Trump corta dinheiro da ciência nos EUA e afugenta cérebros do ‘paraíso’ dos pesquisadores

 

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Em março do ano passado, Wali Malik, engenheiro de robótica em Cambridge, Massachusetts, recebeu uma ligação de uma instituição de pesquisa na Áustria, um país onde nunca estivera e onde não conhecia ninguém. O homem do outro lado da linha disse: “‘Temos uma oportunidade para construir um instituto do zero, voltado para inteligência artificial e ciências da vida.’”

Malik não estava buscando mudar completamente sua vida e mudar para o exterior. Era casado, tinha três filhos, e seus pais moravam em Washington. Mas, com o presidente Donald Trump reduzindo drasticamente o financiamento à pesquisa científica, ele resolveu arriscar.

— Amigos perderam seus empregos — disse: — Vi isso acontecendo em tempo real. Então pensei: ‘Vou considerar isso'.

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Malik assinou contrato em maio para chefiar um novo laboratório de robótica no Instituto de Pesquisa em Inteligência Artificial Biomédica da Áustria e mudou-se com a família para Viena. Sua primeira tarefa foi contratar cientistas de ponta. Ele ajudou a recrutar uma equipe de quatro — todos provenientes de laboratórios de pesquisa nos Estados Unidos, das universidades Yale, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Instituto de Tecnologia da Califórnia e Universidade da Califórnia em São Francisco.

— Ninguém na minha área tem a oportunidade de construir algo desde o primeiro dia — afirmou.

Aos 39 anos, Malink é apenas um exemplo do que ameaça se tornar uma tendência preocupante: a saída de cientistas talentosos dos Estados Unidos em busca de oportunidades no exterior. Contínuos ataques do governo Trump à academia e os cortes de financiamento à pesquisa científica abriram espaço para que outros países atraiam pesquisadores como os que ajudaram a tornar os Estados Unidos líderes mundiais em avanços médicos e tecnológicos. Essa fuga de cérebros pode ter um custo muito alto para a economia americana.

Um estudo de setembro da Fundação de Inovação e Informação Tecnológica, em Washington, alertou que, sem uma reversão, os cortes na ciência podem reduzir a economia dos EUA em quase US$ 1 trilhão ao longo de 10 anos. Isso pode deixar o país atrás da China, que vem investindo pesadamente em pesquisa.

A proposta orçamentária de Trump para 2027 inclui novos cortes no financiamento científico.

Não há uma contagem precisa de quantos cientistas optaram por deixar os Estados Unidos desde que Trump voltou ao cargo, em janeiro do ano passado. Mas os cortes de financiamento, somados ao endurecimento das políticas migratórias da Casa Branca, também podem interromper a entrada de talentos estrangeiros de ponta. Isso significa que os Estados Unidos podem perder a próxima geração de inovadores como Elon Musk, Sundar Pichai e Satya Nadella — todos imigrantes que se mudaram para o país e passaram a liderar algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo.

Um presente inesperado

A atração exercida pelos Estados Unidos continua forte, é claro: centenas de fundadores estrangeiros transferiram seus negócios para polos vibrantes de tecnologia e pesquisa como Nova York ou o Vale do Silício, onde o capital de risco é muito mais acessível. Cerca de 30% das startups europeias que mais tarde passaram a valer mais de US$ 1 bilhão deixaram a Europa entre 2008 e 2021, a grande maioria rumo aos EUA.

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Mas, para o restante do mundo, os cortes do governo Trump na ciência parecem um presente inesperado. E vários países estão fazendo investimentos significativos para atrair talentos americanos — justamente quando a disputa por especialistas em inteligência artificial atinge níveis intensos.

— A última vez que houve uma oportunidade tão grande foi durante a Guerra do Vietnã, quando muitos graduados estavam indo para o Canadá — disse a ministra da Indústria do Canadá, Mélanie Joly, no ano passado, ao descrever os planos do governo para atrair cientistas americanos de ponta.

O Canadá lançou em dezembro um programa de US$ 1,2 bilhão com duração de 12 anos.

— Queremos os melhores e mais brilhantes — afirmou a ministra.

Da mesma forma, a China acelerou o processo de realocação para cientistas que haviam perdido financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, onde o governo Trump cancelou ou congelou 5.844 bolsas de pesquisa no ano passado, segundo dados analisados pela revista Nature. E, em maio, a União Europeia lançou o programa “Escolha a Europa para a Ciência”, de 500 milhões de euros, levando diversas instituições nos 27 países do bloco a criar iniciativas próprias adicionais.

— Os Estados Unidos sempre foram o paraíso dourado para os cientistas — apontou einz Fassmann, presidente da Academia Austríaca de Ciências, que no ano passado introduziu bolsas de 500 mil euros por quatro anos para 25 cientistas americanos: — Esta pode ser uma chance de reverter o fluxo migratório.

Quando Malik contou a seus colegas que estava se mudando para Viena, “eles ficaram chocados”, disse:

— Mas todos disseram: ‘Queria poder ir com você. Preciso sair daqui.’

Ainda assim, o tamanho e a duração desse movimento migratório de talentos americanos permanecem incertos. Dirigentes universitários na Europa dizem que acompanharão de perto as eleições de novembro nos Estados Unidos, acreditando que uma vitória democrata poderia desacelerar o êxodo.

A Universidade Aix-Marseille, na França, iniciou um programa em março do ano passado para contratar cientistas americanos. Seis já chegaram até agora.

— Estamos esperando as eleições. Teremos muito mais candidaturas se os republicanos vencerem, então precisaremos de um novo programa — avaliou Éric Berton, presidente da universidade.

Um estilo de vida diferente

Apesar dos novos esforços de recrutamento, o dinheiro continua sendo um fator limitante para atrair grandes números de cientistas americanos para a Europa. Malik estima que os salários para pesquisadores em Viena são cerca de um terço menores do que nas instituições de pesquisa dos EUA. E empresas europeias gastaram 270 bilhões de euros a menos em pesquisa e inovação do que suas equivalentes americanas em 2021, segundo um relatório da União Europeia.

Instituições de pesquisa financiadas com recursos públicos só conseguem absorver um número limitado de profissionais experientes dos Estados Unidos.

— Só conseguimos chegar a 10 ou 12 — disse Mehran Mostafavi, vice-presidente de pesquisa da Universidade Paris-Saclay, que abriu vagas para cientistas americanos de ponta após os cortes promovidos por Trump no ano passado.

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Mas americanos que consideram se mudar para a Europa dizem que estão ponderando salários menores diante de financiamento mais estável e de um custo de vida mais baixo e tranquilo.

— Fui motivada em parte pelo desejo de um estilo de vida mais comum na Europa — disse Lauren Altman, de 31 anos, física experimental da Universidade da Pensilvânia, que recebeu uma oferta de trabalho na Paris-Saclay: —Adoro a facilidade de caminhar e o transporte público.

Altman disse temer que a perda de centenas de cientistas possa causar danos duradouros à pesquisa nos Estados Unidos:

— Isso terá efeitos de longo alcance, não apenas sobre quem está sendo contratado agora, mas sobre quem estará sendo formado daqui a 15 anos.

Antes de se mudar para Viena, Malik enfrentava um deslocamento estressante de 90 minutos de sua casa em Northborough até Cambridge, onde era diretor sênior de automação de laboratório na Tessera Therapeutics. Ele disse que agora tem um trajeto mais tranquilo de 40 minutos de trem até o trabalho. Seus filhos, de 11 e 9 anos, estão se tornando fluentes em alemão.

— Para mim, ter mais tempo para passar com a família e aproveitar os fins de semana viajando para diferentes países é uma grande experiência — disse Malik.

Ainda assim, ele reconhece as desvantagens profissionais. Malik afirmou que a Europa está bem atrás dos Estados Unidos em infraestrutura científica, como capacidade computacional. Isso, somado à necessidade de capital quando cientistas tentam expandir seus projetos, pode limitar a capacidade dos governos de tirar pleno proveito da atração de pesquisadores americanos.