Trump diz que supervisão dos EUA sobre a Venezuela pode durar anos; governo quer barril de petróleo a US$ 50

 

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na noite de quarta-feira que espera que os EUA administrem a Venezuela e extraiam petróleo de suas vastas reservas por anos. Em entrevista ao New York Times, Trump disse que o governo interino venezuelano, formado inteiramente por aliados de Nicolás Maduro, está cooperando com Washington. Ao ser perguntado por quanto tempo sua administração exigirá supervisão direta sobre o país sul-americano, porém, o líder republicano evitou estabelecer prazos:

— Só o tempo dirá — disse, acrescentando que a política dos EUA ocorre sob a ameaça permanente de uma ação militar. — Nós vamos reconstruí-la de uma forma muito lucrativa. Vamos usar petróleo, e vamos tirar petróleo. Estamos baixando os preços do petróleo, e vamos dar dinheiro à Venezuela, algo que eles precisam desesperadamente.

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As declarações foram feitas pouco após integrantes do governo americano afirmarem que os EUA planejam assumir o controle da venda do petróleo venezuelano por tempo indeterminado. A medida faz parte de um plano em três fases apresentado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, a membros do Congresso. Embora parlamentares republicanos tenham apoiado em grande parte as ações do governo, democratas reiteraram na quarta-feira seus alertas de que o país caminha para uma intervenção internacional prolongada sem uma base legal clara.

Fontes do Wall Street Journal afirmaram que Trump e seus assessores planejam dominar a indústria petrolífera da Venezuela por anos, com o presidente dizendo acreditar que seus esforços poderiam ajudar a reduzir o preço do petróleo para US$ 50. Um plano em análise prevê que os Estados Unidos exerçam algum controle sobre a estatal venezuelana de petróleo Petróleos de Venezuela SA (PdVSA), incluindo a aquisição e a comercialização da maior parte da produção de petróleo da empresa, disseram pessoas a par das discussões.

Se for bem-sucedido, o plano poderia efetivamente dar aos EUA a tutela da maior parte das reservas de petróleo do Hemisfério Ocidental, considerando-se os depósitos nos Estados Unidos e em outros países onde empresas americanas controlam a produção. Também poderia cumprir dois dos principais objetivos do governo: afastar Rússia e China da Venezuela e pressionar os preços da energia para baixo para os consumidores americanos.

— A indústria de energia americana e, mais importante, o povo americano e o povo venezuelano vão se beneficiar enormemente do controle do presidente sobre o petróleo da Venezuela, que antes era usado para financiar o regime ilegítimo de narcoterrorismo de Maduro — disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt.

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Durante a entrevista, Trump foi questionado mais uma vez sobre por quanto tempo os EUA deveriam permanecer como tutores políticos da Venezuela. Indagado se o período seria de três meses, seis meses, um ano ou mais, ele respondeu: “Eu diria que muito mais tempo”. Na mesma conversa, o presidente abordou diversos temas, entre eles o tiroteio fatal envolvendo agentes do Serviço de Imigração (ICE) em Minneapolis, a imigração, a guerra entre Rússia e Ucrânia, a Groenlândia, a Otan, sua saúde e planos para novas reformas na Casa Branca.

Tempo indefinido

Trump não assumiu compromissos sobre quando eleições seriam realizadas na Venezuela, que teve uma longa tradição democrática do fim dos anos 1950 até Hugo Chávez chegar ao poder em 1999. Ele também não respondeu o motivo de ter reconhecido Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro, como líder da Venezuela, em vez de apoiar María Corina, líder opositora cujo partido conduziu uma campanha eleitoral bem-sucedida contra Maduro em 2024 e que recebeu o Nobel da Paz. Questionado se havia falado com Delcy, ele se recusou a comentar.

— Mas o Marco fala com ela o tempo todo — disse, referindo-se ao secretário de Estado Marco Rubio. — Posso dizer que estamos em comunicação constante com ela e com o governo.

Trump e sua equipe começaram a se engajar de forma privada com o recém-estabelecido governo venezuelano com o objetivo de assumir o controle do fornecimento de petróleo do país poucos dias após as forças americanas capturarem o presidente Nicolás Maduro. Parte das conversas com autoridades do governo venezuelano desde a prisão de Maduro se concentrou em como os EUA podem desempenhar um papel de liderança no aumento da produção das ricas reservas de petróleo do país, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

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Pouco depois de quatro repórteres do New York Times se sentarem com Trump, o presidente interrompeu a entrevista para atender a uma ligação do líder da Colômbia, Gustavo Petro. O contato ocorreu dias depois de Trump ter ameaçado tomar medidas contra a Colômbia por seu papel como polo do tráfico de cocaína. O americano convidou os repórteres a permanecerem para ouvir a conversa, sob a condição de que o conteúdo permanecesse fora do registro. Estavam presentes o vice-presidente JD Vance e Rubio, que deixaram o local após o fim da ligação.

Depois de falar com Petro, Trump ditou a um assessor uma publicação para sua rede social afirmando que o colombiano havia ligado “para explicar a situação das drogas” provenientes de laboratórios rurais de cocaína e que fora convidado a visitar Washington. A ligação, que durou cerca de uma hora, pareceu afastar qualquer ameaça imediata de ação militar dos EUA contra a Colômbia. Trump indicou ainda acreditar que a captura de Maduro intimidou outros líderes da região a se alinharem a Washington. Ao NYT, Trump celebrou a operação.

Ele disse ter acompanhado de perto o treinamento das forças, incluindo a construção de uma réplica em tamanho real do complexo onde Maduro estava com a esposa, Cilia Flores. Trump afirmou temer que a operação se transformasse em um “desastre do Jimmy Carter”, em referência à fracassada missão de resgate de reféns americanos no Irã, em 1980. Na ocasião, um helicóptero americano colidiu com uma aeronave no deserto, uma tragédia que marcou o legado de Carter, mas levou à criação de forças de operações especiais muito mais bem treinadas.

— Não sei se ele (Carter) teria vencido a eleição. Mas certamente não tinha chance alguma depois daquele desastre — disse Trump, comparando o sucesso da captura de Maduro, em uma operação que matou cerca de 70 venezuelanos e cubanos, com ações conduzidas por governos anteriores. — Você não teve um Jimmy Carter derrubando helicópteros por todo lado, nem um desastre do Afeganistão do [ex-presidente Joe] Biden (quando a retirada americana no país, em 2021, resultou na morte de 13 militares dos Estados Unidos).

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Futuro venezuelano

Trump disse que os EUA já começaram a obter ganhos financeiros ao apreender petróleo que estava sob sanções internacionais. Ele citou o anúncio feito na noite de terça de que Washington obterá entre 30 milhões e 50 milhões de barris de petróleo bruto pesado venezuelano. Trump, no entanto, não estabeleceu um cronograma para o processo e reconheceu que a recuperação do setor petrolífero levará anos.

— O petróleo vai levar um tempo — afirmou.

O desafio se dá pelo estado deteriorado da indústria petrolífera venezuelana, que passou por anos de subinvestimento e negligência. Aumentar a produção exigiria dezenas de bilhões de dólares em investimentos de empresas americanas, que podem hesitar em abrir seus cofres em meio a preços baixos do petróleo. A única grande petroleira em operação no país é a Chevron, e novos entrantes não têm as relaç, equipes e capacidades logísticas para começar rapidamente. Analistas dizem que levaria anos para aumentar significativamente a produção.

O presidente pareceu muito mais focado na missão de resgate do que nos detalhes de como conduzir o futuro da Venezuela. Ele se recusou a dizer, por exemplo, em que circunstâncias enviaria tropas americanas ao território venezuelano. Questionado se isso ocorreria caso o governo local bloqueasse o acesso ao petróleo ou se se recusasse a expulsar militares russos e chineses, respondeu: “Não posso dizer isso”. Trump disse que autoridades venezuelanas têm o tratado “com grande respeito”, indicando que boa relação “com o governo que está lá agora”.

O americano também evitou responder por que não instalou Edmundo González Urrutia, o diplomata aposentado reconhecido pelos EUA e outros governos internacionais como vencedor da eleição presidencial venezuelana de 2024. González Urrutia era considerado um candidato de consenso da oposição, ligado a María Corina Machado. Trump reiterou que aliados de Maduro seguem cooperando com Washington:

— Eles estão nos dando tudo o que consideramos necessário. Não se esqueçam de que eles tomaram o petróleo de nós anos atrás — afirmou, em referência à nacionalização de ativos de empresas petrolíferas americanas.

Segundo Trump, executivos do setor de energia dos Estados Unidos já foram procurados para investir nos campos venezuelanos. Muitos, porém, demonstram cautela, temendo que a operação perca sustentação quando Trump deixar o cargo ou que militares e serviços de inteligência da Venezuela minem o processo por estarem excluídos dos lucros. Ao fim da entrevista, Trump disse que gostaria de visitar a Venezuela no futuro.

— Acho que em algum momento será seguro — afirmou.