Trump avalia ação militar, cibernética ou econômica ao Irã em meio a protestos que já deixaram ao menos 200 mortos

 

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a avaliar de forma mais concreta possíveis respostas à repressão do regime iraniano contra manifestações antigovernamentais que já deixaram centenas de mortos desde o início dos protestos, há cerca de duas semanas, segundo funcionários em Washington familiarizados com o assunto em relatos ao New York Times. Auxiliares do governo americano preparam briefings com opções que vão de sanções e ações cibernéticas a eventuais ataques militares, enquanto Trump endurece o discurso público e afirma estar disposto a agir caso Teerã continue usando força letal contra civis.

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As manifestações começaram como protestos contra o aumento do custo de vida, em meio a uma grave crise econômica, mas rapidamente se transformaram em um movimento de contestação ao regime teocrático que governa o Irã desde a Revolução Islâmica de 1979. Desde então, os atos se espalharam por várias cidades, incluindo Teerã e Mashhad, apesar de um bloqueio quase total da internet imposto pelas autoridades, que dificulta a comunicação e a verificação das informações.

Segundo a ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, ao menos 192 manifestantes morreram desde o início das mobilizações, incluindo nove menores de idade. A entidade afirma que o número real pode ser maior, já que o apagão da internet impede a confirmação de novos casos. Já de acordo com a Hrana, ONG sediada nos EUA, pelo menos 538 pessoas teriam sido mortas, sendo 490 manifestantes e 48 membros de forças de segurança. O número de presos, conforme a mesma fonte, ultrapassa os 10 mil. As organizações apontam para hospitais sobrecarregados, falta de sangue e feridos com disparos, inclusive nos olhos.

É nesse contexto que Trump tem elevado o tom. Em publicações nas redes sociais, o republicano afirmou que “o Irã está olhando para a liberdade, talvez como nunca antes” e declarou que os Estados Unidos “estão prontos para ajudar”. Em declarações a jornalistas, foi mais direto: disse que, se o regime iraniano voltar a “matar pessoas como no passado”, os EUA “se envolverão”, ainda que sem o envio de tropas.

— E isso não significa tropas em terra, mas significa atingi-los muito, muito duro onde dói — disse.

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Cenários de resposta

Autoridades americanas afirmam que Trump foi informado nos últimos dias sobre diferentes cenários de resposta. Entre as opções em discussão estão ataques direcionados a estruturas dos serviços de segurança iranianos usados para reprimir os protestos, operações cibernéticas contra alvos militares e civis, novas sanções econômicas e medidas para ampliar o acesso dos iranianos à internet, como o envio de terminais do sistema de satélites Starlink. Não há, até o momento, decisão final, já que as deliberações ainda estão em estágio inicial.

Uma reunião formal com integrantes centrais da área de segurança nacional — como o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine — está prevista para discutir os próximos passos. Segundo funcionários do governo, há preocupação de que uma ação militar direta possa ter efeito contrário ao desejado, fortalecendo o discurso do regime de que os protestos seriam estimulados por potências estrangeiras, além de provocar retaliações que coloquem em risco forças e interesses americanos na região.

As ameaças, porém, não ficaram sem resposta. No domingo, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, advertiu que bases militares e centros navais dos Estados Unidos seriam considerados “alvos legítimos” caso Washington realize um ataque. A declaração reforçou o risco de escalada em uma região já marcada por tensões elevadas, especialmente após confrontos recentes envolvendo Israel, Síria e grupos armados apoiados por Teerã.

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O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, afirmou que o governo não recuará diante dos protestos, enquanto autoridades do Judiciário e da segurança adotaram um discurso ainda mais duro. O procurador-geral Mohammad Movahedi Azad classificou manifestantes como “inimigos de Deus”, acusação que, no sistema jurídico iraniano, pode levar à pena de morte. A polícia anunciou prisões “significativas” de figuras ligadas às mobilizações, sem divulgar números ou identidades.

Por sua vez, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, adotou um tom conciliador em entrevista à televisão estatal, oferecendo condolências às famílias afetadas pelas “consequências trágicas” dos distúrbios. Ele afirmou que os protestos precisam “ser ouvidos”, prometendo aos iranianos que o governo tratará de “suas angústias”. Ainda assim, Pezeshkian acusou os EUA e Israel de trazerem “terroristas do exterior”, que, segundo ele, incendiaram mesquitas e mercados, “decapitaram alguns e queimaram outros vivos”.

No exterior, as manifestações provocaram reações políticas e protestos de solidariedade. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse esperar que “a nação persa seja libertada do jugo da tirania”, enquanto Rubio discutiu a situação com o líder israelense em conversas que também abordaram Síria e Gaza. Em cidades como Paris, Londres e Istambul, milhares de pessoas foram às ruas em apoio aos iranianos.

Trump, por sua vez, tem citado ações recentes para reforçar sua credibilidade ao ameaçar novos passos. Aliados lembram a ofensiva americana na Venezuela, no início do mês, e ataques conduzidos em países como Síria, Iêmen e Somália. Ainda assim, integrantes do próprio governo reconhecem que qualquer decisão sobre o Irã exigirá um equilíbrio delicado entre pressionar o regime e evitar uma escalada regional de grandes proporções, enquanto o número de mortos nas ruas iranianas continua a crescer. (Com Bloomberg, AFP e New York Times)