito do governo Trump pelos valores de comunidades como a nossa. Existem diversas outras maneiras de garantir a segurança da fronteira. Em vez disso, o governo Trump prefere destruir este local sagrado", emendou ela.
