Trinta anos após sair de linha, o Fusca é cada vez mais icônico: atrai olhares, coleciona fãs e inspira histórias de amor
Fuscas nunca falaram. Nem no cinema. As paixões que sempre inspiraram são daquelas que dispensam palavras. Há 30 anos, os carrinhos mais simpáticos do pedaço deixaram de ser produzidos no Brasil. A presença nas ruas diminuiu, mas basta que um deles vire a esquina para atiçar a curiosidade, motivar comentários, provocar sorrisos, despertar memórias. No Estado do Rio, são 22.036 as chances de topar com um fusquinha rodando por aí. Pelo menos esse é o número de carros do modelo licenciados pelo Detran-RJ este ano. Na capital são 6.191 exemplares, meros 0,25% da frota registrada na cidade. Quanto mais raros, mais cheios de personalidade. Cada um carrega uma história própria e exibe um charme inato que nenhum outro automóvel — por mais desempenho, tecnologia e conforto a bordo — consegue ofuscar.
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Exemplos de Fuscas “cariocas” com brilho próprio não faltam. Logo ali no sopé do Alto da Boa Vista, na Zona Norte, táxis de variados modelos fazem ponto no Largo da Usina, mas a estrela da área é o fusquinha dirigido por Marcos Cardoso Marques, de 65 anos. Há 38 anos na praça conduzindo passageiros para cima e para baixo pelas ruas íngremes da vizinhança, o taxista já se acostumou ao assédio de curiosos e aos seguidos pedidos de fotos.
Na foto, Marcos Cardoso, o último taxi fusca do ponto da Usina: sem o banco do carona para conforto dos passageiros e com a tradicional corda para facilitar o fechamento da porta
Márcia Foletto
— Acontece com bastante frequência. É uma atração, cara. Onde (o carro) vai, é muita gente tirando foto — diz Marcos, rindo. — As crianças adoram. Nos fins de semana, tem pai que traz os filhos só para dar uma voltinha.
A noiva e o fusquinha
Não são só os pequenos que gostam do “carrinho”. O próprio Marcos é fã e fiel. Já teve um modelo 1969 e outro 1977 antes de largar a carreira como bancário e virar taxista. Desde então, foram mais “três ou quatro” amarelinhos. Ele se emociona ao lembrar que os carros garantiram o sustento da família e a formação da filha, hoje médica. A voz embarga de vez quando conta que ela escolheu chegar ao seu casamento a bordo do fusca-táxi do pai. No mês que vem, a cerimônia completa um ano, e ainda está bem viva na memória de todos.
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— Chegar até o meu casamento com meu pai dirigindo seu Fusca foi um dos momentos mais emocionantes desse dia, pois o carro é um símbolo de dedicação da nossa família. É o mesmo carro que me buscava na escola e que permitiu que eu chegasse à faculdade com que sempre sonhei — diz Marcela Gaiotti Marques, de 34 anos.
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E por falar em casório, a advogada Raíssa dos Santos Albuquerque de Barros, de 29, alimentou por anos um desejo: chegar ao altar de Fusca. Mas não qualquer um. Tinha que ser rosa. A data do enlace se aproximava e nada de encontrar um carro que coubesse no seu sonho. Até que, a menos de um mês da celebração, surgiu a luz no fim do túnel. Eram, digamos, os faróis de um fusquinha 1979 adaptado pela produtora cultural Prem Karima, de 54, para receber o projeto Cine Rosa Choque, com o qual percorre o estado levando debate, diversão e arte. No dia 20 de outubro de 2024, debaixo de chuva fina, Raíssa desceu do Fusca sorridente, com brincos e buquê no mesmo tom do automóvel. E disse sim.
Karima lembra que comprou o Fusca por necessidade. Ela precisava se deslocar com a filha pequena e aquele foi o carro que coube no orçamento. Na pandemia, sem trabalho, com um volante na mão, uma tela adaptada na carroceria e muitas ideias na cabeça, criou o projeto que mudaria o rumo da sua vida. Aquele pragmatismo inicial logo deu lugar a outro tipo de relação com o carrinho:
— Virou uma paixão total, eu não quero outro carro, amigo. Não é carro de garagem, é parceirão de guerra, de luta, para cima e para baixo.
Roberta Machado e o Fusca da Lia Linda Flores
Márcia Foletto
A experiência de transformar Fusca em meio de vida tem outros bons exemplos na cidade. Ex-empregada doméstica, Roberta Machado resolveu empreender. Entre uma e outra iniciativa, encheu o carro verde de flores, abriu o sorriso e foi à luta. Estacionado ora no Leblon, ora em Copacabana, o Lia Linda Flores — nome dado em homenagem à mãe — é um sucesso onde chega.
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— Acho que se fosse outro carro não combinaria, não daria tão certo. O Fusca vende as flores sozinho, chama a atenção, as pessoas sempre olham com um carinho especial — derrete-se a florista.
Quando a conexão entre fuscas e seus proprietários aflora, costuma ser duradoura. Há casos, porém, que extrapolam a paixão. Viram amor mesmo. Só isso para explicar a relação de Dieter Pölsler, de 85 anos, com seu Fusca azul comprado novinho em folha, em novembro de 1971. São 54 anos juntos. Para ficar no campo das analogias matrimoniais, seria o equivalente completar Bodas de Níquel.
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— Eu sempre gostei do carro. Na época, muitos colegas também tinham Fusca, era algo bastante comum. Surgiu uma oportunidade na empresa em que eu trabalhava, uma espécie de cooperativa com uma revendedora da Volkswagen. Todo mês eram disponibilizados dois carros: um por sorteio e outro por lance. Não me lembro exatamente como fui contemplado, mas, em novembro de 1971, recebi o carro zero quilômetro e nunca mais troquei. Posso dizer que é como se fosse meu filho mais velho — brinca Dieter.
Nessas quase cinco décadas e meia, muita história para contar. Uma delas, em especial, diz muito sobre o quanto o Fusca é, a despeito de seu aspecto fofo, um carro robusto. Depois de abastecer em um posto na Praça Santos Dumont, na Gávea, que oferecia preços promocionais nos fins de semana, seguiu viagem normalmente. Passado um tempo, o Fuscão 1.500 deu sinais de que algo estava errado:
Dieter Pölsler e seu Fusca: relação que já dura 54 anos
Márcia Foletto
— Na madrugada daquele sábado, o caminhão de combustível descarregou óleo diesel no tanque de gasolina do posto. Depois que mais uns dois automóveis foram abastecidos e enguiçaram ali por perto mesmo, verificaram o engano e suspenderam o atendimento. Ficaram espantados que o Fusca tenha conseguido se deslocar, mesmo precariamente.
Bananinha, ancestral da seta
Há cerca de três anos, o carro de Dieter obteve o certificado de originalidade pelo Fusca Clube do Brasil, de São Paulo. O passo seguinte foi conseguir a placa preta, que distingue os veículos de coleção, aqueles com 30 anos ou mais de fabricação e valor histórico. É o caso de boa parte dos carros que compõem o VW Clube do Rio de Janeiro, que reúne cariocas aficionados por Fuscas. Atualmente são 90 associados. Entre eles, Bernardo Ferreira, de 34 anos, feliz proprietário de um Fusca bege fabricado em 1959, justamente o ano da primeira leva de carros do modelo montados no Brasil.
O carro do Bernardo tem caixa de ferramentas original, régua medidora de combustível e a cereja do bolo: a velha bananinha, uma haste metálica, retrátil, amarela e luminosa que, uma vez acionada, se projeta a partir da coluna central (ao lado da janela), para indicar a direção que motorista pretende tomar. Resumindo: uma simpática ancestral da seta.
Na foto, Bernardo Ferreira, com um modelo do carro de 1959. O fusca tem a "bananinha", apelido popular das setas indicadoras de direção, vareta de madeira para medir o tanque de gasolina e caixa de ferramentas original
Márcia Foletto
Reunidos no estacionamento de um shopping da Barra da Tijuca no sábado, dia 11 de abril, como parte de um encontro promovido pelo Veteran RJ — clube de “antigomobilismo” multimarcas ativo desde 1968 — os amigos VW Clube RJ se destacaram ao enfileirar seus modelos: Cleucio Lantimant com seu Fusca alemão de 1970, fabricado para o mercado sul-africano, com a peculiar direção do lado direito à inglesa; Luís Camilo Monte e seu modelo 1973 na cor ocre marajó, com direito a chaveirinho no mesmo tom; e Rafael Carvalho, com o Fusca “Itamar”, verde nice, com direito a teto solar e tudo, de outubro de 1995 — já um modelo 1996, integrante das últimas levas saídas da linha de montagem da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP).
Presidente do clube há anos, o engenheiro mecânico aposentado Leonardo Tannure, de 69 anos, exibia seu Fusca 1970:
Leonardo Tannure, presidente do VW Clube RJ, e seu Fusca
Mácia Foletto
— Fui buscar com meu pai na autorizada. Ele comprou o carro e morreu um ano depois, muito novo, aos 41 anos. Aí ficou na família. Eu sempre cuidei, sempre tive um carinho muito especial pelo carro, até que, com o tempo, passou a ser meu. Sempre tive paixão por ele.
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Há quem enxergue Fuscas — por seu design, sua mecânica — como obras de arte sobre rodas. E há quem leve isso bem a sério. Em Inhotim, museu de arte contemporânea, em Brumadinho (MG), uma das obras mais comentadas e fotografadas é Troca-Troca (2002), do artista plástico iguaçuano Jarbas Lopes. Ele lembra que os três carros famosos, pintados com cores primárias — azul, vermelho e amarelo — bem vivas, são “naturais” do Rio de Janeiro: foram comprados em Nova Iguaçu, em Caxias e no Méier.
O artista Sylvio Cavalheiro e sua obra na praça de Bangu, na Zona Oeste
Márcia Foletto /28-05-2019
Na Praça 1º de Maio, Em Bangu, na Zona Oeste, o artista Sylvio Cavalheiro um fusquinha domina a cena, com os quatro pneus voltados para cima. A longo do chassis uma espécie de jardim foi plantado cuidadosamente com espécies variadas. A obra faz parte do projeto “Quando o lixo vira arte” e usa como base um Fusca que estava abandonado às margens da Rio-Santos e foi resgatado por Cavalheiro. O Fusca é assim: capaz de virar a cabeça de qualquer um.
