Trump chama plano de paz com o Irã de 'passo significativo' mas insuficiente após Teerã rejeitar cessar-fogo temporário
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira que o plano de paz encaminhado por mediadores do diálogo diplomático com o Irã é um "passo muito significativo" para o fim do conflito no Oriente Médio, embora os termos ainda não sejam os ideias. O comentário do presidente americano foi feito a jornalistas na Casa Branca, horas após relatos de que uma proposta teria sido enviada para Washington e Teerã entre a noite de domingo e a manhã desta segunda, e após autoridades da nação persa terem dito publicamente que rejeitam qualquer termo que inclua um cessar-fogo parcial, e não um fim definitivo para as hostilidades e garantias de uma não retomada.
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— É uma proposta significativa, é um passo significativo. Não é bom o suficiente, mas é um passo muito significativo — disse Trump, referindo-se a uma proposta de cessar-fogo de 45 dias que teria sido estudada pelos EUA. Ele acrescentou que os trabalhos agora seguem com os mediadores.
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Rumores sobre um plano de paz ganharam força nas primeiras horas desta segunda-feira após uma fonte ouvida pela agência Reuters afirmar que EUA e Irã teriam recebido um plano de cessar-fogo em duas etapas elaborado pelo Paquistão, com previsões imediatas de fim das hostilidades e reabertura do Estreito de Ormuz, seguido por um período de negociação para um acordo de paz definitivo. Em Washington, Trump afirmou que o vice-presidente JD Vance, o enviado especial Steve Witkoff e o genro Jared Kushner estão conversando com os mediadores, e que seu vice oderia estar envolvido em uma reunião presidencial para negociar o fim da guerra. Porém, à margem do tradicional evento de Páscoa da Casa Branca, o presidente americano também afirmou que era o único com poder para decidir sobre isso.
— O único que pode estabelecer um cessar-fogo sou eu — disse Trump a repórteres.
Horas após a informação inicial sobre o plano proposto circular, o governo do Irã se referiu a termos transmitidos pelo Paquistão e por outros mediadores, rejeitando qualquer hipótese de cessar-fogo temporário. Em uma coletiva de imprensa em Teerã, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano Esmail Baghaei confirmou o diálogo com os EUA por meio de mediadores, mas afirmou que esboços repassados ao país incluiriam 15 pontos formulados pelos EUA, aos quais classificou como "ilógicos" e "excessivos", e que o país nunca iria aceitar condições impostas pelos americanos, mesmo que sob pressão.
— Nós não temos que ceder quando se trata de nossa segurança nacional e dos nossos interesses nacionais — afirmou o porta-voz. — Esses pontos [15 pontos americanos] foram transmitidos a nós anteriormente, trocamos mensagens e cartas por meio dos mediadores, mas, honestamente, as negociações não podem acontecer paralelamente a ameaças. Eles não podem nos ameaçar e nos pedir para sentar à mesa de negociação.
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Em uma fala publicada pela agência estatal iraniana IRNA, Baghaei é citado dizendo que o Irã pede "o fim da guerra" e "a prevenção de sua recorrência". Na coletiva de imprensa, o porta-voz disse que as demandas iranianas seriam tratadas em público quando oportuno. Uma fonte apontada pela Reuters como uma autoridade sênior do governo iraniano afirmou que o país rejeitou a reabertura do Estreito de Ormuz em troca de uma trégua.
Ao menos uma segunda proposta tem sido mencionada por fontes de diversos países em meio às conversas sobre tratativas diplomáticas. O site Axios publicou que um cessar-fogo de 45 dias estava sendo discutido como parte de um plano dividido em duas fases, com potencial para encerrar o conflito de forma permanente, com base em fontes dos EUA, de Israel e de países da região. Em entrevista à Al-Jazeera, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, Tahir Andrabi, rejeitou tratar sobre planos em específico, resumindo que as conversas estavam "avançando".
Agressões e pressão
As tratativas acontecem em meio a renovadas agressões no campo de batalha e promessas de uma ampliação do conflito por ambos os lados. A Guarda Revolucionária do Irã anunciou ter atacado o navio americano USS Tripoli na costa do Kuwait, forçando a embarcação a se retirar. O Pentágono não confirmou qualquer impacto da ação nesta segunda. As forças iranianas também confirmaram novos ataques com drones contra posições em Israel, Kuwait e Emirados Árabes Unidos — neste último, o alvo teria sido um centro de produção de drones operado em conjunto com o Estado judeu. O Ministério da Defesa dos 4Emirados Árabes Unidos afirmou que os sistemas de defesa aérea do país interceptaram 12 mísseis balísticos, 2 mísseis de cruzeiro e 19 ataques de drones provenientes do Irã nesta segunda, sem especificar os alvos e que a queda de destroços feriu uma pessoa em Abu Dhabi. O Ministério da Saúde do Kuwait, por sua vez, confirmou seis feridos em um ataque iraniano contra uma área residencial no norte do país.
A lista de vítimas de ataques anteriores também cresceu. Os serviços de emergência israelenses do Magen David Adom confirmaram que o número de mortos em um bombardeio iraniano a um prédio em Haifa, no domingo, subiu para quatro, após a retirada dos corpos dos destroços. Entre as vítimas estavam dois idosos na faixa dos 80 anos.
Bombeiros resgatam feridos em Haifa, cidade israelense atacada no domingo
Reprodução/X/@Mdais
O Ministério da Defesa de Israel e as Forças Armadas do Estado judeu também confirmaram novas ações contra alvos iranianos, incluindo a morte do chefe da inteligência da Guarda Revolucionária do Irã, Seyed Majid Khademi, em um ataque nesta segunda-feira. Além da eliminação de mais uma figura de alto-perfil na hierarquia das forças iranianas, bombardeiros atingiram instalações da indústria petroquímica do Irã, em Pars e Asaluyeh.
Os ataques israelenses também voltaram a atingir outras frentes de guerra. No Líbano, o Ministério da Saúde do país afirmou que dois paramédicos foram mortos e outro ficou ferido após um ataque ao sul do país. As Forças Armadas israelenses afirmam que os alvos bombardeados no Líbano têm ligação com o Hezbollah, movimento aliado ao Irã.
Os ataques aéreos trocados ao redor das regiões do Golfo e do Levante ocorrem em meio a temores de uma intensificação das ações. Em um ultimato ao Irã, Trump prometeu desatar "o inferno" sobre a nação persa, caso não concordasse com um cessar-fogo ou uma abertura do Estreito de Ormuz — cujo fechamento quase total elevou o preço global do barril de petróleo para mais de 100 dólares. Um navio turco conseguiu cruzar a região nesta segunda, em uma rara exceção.
Majid Khademi, chefe da inteligência iraniano morto nesta segunda-feira
TV estatal do Irã
O Irã prometeu uma retaliação sem precedentes em caso de ataques americanos ou israelenses a suas infraestruturas energéticas críticas e infraestrutura civil, em aparente resposta à ameaça de Trump. Em uma declaração à imprensa iraniana, o Exército do país afirmou que permaneceria em combate até os planos da liderança política serem atingidos.
— Podemos continuar a guerra enquanto as autoridades políticas assim o desejarem — disse o porta-voz militar Mohammad Akraminia à agência de notícias ISNA. — O inimigo certamente se arrependerá, porque, após esta guerra, precisamos alcançar um ponto de segurança e não presenciar outra guerra.
Preocupação com o direito internacional
O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, disse que se o presidente americano concretizar a ameaça, que incluiu ataques a usinas e pontes, estará violando o direito internacional — algo que foi apontado como preocupação por especialistas e aliados dos EUA, que afirmam que o presidente tem ameaçado com frequência cometer crimes de guerra.
"O presidente dos Estados Unidos, como a mais alta autoridade de seu país, ameaçou publicamente cometer crimes de guerra", escreveu Gharibabadi nas redes sociais. "Recomenda-se que, antes que o nome do presidente dos EUA seja registrado na história como um grande criminoso de guerra, ele cesse essas ameaças — cujas consequências não se limitarão apenas ao Irã".
O discurso se aproxima da declaração feita pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, que nesta segunda-feira afirmou que atacar infraestruturas civis no Irã é "ilegal", usando uma linguagem incomumente direta. A União Europeia emitiu um alerta particularmente claro aos EUA em relação ao Irã.
"Qualquer ataque a infraestruturas civis, nomeadamente instalações de energia, é ilegal e inaceitável", disse Costa. "A escalada não levará a um cessar-fogo e à paz." (Com AFP e NYT)
