Trinta anos depois, 'Clube da Luta' segue levando culpa por tudo, de incels ao movimento antifa: 'Prefiro ver o livro sendo criticado do que vê-lo desaparecer', diz autor

 

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No aniversário de 30 anos da publicação de “Clube da Luta”, seu autor, Chuck Palahniuk, continua tendo que se explicar. O romance sobre indivíduos que se engajam em violência para escapar do vazio contemporâneo vem provocando divisões desde o seu lançamento.

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Uma adaptação cinematográfica ainda mais controversa, dirigida por David Fincher em 1999, elevou a obra ao status de fenômeno cultural, mas também a transformou no bode expiatório perfeito para diversos mal-estares do mundo contemporâneo, da misoginia ao extremismo político.

No momento em que o livro ganha uma edição comemorativa no Brasil, pela Record, Palahniuk volta ao centro dessas disputas.

— Quando a mídia me procura, geralmente é porque o livro está sendo culpado por alguma coisa — diz o escritor americano, de 64 anos, em entrevista por videoconferência com a câmera desligada (“Está quebrada”, justificou ele). — Quando a extrema direita faz algo, a esquerda culpa o livro. E, quando a extrema esquerda faz algo, a direita culpa o livro. Há pessoas que simplesmente decidiram não gostar do livro, e por isso o culpam pela Antifa, o culpam por Donald Trump, o culpam pelo movimento incel, culpam por qualquer coisa que queiram culpar.

Estreia literária de Palahniuk, “Clube da Luta” revelava o lado sombrio do boom econômico americano dos anos 1990. O romance identificou algumas angústias ainda nebulosas na época, como a alienação masculina, a crise de figuras paternas e os conflitos de identidade em meio à orgia consumista.

Luta como remédio

Sofrendo com burnout e insônia, o narrador só encontra alívio simulando catarses emocionais em grupos de apoio para doentes terminais. Sua vida sai da mesmice ao cruzar o caminho do carismático e enigmático Tyler Durden, com quem estabelece uma simbiose complexa (a relação entre os dois reserva uma reviravolta ainda capaz de surpreender muitos leitores mais jovens que não viram o filme).

O narrador e seu novo amigo formam o Clube da Luta e organizam lutas clandestinas como uma forma de fugir da apatia e recuperar uma sensação de realidade e controle. A “violência consensual” da parceria evolui para uma rede organizada e subversiva, com ambições revolucionárias.

Desde o início, a premissa brutal conquistou de cara uma legião de seguidores duradouros. Na outra ponta da equação, porém, havia os que enxergavam apenas incentivo ao ódio e um amontoado de pancadaria gratuita. Parcialmente vaiado em Cannes, o filme foi acusado de glamourizar a violência.

O astro Brad Pitt no papel de Durden e Edward Norton como o narrador sem nome, além da direção estilosa de Fincher, traduziram todo esse universo num registro ambíguo, tão cool como incômodo. Algumas frases de efeito, como “A primeira regra do Clube da Luta é: Você não fala sobre o Clube da Luta”, já fazem parte da cultura popular.

— Há livros de que as pessoas gostam imediatamente, mas por muito pouco tempo — diz o autor. — Já “Clube da Luta” continua sendo descoberto por jovens. Portanto, prefiro vê-lo sendo criticado a vê-lo desaparecer. Quantas pessoas no colégio hoje estão pegando um livro que já tem 30 anos? Eu adoro isso.

A repercussão instantânea de “Clube da Luta” também se explica pela lacuna que ele preencheu. Palahniuk costuma lembrar que nos anos 1990 o mercado editorial estava focado em romances que exploravam formas de sociabilidade feminina. Havia fartura de histórias sobre redes de apoio e de amizade entre mulheres, mas quase nada sobre trocas masculinas. Palahniuk ocupou esse espaço imaginando uma comunidade baseada na dor e na negação das normas sociais.

Cena do filme “Clube da Luta” (“Fight Club”), de David Fincher

Divulgação

Na época, o autor frequentava um grupo de escritores que se reuniam em torno da proposta da “escrita perigosa”, uma exploração das experiências pessoais dolorosas como matéria-prima narrativa. Palahniuk baseou a crítica ao consumismo, tão marcante no livro, naquilo que ele mesmo estava vivendo. Obcecado por catálogos e móveis de marcas como a Ikea, o narrador tenta definir sua identidade a partir dos objetos que acumula.

— Quando eu era jovem, percebia que as coisas que eu conseguia comprar não me traziam satisfação — diz o autor. — E eu não sabia o que significava me tornar adulto, a não ser comprar mais coisas. Achava que ser adulto era ter o máximo possível de posses e propriedades, e estava percebendo que não era isso. Então foi algo muito baseado na minha própria vivência.

O romance também tocou em uma fratura silenciosa da sociedade americana: a erosão das figuras paternas. “O que vemos no Clube da Luta é uma geração de homens criados por mulheres”, diz o narrador, que viu o pai abandonar a família quando tinha 6 anos. Não ter pai, na visão dele, é não ter um “modelo para Deus”. No Clube da Luta, eles encontram não apenas um discurso masculino e um senso de pertencimento, mas uma forma quase juvenil de testar esse Deus ausente por meio da violência.

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No debate contemporâneo, esse sentimento de fraternidade masculina ecoa fenômenos como o crescimento de discursos misóginos nas redes e a ascensão de líderes populistas que encarnam arquétipos de “homens fortes”. A busca por autoridade, direção e pertencimento se liga ao vazio que o romance dramatiza.

— Acho que muita gente reconhece que o livro não é sobre uma posição política específica, é sobre empoderar o indivíduo — explica Chuck Palahniuk. — É sobre permitir que o indivíduo perceba todo o seu potencial. Acho que é por isso que gostam dele. Num nível mais profundo, elas reconhecem que se trata de elas próprias se tornarem o mais poderosas possível no mundo.

Seria então “Clube da Luta” um livro niilista? Talvez, se não houvesse a personagem Marla, interesse amoroso do narrador. Chuck Palahniuk descreve seu livro quase como uma comédia romântica.

— Há um certo niilismo, mas o personagem vai além disso — pondera. — Ele chega ao romance, à ligação com outra pessoa. No fundo, é uma história de amor. Um modelo clássico: matar o dragão e depois se comprometer com alguém. O amor é o prêmio, é o que você precisa conquistar. Eu sempre vi meus livros como romances.

Perguntado se ele próprio é um homem violento, Palahniuk responde: “Eu tenho 64 anos.” Porém, admite que já sentiu, como seus personagens, um impulso de extravasar, ou até testar a sociedade.

— Meu impulso é me livrar das coisas — admite. — Em eventos públicos, adoro jogar objetos para o público, presentes enormes, sacos de doces. De certa forma, isso é um ato de violência: estou arremessando algo com força, tentando acertar alguém. Mas ao mesmo tempo é algo que as pessoas querem receber. Então é uma forma criativa e inofensiva de canalizar esse impulso. Vejo muito do meu trabalho assim: transformar impulsos negativos em algo criativo e absurdo.

Quanto ao filme, Palahniuk reconhece que as duas versões hoje se misturam no imaginário do público. Para muitos leitores, “Clube da Luta” chegou primeiro às telas, antes das páginas — e quem gostou do filme foi para o livro tentando recriar aquela experiência, acredita o autor.

— Há livros que nunca viraram filmes, como “O Apanhador no campo de centeio”. Outros, como “Laranja mecânica”, não levam o público de volta ao livro. No caso de “Clube da Luta”, acho que as mudanças em relação ao livro ajudaram a manter os dois vivos.

‘O melhor filme possível’

Chuck Palahniuk lembra que foi contra o último terço do filme, que teria perdido o aspecto filosófico do livro.

— Hoje entendo que isso não funcionaria no cinema. O final precisava ser mais rápido e visual. Então acho que Fincher fez o melhor possível — avalia o escritor.

Três décadas depois da publicação, a relação de Palahniuk com o livro se tornou mais distante, quase como uma memória longínqua.

— Penso pouco nele — diz. — Fico feliz que tenha existido e sido bem recebido, mas não escrevi pensando em sucesso. Escrevi pelo prazer. E esse prazer já parece muito distante.