Trump diz que guerra contra o Irã seria 'facilmente vencida', mas imagens de satélite sugerem dificuldades
Em uma maratona diplomática que teve uma etapa crucial concluída nesta quinta-feira em Omã, EUA e Irã ainda não apresentaram o esboço de um acordo, como quer o presidente americano, Donald Trump, centrado em controles do programa nuclear iraniano. Não foram divulgados detalhes sobre o que foi acertado, mas uma reunião de equipes técnicas está prevista para a semana que vem, em Viena, e o tom dos que estavam à mesa foi de otimismo.
— Essas foram as conversas mais sérias e longas — disse o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, citado pela rede al-Jazeera, acrescentando que foram feitos “bons progressos”. — As consultas devem ser realizadas nas capitais, e depois teremos a quarta rodada de negociações na próxima semana.
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Mesmo assim, a Casa Branca não descarta um ataque, mais amplo do que o de junho do ano passado, para forçar o regime a concordar com seus termos, ou até derrubá-lo. Trump disse que “venceria facilmente” uma guerra, mas lideranças do Pentágono alertam para os riscos de um conflito prolongado, que é rejeitado pela maioria dos americanos. Imagens de satélite comprovam que os iranianos aprenderam com os bombardeios americanos recentes, e que destruir seus alvos estratégicos não será simples como prevê o republicano.
Segundo análise da agência Bloomberg, vários túneis de entrada da área subterrânea do Centro de Pesquisa Nuclear de Isfahã, foram fechados, uma ação que especialistas consideram ser uma preparação para evitar desmoronamentos e dificultar a ação de bombas de penetração, as “bunker buster”. Em janeiro, o Instituto pela Ciência e Segurança Internacional (Isis), baseado nos EUA, apontou que várias estruturas danificadas durante a guerra de 12 dias com Israel, em junho passado, foram restauradas.
Imagens de satélite da central nuclear de Isfahã mostram obras para fechar e proteger instalações subterrâneas
Satellite image ©2026 Vantor / AFP
Logo após o bombardeio de junho, Trump disse que a central havia sido “completa e totalmente obliterada”, sem mostrar evidências. Com os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) barrados, não foi possível comprovar a extensão dos estragos, e o ritmo das obras, focadas na prevenção, chama a atenção. Como disse recentemente o presidente do Isis, David Albright, o acúmulo de terra provavelmente se deve à "antecipação a um ataque, o que implicaria que há algo valioso ali".
— O fortalecimento contra ataques demonstra resiliência — disse Darya Dolzikova, pesquisadora sênior de não proliferação do Royal United Services Institute, à Bloomberg — Este é um país que pode se reconstruir se quiser.
Imagem de satélite da instalação nuclear de Natanz, no Irã
Planet Labs via The New York Times
Trump também declarou, em 2025, que a central de Natanz havia sido obliterada por suas bombas de perfuração, mas poucos acreditaram. Antes do ataque americano, o local foi alvo de sabotagens cibernéticas, incêndios sem explicação e de mísseis israelenses durante a guerra de 12 dias. As imagens analisadas pela Bloomberg confirmam que uma edificação usada para testar centrífugas, danificada no ano passado, foi refeita.
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Sem inspetores internacionais, não é possível fazer uma estimativa sobre o estado das instalações subterrâneas. Segundo as autoridades iranianas, a unidade onde ocorre o enriquecimento de urânio está a cerca de 50 metros de profundidade, protegida por paredes de concreto de sete metros de espessura. E há outro fator que está do lado do Irã.
— Se o objetivo é a reconstituição usando o que eles conseguiram proteger, é fácil — declarou à Bloomberg Robert Kelley, ex-funcionário do Departamento de Energia dos EUA e ex-diretor da Aiea, apontando que o programa nuclear iraniano opera em escala industrial e tem décadas de experiência.
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Nos arredores de Natanz, imagens da Montanha da Picareta, onde há intensa atividade de caminhões e escavadeiras há ao menos seis anos, mostram que duas entradas subterrâneas foram ampliadas e cobertas com areia e cascalho. Segundo o Isis, o local não está em operação, e por isso teria sido poupado nos ataques americanos de junho. Até hoje, nenhum inspetor da Aiea esteve ali.
— Não temos esquemas internos para realmente avaliar como será o interior — diz Spencer Faragasso, pesquisador do Isis, à rede australiana ABC. — Mas, considerando o tamanho dos montes de rejeitos e a quantidade de obras em andamento, não seria incompreensível que instalassem uma unidade de enriquecimento de urânio ali dentro.
Vista aérea da instalação nuclear de Fordow, no Irã
Satellite image ©2025 Maxar Technologies / AFP
Dentro das demandas maximalistas de Trump, o Irã precisa abrir mão de seu programa nuclear, ou ao menos dar garantias factíveis de que ele jamais será militarizado. Desde 2018, quando o republicano rasgou um acordo que estabelecia limites ao enriquecimento de urânio em troca do fim de sanções, Teerã se vê sem incentivos para conter suas atividades atômicas. Com novas e avançadas centrífugas, o país tem cerca de 400 kg de urânio enriquecido a 60% (o grau militar é acima de 90%) e barrou inspeções externas. Uma das propostas sobre a mesa em Omã era a diluição do material enriquecido a um nível baixo, destinado apenas a uso civil, mas sem o desmantelamento de centrífugas e centrais.
Mas a lista de Trump (e de Israel, especialmente) inclui limites ao desenvolvimento de mísseis balísticos do Irã. Algumas armas têm alcance de até 2 mil km, e poderiam, caso Teerã assim decida, levar uma ogiva nuclear. Na guerra de 12 dias do ano passado, os israelenses tentaram destruir arsenais e unidades de produção, mas elas seguem em operação e ainda mais protegidas.
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A cerca de 30 km de Teerã, o complexo militar de Parchin é um dos principais centros de testes e desenvolvimento de explosivos de grande capacidade, foguetes de curto alcance e mísseis balísticos. Na década passada, a Aiea afirmou ter evidências de que o local abrigaria atividades ligadas ao suposto desenvolvimento de uma arma nuclear, o que Teerã nega. O complexo foi atacado duas vezes por Israel, em 2024 e 2025, e as imagens de satélite mostram que uma instalação usada para testes de explosivos foi reconstruída e está protegida por toneladas e concreto.
— O Irã está empenhado em reforçar a segurança deste edifício contra futuros ataques, o que sugere que ele é importante para alguns programas — disse Kelley à Bloomberg.
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Outro ponto crítico do programa de mísseis iraniano é a unidade de fabricação de mísseis de Khojr, nos arredores de Teerã. Ali, são produzidos componentes para mísseis e foguetes,além de combustível sólido e líquido para os armamentos. Em meados de 2022, passou por uma expansão para incrementar a capacidade de produção de projéteis para a Rússia, envolvida na invasão à Ucrânia. Khojr foi atingido por Israel em 2025, e as imagens de satélite mostram que prédios receberam barreiras de terra e concreto para evitar reações em cadeia em caso de novo ataque. Na prática, isso exigiria bombardeios em massa contra a instalação. E sem qualquer garantia de sucesso.
— A ação militar não é decisivamente eficaz como estratégia de combate à proliferação — disse Dolzikova à Bloomberg. — Ela pode atrasar o processo. Raramente o elimina.
(Com Bloomberg e New York Times)
