Trinta e seis agentes foram presos em três dias de ações policiais; saiba mais
Por três dias seguidos, o avanço do crime organizado sobre estruturas do Estado no Rio ganhou contornos mais nítidos. Em ações da Polícia Federal, do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio e da Polícia Civil, 36 policiais foram presos. Nas três fases da Operação Anomalia, da PF — que apura as conexões do Comando Vermelho com agentes políticos e policiais —, foram para atrás das grades delegados da própria corporação e da Polícia Civil, suspeitos de atuar em favor da facção. Ontem, a terceira etapa da ofensiva mirou o que os investigadores descrevem como o braço armado de proteção do CV: sete policiais militares que faziam a escolta de traficantes em idas a consultas médicas e enterros.
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Segurança de influencer
Um dos episódios citados no relatório da ação deflagrada ontem envolve o serviço de “segurança” prestado ao influenciador Hytalo Santos durante o “Baile da Escolinha”, evento organizado pelo tráfico no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. De acordo com os investigadores, Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, apontado como um dos chefes do tráfico, determinou que os PMs fizessem a escolta de Hytalo, que aparece em vídeos na favela ao lado do criminoso e do então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, em 11 de julho de 2024. Segundo a investigação, o pedido de “escolta” foi feito ao PM Rodrigo Oliveira de Carvalho, apontado como chefe da equipe. Áudios da conversa entre os dois foram obtidos ao longo da apuração.
Hytalo, Índio e TH, inclusive, aparecem em vídeos relacionados ao evento no material reunido na Operação Zargun, que deu origem a outras ações da PF e culminou nas prisões do então deputado e do traficante, em setembro. O influenciador foi preso e condenado a 11 anos e quatro meses de prisão pelo crime de produção de conteúdo pornográfico envolvendo adolescentes.
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Reprodução
Os delegados federais Geraldo Almeida e Samuel Escobar, integrantes da Força-Tarefa Redentor II e responsáveis pelas investigações que revelaram a infiltração do CV em estruturas do poder público, identificaram três núcleos de atuação da organização criminosa. Segundo eles, as operações Zargun e Oricalco permitiram mapear as ramificações da maior facção do Rio e serviram de base para as três fases da Anomalia.
— As operações desta semana estão diretamente vinculadas à ADPF 635 (conhecida como ADPF das Favelas). A PF recebeu a missão específica de instaurar um inquérito para investigar o envolvimento de agentes públicos e políticos com facções e organizações criminosas no Rio — explicou o delegado Almeida, ressaltando que o caso tramita sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo o delegado, a equipe reúne policiais de quase todos os estados do país, especializados em investigações sobre organizações criminosas e lavagem de dinheiro, com foco em comprovar as conexões entre facções, agentes públicos e políticos.
Ao aprofundarem as investigações, os delegados identificaram um elo considerado central entre Índio do Lixão e o núcleo político, chefiado pelo ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor Alessandro Pitombeira Carracena. Ele já havia sido preso ao lado de TH Jóias e de Índio, mas foi alvo de um novo mandado de prisão expedido na segunda-feira, na Anomalia I. Na mesma fase, também foi preso o delegado federal Fabrizio Romano. Segundo a investigação, Índio tinha interesse em manter um traficante internacional no Brasil, e o delegado teria cobrado R$ 150 mil para evitar sua saída do país. A advogada do traficante também foi presa.
Propina milionária
Na Anomalia II, os alvos foram o delegado Marcos Henrique de Oliveira Alves, da 44ª DP (Inhaúma), seu irmão, Franklin José de Oliveira Alves, e Leandro Moutinho de Deus, todos policiais civis lotados na mesma unidade. Os policiais são acusados de coagir e extorquir dinheiro dos chefes do CV. De acordo com o inquérito, o comissário Franklin, “sob o comando de seu irmão”, teria exigido R$ 1,5 milhão de Índio para encerrar a investigação contra ele.
— A maior organização criminosa do Rio quer se equiparar ao outro grupo de São Paulo. Por isso, há essa lógica de se organizar em núcleos, permitindo que suas lideranças administrem os negócios ilícitos como uma empresa. As investigações continuam — afirmou o delegado Samuel, referindo-se ao CV e ao PCC.
Por determinação do STF, agentes foram ontem às ruas para cumprir sete mandados de prisão contra policiais militares. Eles poderão responder por organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de capitais.
Já o Ministério Público do Rio levou para a cadeia 19 policiais acusados de ligação com o jogo do bicho.
