Três mensagens e sete tópicos: o que se sabe do pronunciamento divulgado por Mojtaba Khamenei

 

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O novo líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, divulgou sua primeira mensagem desde a nomeação, nesta quinta-feira, em seu canal oficial no Telegram. “Povo do Irã de todos os modos de vida que fique firme contra o inimigo”, pediu ele. Além disso, revelou a sua caligrafia em uma imagem que relembrava antecessores, segundo informações dos meios de comunicação estatais iranianos.

A imagem mostra uma lista com os nomes dos líderes supremos do Irã: Mojtaba Khamenei, o seu pai, Ali Khamenei, e o seu antecessor e primeiro homem a ocupar o cargo, Ruhollah Khomeini.

Abaixo da lista, encontra-se a breve mensagem: “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”. A frase denota novos começos: entre outros usos, é utilizada no início da maioria dos capítulos do Alcorão.

Mensagem na íntegra:

““Não revogamos nenhum versículo nem o fazemos cair no esquecimento sem que apresentemos outro melhor ou semelhante.”

Que a paz esteja contigo, ó convocador de Deus e guia divino de Seus sinais; que a paz esteja contigo, ó porta de Deus e guardião de Sua religião; que a paz esteja contigo, ó sucessor de Deus e defensor de Sua verdade; que a paz esteja contigo, ó prova de Deus e guia de Sua vontade; que a paz esteja contigo, ó aquele que é aguardado e precede; que a paz esteja contigo em todas as formas de saudação; que a paz esteja contigo, ó meu senhor, o dono do tempo.

No início de minhas palavras, devo apresentar minhas condolências ao meu senhor — que Deus apresse sua aparição — pela dolorosa morte do grande líder da Revolução, o querido e sábio Khamenei. Peço também a ele orações e bênçãos para cada membro do grande povo do Irã, para todos os muçulmanos do mundo, para todos os que servem ao Islã e à Revolução, para os que se sacrificaram e para os familiares dos mártires do movimento islâmico, especialmente os da guerra recente, bem como para este humilde servo.

Dirijo-me agora ao grande povo do Irã. Inicialmente, devo explicar brevemente minha posição em relação ao voto da respeitada Assembleia de Especialistas. Este seu servo, Seyed Mojtaba Hosseini Khamenei, tomou conhecimento do resultado da votação dessa respeitada assembleia ao mesmo tempo que vocês, por meio da televisão da República Islâmica.

Para mim, ocupar o lugar que foi a sede de dois grandes líderes — o grande Khomeini e o mártir Khamenei — é uma tarefa difícil. Essa posição foi ocupada por alguém que, após mais de 60 anos de luta no caminho de Deus e de renunciar a diversos prazeres e confortos, transformou-se em uma figura brilhante e distinta não apenas na era atual, mas ao longo da história dos governantes deste país. Tanto sua vida quanto a forma de sua morte foram marcadas por uma grandeza e uma dignidade decorrentes da confiança em Deus.

Tive a honra de ver seu corpo após o martírio. O que vi foi uma montanha de firmeza, e ouvi que sua mão saudável permanecia cerrada em punho. Sobre os diversos aspectos de sua personalidade, os conhecedores deverão falar durante muito tempo. Neste momento, limito-me a essa breve menção e deixo os detalhes para ocasiões mais apropriadas. É por isso que assumir a liderança após alguém assim é tão difícil. Superar essa distância só será possível com a ajuda de Deus e com o apoio de vocês, o povo.

É necessário enfatizar um ponto diretamente relacionado ao tema de minhas palavras. Um dos talentos do líder mártir e de seu grande predecessor foi envolver o povo em todas as esferas, esclarecendo e conscientizando continuamente a sociedade e, na prática, apoiando-se em sua força. Foi assim que eles concretizaram o verdadeiro significado de república e republicanismo, acreditando profundamente nisso.

O efeito claro dessa postura pôde ser visto nos últimos dias, quando o país esteve sem líder e sem comandante-chefe das Forças Armadas. A percepção e a inteligência do grande povo do Irã nos acontecimentos recentes, bem como sua perseverança, coragem e presença, levaram os amigos à admiração e os inimigos ao espanto. Foram vocês, o povo, que lideraram o país e garantiram sua força.

O versículo citado no início deste texto significa que nenhum sinal divino desaparece ou é esquecido sem que Deus, exaltado seja, substitua por algo igual ou melhor.

A razão de citar esse versículo não é sugerir que este servo esteja no nível do líder mártir — muito menos superior a ele. O objetivo é destacar o papel apropriado e decisivo de vocês, o querido povo. Se essa grande bênção nos foi retirada, em seu lugar foi concedida novamente ao sistema a presença vigilante do povo iraniano.

Saibam que, se o poder de vocês não se manifestar no cenário público, nem a liderança nem qualquer uma das instituições — cujo verdadeiro papel é servir ao povo — terão a eficácia necessária.

Para que isso se concretize melhor, em primeiro lugar deve-se considerar a lembrança de Deus, a confiança n’Ele e a busca de intercessão junto às luzes puras dos imames infalíveis como um elemento precioso que garante caminhos de solução e a vitória definitiva sobre o inimigo. Essa é uma grande vantagem que vocês possuem e que seus inimigos não têm.

Em segundo lugar, não deve haver qualquer ruptura na unidade entre os diferentes grupos e setores da nação, unidade que geralmente se torna mais evidente em momentos de dificuldade. Isso será alcançado ao se deixar de lado os pontos de divergência.

Em terceiro lugar, deve-se preservar a presença efetiva na cena pública — seja como demonstrado nestes dias e noites de guerra, seja por meio de diferentes formas de atuação nas esferas social, política, educacional, cultural e até de segurança. O importante é compreender corretamente o papel a ser desempenhado, sem prejudicar a unidade social, e colocá-lo em prática tanto quanto possível. Uma das responsabilidades da liderança e de alguns outros dirigentes é justamente lembrar esses papéis aos diferentes grupos da sociedade.

Lembro também a importância da participação nas cerimônias do Dia de Quds, nas quais o enfrentamento ao inimigo deve estar no centro da atenção de todos.

Em quarto lugar, não deixem de ajudar e apoiar uns aos outros. Graças a Deus, essa sempre foi uma característica da maioria dos iranianos, e espera-se que, nestes dias especiais — quando alguns membros da nação enfrentam dificuldades maiores do que outros — isso se manifeste ainda mais. Aproveito também para pedir às instituições de serviço que não poupem esforços para prestar ajuda e assistência a esses membros da nação e às estruturas populares de socorro.

Se esses pontos forem observados, o caminho para que vocês, querida nação, alcancem dias de grandeza e esplendor será facilitado. Um exemplo próximo disso pode ser, com a permissão de Deus, a vitória sobre o inimigo na guerra atual.

Dirijo-me também aos nossos corajosos combatentes, que, em condições nas quais nosso povo e nossa pátria foram injustamente atacados pelos líderes da frente da arrogância, bloquearam o caminho do inimigo com golpes contundentes e afastaram a ilusão de que poderiam dominar nossa amada pátria ou até mesmo dividi-la.

Queridos irmãos combatentes: o desejo das massas populares é a continuação de uma defesa eficaz e capaz de fazer o inimigo se arrepender. Certamente também deve continuar a ser utilizado o instrumento de bloqueio do Estreito de Ormuz. Estudos também foram realizados sobre a abertura de outras frentes nas quais o inimigo tem pouca experiência e nas quais será altamente vulnerável. A ativação dessas frentes poderá ocorrer caso a situação de guerra continue e conforme as circunstâncias o permitam.

Também expresso meu sincero agradecimento aos combatentes da Frente da Resistência. Consideramos os países dessa frente como nossos melhores amigos, e a resistência e a Frente da Resistência são parte inseparável dos valores da Revolução Islâmica. Sem dúvida, a cooperação entre os membros dessa frente encurtará o caminho para superar a conspiração sionista. Como vimos, o Iêmen corajoso e fiel não deixou de defender o povo oprimido de Gaza, e o Hezbollah, apesar de todos os obstáculos, veio em auxílio da República Islâmica. A resistência no Iraque também seguiu corajosamente esse mesmo caminho.

Dirijo-me ainda àqueles que foram afetados nos últimos dias — seja quem tenha perdido entes queridos e experimentado o luto do martírio; seja quem tenha ficado ferido; ou aqueles cujas casas ou locais de trabalho foram danificados.

Primeiramente, expresso minha profunda solidariedade aos familiares dos nobres mártires. Faço isso com base em uma experiência compartilhada com essas pessoas. Além de meu pai, cuja perda se tornou uma dor coletiva, também entreguei à caravana dos mártires minha querida e leal esposa, minha irmã dedicada, o filho pequeno dela e o marido de outra irmã.

Mas aquilo que torna possível — e até mais fácil — suportar as adversidades é a atenção à promessa certa e definitiva de Deus de uma grande recompensa para os pacientes. Portanto, é preciso ter paciência e manter esperança e confiança na graça e no amparo do Altíssimo.

Agradeço também a todos os nobres que me ofereceram apoio, incluindo grandes autoridades religiosas, diversas personalidades culturais, políticas e sociais, bem como os cidadãos que participaram de manifestações para reafirmar sua lealdade ao sistema. Também agradeço aos responsáveis pelos três poderes e ao Conselho Provisório de Liderança pelas decisões e medidas adotadas.

Espero que as graças especiais de Deus, nestas horas e dias abençoados, alcancem todo o povo do Irã, bem como todos os muçulmanos e os oprimidos do mundo.

Por fim, peço que, durante o restante das noites e dias sagrados do destino e do mês abençoado do Ramadã, supliquem a Deus, o Altíssimo, pela vitória decisiva de nossa nação sobre o inimigo, bem como por honra, prosperidade e saúde para o povo, e por elevada posição e paz no além para os que partiram.

Que a paz, a misericórdia, as bênçãos e as saudações de Deus estejam convosco."

Contexto

O novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, sofreu ferimentos leves, mas segue exercendo suas funções, informaram autoridades iranianas à agência de notícias Reuters.

A emissora americana CNN, citando fontes próximas ao caso, detalhou que Khamenei teria sofrido uma fratura no pé, além de uma contusão ao redor do olho esquerdo e pequenos cortes no rosto.

Segundo a mesma reportagem, uma fonte israelense afirmou que o líder iraniano foi ferido durante uma tentativa de assassinato ocorrida na semana passada, o que alimentou rumores que circulam há dias sobre seu estado de saúde.

Desde que foi anunciado como novo líder supremo do país, Khamenei não havia aparecido em público nem feito pronunciamentos, o que intensificou as especulações.

Na manhã de quarta-feira, Yousef Pezeshkian, filho do presidente iraniano Masoud Pezeshkian, disse ter recebido informações de que o aiatolá havia sido ferido, mas que estava fora de perigo. Em declaração à agência estatal ISNA, ele afirmou que o novo líder supremo está “seguro e não há motivo para preocupação”.

A confirmação de que Khamenei teria sido ferido também foi mencionada por um alto funcionário do governo de Israel, que falou à Reuters sob condição de anonimato.

Quem é Mojtaba Khamenei

Segundo filho mais velho de Khamenei, Mojtaba, de 56 anos, nunca ocupou um cargo importante na política iraniana — o que não o torna um completo desconhecido na burocracia estatal. Ele coordenava o Gabinete do pai e tem contatos importantes nos bastidores. Em um artigo publicado em 2023, a The Economist ressaltava suas relações próximas com Hossein Taib, um poderoso chefe da inteligência da Guarda Revolucionária do Irã, que conheceu ainda durante a guerra entre Irã e Iraque.

— Quando as pessoas começaram a falar de Mojtaba como um potencial sucessor, em 2009, considerei um boato — disse em 2024 Arash Azizi, professor da Universidade Clemson, nos EUA, que estuda o Irã. — Mas não é mais [um boato]. Está muito claro agora que ele é uma figura notável. E ele é notável porque tem sido quase totalmente invisível aos olhos do público.

O componente religioso é fundamental para o cargo de líder supremo, que no Irã é responsável por tomar todas as decisões que competem a um chefe de Estado e comandante-em-chefe das Forças Armadas. Também conhecido como Velayat-e Faqih na teologia islâmica xiita, a função segue e aplica a lei islâmica, só podendo ser ocupada por um teólogo xiita de alto escalão, que deve estar pelo menos no posto de aiatolá – embora seja contestado se o próprio Khamenei alguma vez atingiu esse nível.

A função se sobrepõe em muitos aspectos à de presidente, que chefia o Poder Executivo e lidera o governo. Dependendo da formação política e da força do presidente, ele acaba influenciando sobre a política estatal e a economia.

O filho do aiatolá nunca se candidatou a um cargo político no Irã e, apesar das eleições no país não serem consideradas livres, com a repressão sobre a oposição crescendo a cada dia, a falta de algum respaldo de sua popularidade pode pesar contra ele, considerando que o sistema político-religioso do Irã depende do apoio das massas pelo país que o sustentam.

Outra resistência ao nome de Mojtaba pode surgir das raízes da Revolução Iraniana de 1979. Uma das justificativas para a mobilização que derrubou o governo iraniano do xá Reza Pahlavi era justamente o combate à hereditariedade do antigo regime. Emplacar o filho do atual líder supremo para sucedê-lo pode ser visto como um golpe às bases da revolução.