Trump ameaça obliterar Ilha de Kharg, instalações elétricas e de petróleo e usinas de dessalinização do Irã se não houver acordo

 

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que Washington mantém “discussões sérias” com um “novo regime” iraniano que poderia encerrar as operações militares no país, mas ameaçou destruir usinas elétricas, poços de petróleo e a Ilha de Kharg caso um acordo não seja alcançado “em breve”. A declaração, publicada na rede Truth Social nesta segunda-feira, foi feita apenas um dia após o republicano afirmar que gostaria de “tomar o petróleo” da República Islâmica, sugerindo a possibilidade de invadir Kharg.

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“Os EUA estão em discussões sérias com um novo e mais razoável regime para encerrar nossas operações militares no Irã. Grande progresso foi feito, mas, se por qualquer razão um acordo não for alcançado em breve, o que provavelmente acontecerá, e se o Estreito de Ormuz não for imediatamente ‘aberto para negócios’, concluiremos nossa adorável ‘estadia’ no Irã explodindo e obliterando completamente todas as suas usinas geradoras de eletricidade, poços de petróleo e a Ilha de Kharg (e possivelmente todas as usinas de dessalinização!), que propositalmente ainda não ‘tocamos’”, escreveu Trump.

Mais tarde nesta segunda, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, se recusou a dizer com quem os EUA estão conversando no Irã, declarando à ABC News que não iria “revelar quem são essas pessoas” porque isso “provavelmente as colocaria em apuros com outros grupos dentro do Irã”. Ele disse que “seria ótima” a possibilidade de haver pessoas dispostas a “seguir uma direção diferente” no país, mas acrescentou que o governo está fazendo planos caso quaisquer novos líderes não tenham uma visão “mais razoável para o futuro”.

— Há claramente pessoas lá falando conosco de maneiras que líderes anteriores no Irã não falaram no passado. Sempre preferimos resolver as coisas por meio de negociação e diplomacia, mas também temos de estar preparados para o fato de que esse esforço pode falhar.

Localizada a cerca de 24 quilômetros da costa iraniana, a Ilha de Kharg abriga um dos principais terminais petrolíferos do Irã e é considerada sua principal linha de sustentação econômica. Cerca de 90% do petróleo bruto iraniano passa pelo terminal da ilha, transportado por dutos vindos do continente. Petroleiros de grande porte conseguem atracar em seus longos píeres, graças à proximidade com águas profundas, e seguem pelo Golfo Pérsico até o Estreito de Ormuz, rota por onde escoa grande parte do petróleo mundial. Ao Financial Times no domingo, Trump declarou:

— Para ser honesto com você, minha coisa favorita é ficar com o petróleo no Irã, mas algumas pessoas estúpidas aqui nos EUA dizem: ‘Por que você está fazendo isso?’ Mas são pessoas estúpidas. Talvez tomemos a Ilha de Kharg, talvez não. Temos muitas opções. Também significaria que teríamos de ficar lá por um tempo — declarou ele, que, quando questionado sobre as defesas iranianas no local, afirmou: — Não acho que eles tenham qualquer defesa. Poderíamos tomar muito facilmente.

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Apesar do tom elevado, Trump afirmou, também em entrevista ao FT, que as negociações indiretas entre Washington e Teerã, por meio de “emissários” paquistaneses, estavam avançando bem. Ele estabeleceu o prazo de 6 de abril para que o Irã aceite um acordo que encerre a guerra ou enfrente ataques americanos ao seu setor energético e, quando questionado sobre a possibilidade de um acordo de cessar-fogo nos próximos dias que reabriria o Estreito, se recusou a oferecer detalhes.

— Ainda temos cerca de 3 mil alvos. Bombardeamos 13 mil, e restam mais alguns milhares — disse. — Um acordo pode ser feito com bastante rapidez.

Mapa mostra onder fica o Estreito de Ormuz

Arte O Globo

Trump também afirmou que o Irã já teria passado por “mudança de regime” após a morte, no início da guerra e em ataques posteriores, do líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, e de muitos outros altos funcionários. E reiterou sua afirmação de que Mojtaba Khamenei, filho de Khamenei e novo líder supremo, poderia estar morto ou gravemente ferido, embora Teerã insista que o chefe de Estado iraniano está bem.

— As pessoas com quem estamos lidando são um grupo totalmente diferente… [Eles] são muito profissionais — declarou. — O filho [de Ali Khamenei] está morto ou em estado extremamente grave. Não tivemos nenhuma notícia dele. Ele desapareceu.

Ilha estratégica

Os comentários do presidente americano foram feitos pouco mais de um mês após o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, que mergulhou o Oriente Médio em crise e fez o preço do petróleo disparar mais de 50%. O conflito foi ampliado nos últimos dias, com um ataque a uma base aérea na Arábia Saudita ferindo 12 militares americanos e danificando uma aeronave de vigilância dos Estados Unidos na sexta-feira. Rebeldes houthis no Iêmen dispararam um míssil balístico contra Israel, ameaçando uma nova fase de escalada.

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Enquanto isso, os EUA também enviam reforços ao Oriente Médio. Milhares de soldados foram deslocados para a região, incluindo contingentes de fuzileiros navais e tropas aerotransportadas. Uma unidade com cerca de 3,5 mil militares chegou com o navio de guerra USS Tripoli, enquanto outras forças seguem a caminho. Segundo a CBS News, autoridades do Pentágono fizeram preparativos detalhados para um eventual envio de tropas terrestres. A Casa Branca não comentou.

A captura da ilha poderia interromper as exportações iranianas de petróleo e servir de base para operações contra o território continental, publicou a rede britânica BBC. Analistas apontam que o controle da instalação também poderia ser usado como instrumento de pressão para reabrir o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas globais, por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo mundial.

Trump já havia mencionado a infraestrutura energética da ilha anteriormente. Em 13 de março, afirmou que forças americanas haviam “obliterado totalmente” alvos militares no local, mas que a infraestrutura petrolífera foi poupada “por razões de decência”. O Comando Central dos EUA disse ter atingido mais de 90 alvos militares, incluindo instalações de armazenamento de minas navais e bunkers de mísseis, preservando o terminal petrolífero.

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O Irã afirma que suas instalações energéticas não sofreram danos e diz que o fluxo de exportações continua normalmente, embora tenha advertido que um ataque à infraestrutura energética do país levaria à destruição imediata de instalações de petróleo e energia de empresas que trabalhem com os EUA. Nos últimos dias, Teerã reforçou as defesas da ilha, com envio de pessoal militar adicional, sistemas de defesa aérea e mísseis superfície-ar portáteis. Relatos também indicam a instalação de minas nas águas ao redor do local. (Com AFP)