Trump aumenta a pressão sobre a Ucrânia e faz afagos em série a Putin 

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Fonte da notícia: Notícias Veja Notícias Veja

As costuras diplomáticas para tentar pôr um fim à prolongada guerra na Ucrânia, prestes a completar cinco anos, voltaram a ser tecidas nos últimos dias, tirando o assunto do limbo em que repousa desde que os olhos do mundo se voltaram para o conflito no Irã. Oito meses após a última reunião entre delegações de Moscou e Kiev, com a presença de integrantes do governo Donald Trump, as três partes se preparam para se sentar à mesa daqui a duas semanas, em Abu Dhabi.

A perspectiva de um avanço nas tratativas seria motivo para celebração, não fosse a recente reaproximação de Trump e Vladimir Putin, a quem o presidente americano vem fazendo afagos em série, muito mais do que os que dedica a seu (em tese) aliado, o ucraniano Volodymyr Zelensky. Na agenda do ocupante da Casa Branca, aliás, está previsto outro encontro, no Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, entre 17 e 19 de novembro, com Putin e Xi Jinping.

O mandatário chinês, sim, parece mais condizente com a tática de Washington para encerrar o imbróglio no Leste Europeu. Detalhe: Zelensky não foi convidado.

O desejo de Trump seria colocar lado a lado os líderes russo e ucraniano no fórum do G20, em dezembro, aproveitando o ensejo para selar um acordo de paz. A questão é que esse movimento se desenrola enquanto ele deixa a Ucrânia à deriva, preocupado que está com o xadrez doméstico.

Com as eleições legislativas de meio de mandato na próxima terça-feira 3, decisivas para definir a envergadura de seu poder, o mercurial presidente atropelou leis aprovadas pelo Congresso que determinavam sanções a Moscou e fechou negócio para importar 2 milhões de barris de diesel russo, liberando outros países a fazê-lo, o que fortalece Putin.

O objetivo de Trump é baixar o preço nos postos de gasolina, que fazem a inflação disparar e doem no bolso do eleitor. A iniciativa expõe o quanto os interesses da Ucrânia são item secundário para a Casa Branca, que não pensou duas vezes ao abandonar o acordo de restrições comerciais à Rússia, acertado com os europeus.

“Como a medida não afeta de forma significativa o mercado energético, ela se presta mais a agradar eleitores republicanos e fazer pressão sobre a Ucrânia”, avalia Reed Blakemore, do think tank Atlantic Council. A inclinação americana para priorizar as necessidades de Putin não é novidade, mas ganhou contornos cristalinos no chamado cessar-fogo energético que Trump anunciou, de maneira unilateral, em 11 de outubro.

Longe de conduzir a uma trégua genuína, a proposta foi desenhada quase exclusivamente para blindar a infraestrutura de refino da Rússia, proibindo a Ucrânia de usar sua maior e mais eficiente arma de retaliação: os ataques de drones de longo alcance contra refinarias nos rincões da nação inimiga, aos quais Trump vem atribuindo a subida no valor dos combustíveis.

Quando Zelensky se recusou a acatar a decisão, a resposta foi devastadora no front. A rede de satélites Starlink, serviço da SpaceX, de Elon Musk, do qual as forças ucranianas dependem, sofreu um baque: a velocidade do sinal subitamente despencou, e centenas de aeronaves tombaram dos céus.

A Casa Branca negou ter ordenado um boicote tecnológico, como Zelensky sugeriu, embora Musk, que voltou às boas com Trump, tenha admitido que o freio em sua rede foi intencional — “Kiev violou os termos de uso”, justificou. Ao fim, o enrosco representou um duríssimo golpe em um sistema de defesa já fragilizado pela crítica escassez de mísseis interceptadores Patriot, fabricados nos Estados Unidos.

MÃOS DADAS – Vladimir Putin (à esq.) e Trump: reaproximação ensaiada./Getty Images Continua após a publicidade

A pressão sobre Kiev não parou por aí, e Trump voltou a insistir na tecla de que Zelensky deve ser removido do poder. “Acho que é hora de a Ucrânia ter um novo presidente”, bradou ele, pedindo a substituição do atual mandatário por alguém que “consiga fechar um acordo”.

O conjunto de estocadas da Casa Branca empareda os ucranianos, que precisam de Washington para obter informações de inteligência e armamentos. A Europa, sempre alerta à ameaça russa, segue comprando arsenal americano a preço cheio para repassá-lo a Kiev por valores mais amigáveis, mas não tem capacidade industrial nem espacial para abastecer o aliado de satélites e interceptadores que vinham dos Estados Unidos antes de a fonte por lá secar.

Enquanto as peças se trombam no intrincado tabuleiro, os termos à mesa para encerrar o conflito continuam desfavoráveis para o país de Zelensky: entregar cerca de 25% do território e abandonar o plano de integrar a Otan (a aliança militar que Putin vê como perigo existencial), tudo isso somado à reativação do gás russo para a Europa e a um alívio geral das sanções.

“Trump considera a Ucrânia a parte mais fácil de fazer ceder em uma guerra incômoda que ele passou a tratar como problema essencialmente europeu”, avalia Stefan Wolff, especialista em segurança internacional da Universidade de Birmingham. Continua após a publicidade

No campo de batalha, apesar da supremacia russa, nenhum dos lados parece em condições de impor uma vitória militar definitiva. Ofensivas recentes, como a Operação Vivaldi, na qual a Ucrânia retomou um naco considerável de terras, são sinais da capacidade de reação de Kiev, mas não alteram o impasse na linha de frente.

Para tentar desequilibrar o duelo, Moscou acelerou a produção de mísseis balísticos e passou a empregar drones impulsionados à velocidade de 600 quilômetros por hora, difíceis de ser abatidos. A estratégia é colapsar os serviços de energia, água e esgoto de grandes cidades ucranianas antes da chegada do inverno.

“Suspender as sanções contra a Rússia só faz dar mais fôlego à guerra”, lamentou Kaja Kallas, chefe da diplomacia da União Europeia, dirigindo-se à Casa Branca. Evidentemente feliz com o descompasso entre aliados históricos, o empoderado Putin já avisou que não irá interromper os ataques em meio às negociações que se aproximam, embora tenha concordado, na terça-feira 27, com um cessar-fogo pontual — mediado não por Trump, mas pela primeira-dama Melania.

Vale apenas para a pequena cidade de Oleshky, onde a chuva de bombas parou para viabilizar a retirada de milhares de civis por um corredor humanitário. Um gesto bem-vindo, mas que não faz muita diferença nos rumos da guerra.

Continua após a publicidade Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019

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Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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