Trump diz haver promessas de US$ 5 bi para reconstruir Gaza; Israel aprova registrar partes da Cisjordânia como terras estatais

 

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste domingo que os Estados-membros de seu recém-criado Conselho da Paz se comprometeram a destinar mais de US$ 5 bilhões (R$ 26 bilhões) para a reconstrução da Faixa de Gaza, e que esses países também "comprometeram milhares de pessoas na Força Internacional de Estabilização e na Polícia Local para manter a segurança e a paz dos habitantes" do enclave palestino. Paralelamente, o governo de Israel avançou no registro de áreas da Cisjordânia ocupada como "terras estatais" — medida que os palestinos classificaram como "anexação de fato".

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Em postagem na rede social Truth Social, Trump não detalhou quais países fazem parte do Conselho de Paz, ou como os recursos serão distribuídos. Após uma reunião inicial no âmbito do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, em janeiro, o Conselho se reunirá na próxima quinta-feira na capital americana.

"Em 19 de fevereiro de 2026, estarei novamente acompanhado por membros do Conselho de Paz no Instituto Donald J. Trump para a Paz, em Washington, D.C., onde anunciaremos que os Estados-membros prometeram mais de US$ 5 BILHÕES para os esforços humanitários e de reconstrução em Gaza", escreveu Trump.

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Foi solicitado aos países o pagamento de US$ 1 bilhão (R$ 5,23 bilhões) para serem membros permanentes do Conselho. O convite ao presidente russo Vladimir Putin, cujo país invadiu a Ucrânia em 2022, gerou críticas. Aliados-chave dos Estados Unidos, como França e Reino Unido, manifestaram dúvidas a esse respeito.

O anúncio de Trump ocorre em paralelo à aprovação do governo de Israel a uma proposta para registrar grandes áreas da Cisjordânia ocupada como "propriedade do Estado".

— Estamos dando continuidade à revolução dos assentamentos para controlar todas as nossas terras — disse o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich.

"Trata-se de uma tentativa de impor à força o assentamento e a judaização no terreno, em flagrante violação do direito internacional e das resoluções relevantes da ONU", declarou o Hamas em comunicado.

Na semana passada, o Gabinete de segurança de Israel aprovou uma série de medidas que ampliam o controle e a presença jurídica israelense na Cisjordânia, território palestino ocupado e que enfrenta a expansão de assentamentos judaicos — ilegais pelas leis internacionais — e da repressão contra a população local pelas forças de segurança e colonos.

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A principal ação foi a derrubada de uma lei cunhada nos tempos de controle jordaniano do território — a ocupação israelense teve início após a Guerra dos Seis Dias, em 1967 —, que proibia a compra de terras por pessoas que não fossem muçulmanas. Até agora, judeus que quisessem comprar terras na Cisjordânia precisavam de licenças e intermediários, mas agora, a nova interpretação quer "permitir que os judeus comprem terras na Judeia e Samaria (termo bíblico usado por Israel para se referir à Cisjordânia) da mesma forma que compram [terras] em Tel Aviv ou Jerusalém".

O pacote ordena a publicação de todos os registros de propriedades na Cisjordânia, que até agora eram sigilosos, permitindo que os donos das terras sejam identificados e que possam ser pressionados a vender seus terrenos. Outra medida é a transferência da autoridade sobre novas construções no assentamento judaico de Hebron para Israel — até agora, essa era responsabilidade do município de Hebron, que responde à Autoridade Nacional Palestina (ANP), em conjunto com representantes de Israel.

Pelo plano, Israel quer ampliar seus poderes administrativos nas áreas A e B, o que pode ser uma violação dos Acordos de Oslo II, assinados em 1995 e que estabeleceram as bases para um governo palestino da Cisjordânia. Segundo os acordos, a área A está sob controle civil palestino e militar de Israel, e a área B é controlada totalmente pela ANP.

Ao comentar as medidas, Bezalel Smotrich, ministro das Finanças e um dos defensores do plano, disse que ele e seus colegas de governo "continuarão a matar a ideia de um Estado palestino".

Apesar da oposição de boa parte da comunidade internacional e dos Estados Unidos, o Gabinete do premier Benjamin Netanyahu não esconde as intenções de ocupar, de maneira total, a Cisjordânia, um desejo antigo dos colonos judeus. Em outubro, o Parlamento aprovou, em primeira votação, um projeto neste sentido, mas Netanyahu tentou se afastar da iniciativa, temendo represálias da Casa Branca.

O presidente da ANP, Mahmoud Abbas, disse que o plano israelense é ilegal e inválido, e configura "uma tentativa aberta de Israel de legalizar a expansão dos assentamentos, o confisco de terras e a demolição de propriedades palestinas, inclusive em áreas de soberania palestina". O grupo Hamas, presente na Faixa de Gaza, exigiu "que as nações árabes e muçulmanas cumpram sua responsabilidade histórica de desafiar a ocupação e seu grande plano de anexar a Cisjordânia".

Sem contar Jerusalém Oriental, ocupada e anexada por Israel, mais de 500 mil israelenses vivem em assentamentos e postos avançados na Cisjordânia, considerados ilegais, segundo o direito internacional. Neste território vivem cerca de três milhões de palestinos. A ONU informou que a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia alcançou, em 2025, seu nível mais alto desde 2017, quando a organização internacional começou a coletar esses dados.