Trump exagera ameaça iraniana para justificar ataque, diz especialista
O Irã avançou no enriquecimento de urânio e está mais próximo da capacidade técnica de produzir uma bomba atômica, mas ainda não tem mísseis de longo alcance capazes de atingir os Estados Unidos. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit, doutor em Ciência Política pela USP e mestre em National Security por Georgetown University, em entrevista ao Jornal da CBN.
Segundo ele, há elementos reais de preocupação no programa nuclear iraniano, mas parte da justificativa apresentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também atende a uma narrativa política interna.
“O Irã tem uma postura dúbia em relação ao seu programa nuclear. Já enriqueceu urânio a 60%, quando para uso civil o limite é muito menor. Para chegar à bomba, precisaria de 92%. Está próximo da capacidade técnica, sim”, afirmou.
O professor destacou que o país é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e pode enriquecer urânio para fins pacíficos, como geração de energia. No entanto, o nível já alcançado ultrapassa o necessário para uso exclusivamente civil, o que alimenta desconfianças internacionais.
Por outro lado, ele descarta a possibilidade de o Irã ter, neste momento, capacidade de atingir o território americano com mísseis balísticos intercontinentais.
“Eles têm mísseis de alcance intermediário, capazes de atingir Israel, bases americanas no Oriente Médio e, no máximo, o sul da Europa. Estão longe de ter capacidade para atingir os Estados Unidos”, disse.
Escalada limitada entre potências
Rudzit avalia que é improvável uma entrada direta de potências como Rússia e China no conflito contra os Estados Unidos. “Quem quer entrar numa guerra contra a máquina militar americana?”, questionou. Segundo ele, Moscou e Pequim podem explorar diplomaticamente a crise, mas não têm interesse em um confronto direto por causa do Irã.
Já no âmbito regional, o risco é maior. O especialista alerta que países que abrigam bases americanas podem se tornar alvos, não apenas as instalações militares, mas também centros urbanos, caso o regime iraniano se veja em uma situação de sobrevivência.
“Para o regime iraniano, é uma guerra de vida ou morte. Se perceber que pode cair, pode ampliar o alcance dos ataques”, afirmou.
O professor também aponta que a ofensiva ocorre em meio a negociações que já estavam travadas. Enquanto o Irã aceitava discutir limitações ao programa nuclear, os Estados Unidos exigiam o fim completo do programa, restrições a mísseis balísticos e o encerramento do apoio iraniano a grupos como Hamas, Hezbollah e Houthis.
Para Rudzit, a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, foi o principal fator que levou ao cenário atual. A decisão teria abalado a confiança do Irã em compromissos firmados com Washington.
“O Irã percebeu que podia assinar um acordo com um presidente e vê-lo ser desfeito pelo seguinte. Isso enfraquece a previsibilidade da política externa americana”, afirmou.
Regime fragilizado
Apesar da retórica de mudança de regime, o especialista considera improvável uma queda imediata do governo iraniano. Ele lembra que o país enfrenta forte desgaste interno, com protestos recentes e repressão, mas ainda mantém base de apoio.
“O cenário mais provável, no curto prazo, é a continuidade do regime. Mas o Irã está no momento mais fragilizado interna e regionalmente desde 1979”, concluiu.
