Três a cada quatro usuários de bets (77%) admitem ao menos uma conduta irregular ao apostar no Brasil nos últimos três meses, mostra pesquisa do instituto Locomotiva divulgada nesta terça-feira.
Além disso, a maioria dos apostadores reconhece o perigo das plataformas que ignoram as regras e cobram mais empenho das autoridades ao coibir esse tipo de prática.
O estudo utiliza como parâmetro quatro ações vedadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda, desde 2024, quando uma portaria impôs normas gerais sobre as transações de pagamento e meios financeiros para os sites de apostas de quota fixa (bets) no Brasil.
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Os pesquisadores questionaram se os entrevistados — todos com histórico de aposta nos últimos três meses — jogaram em sites que não exigiram reconhecimento facial.
Eles foram perguntados, ainda, se usaram portais sem o final “bet.br” ou cartão de crédito e criptoativos para bancar a prática.
Os quatro itens são considerados ilegais de acordo com a legislação brasileira.
Para classificar as apostas ilegais, a pesquisa considera aqueles que admitiram ter realizado duas ou mais práticas irregulares no período, caso de 50% dos entrevistados em maio deste ano.
No primeiro semestre de 2025, eram 62%, e nos últimos seis meses do ano passado, 55%.
Os dados revelam que a faixa etária entre 18 e 29 anos é a que mais concentra apostadores irregulares (54%) no universo de entrevistados.
Já a de 50 anos ou mais tem a menor incidência (43%).
O estudo aponta um equilíbrio de gênero.
Entre as mulheres, 51% admitiram ao menos duas práticas vedadas pela lei ao apostar, e 49% dos homens disseram o mesmo.
Perfil do apostador irregular
Editoria de Arte
Há uma situação semelhante no recorte de renda.
São considerados “apostadores ilegais” 51% dos entrevistados com até dois salários-mínimos, 49% daqueles na faixa entre dois e seis, e 48% na parcela com mais de seis.
A pesquisa mostra que 53% dos entrevistados fizeram apostas em sites que não exigiram reconhecimento facial.
Já 48% jogaram em sites com final diferente de “bet.br”.
Essas são as práticas ilegais mais recorrentes, indica o estudo.
Especialista em direito regulatório, o advogado André Santa Rita explica que as regras trazem exigências com objetivo primordial de resguardar os apostadores:
— A exigência de reconhecimento facial busca frear o acesso de impedidos de apostar, como menores de idade e pessoas que possam ter acesso a informações sobre eventos esportivos objeto de apostas.
Já o final em “bet.br” está relacionado à identificação dos sites que operam em todo o território nacional com licença do governo, permitindo que o apostador conheça as plataformas nacionais autorizadas.
Já 37% dos entrevistados disseram ter feito depósitos em plataformas de apostas on-line via cartão de crédito.
O uso de criptoativos com esta finalidade foi admitido por 23%.
Professor da FGV Direito Rio, Daniel Dias explica que a proibição do uso de cartão de crédito em apostas é uma medida de “jogo responsável e prevenção do superendividamento”.
A vedação a depósitos via criptoativos, segundo ele, decorre das regras sobre transações financeiras e rastreabilidade dos recursos.
—O objetivo é a prevenção à lavagem de dinheiro, a identificação da origem dos recursos e a rastreabilidade financeira — explica Dias.
A pesquisa mostra que 51% dos apostadores irregulares admitem que plataformas informais são as únicas que utilizam.
Já 36% afirmam que esses sites são aqueles em que fazem a maior parte dos jogos.
Por outro lado, 8% dizem que essas plataformas são onde fazem cerca de metade das apostas, e 6%, a menor parte.
Perigo reconhecido
Há, entretanto, o reconhecimento do perigo.
Três a cada quatro (77%) dos entrevistados concordam totalmente ou em parte que bets ilegais não cumprem regras e normas para promover o jogo responsável e, por isso, são mais perigosas para os apostadores.
Também 77% dos apostadores concordam totalmente ou em parte que combater bets ilegais deveria ser uma prioridade das autoridades para evitar o vício em apostas.
Para 63% dos entrevistados, o governo federal ainda poderia fazer mais contra sites e aplicativos de apostas ilegais.
Já 37% veem o Executivo realizando tudo o que pode no campo.
Até julho, mais de 54 mil sites irregulares haviam sido derrubados pelo Executivo.
A concordância de que é preciso mais empenho federal é majoritária até mesmo entre apostadores ilegais (58%).
— O estudo revela uma ligeira redução da participação das apostas ilegais, mas ainda em patamares elevados, com metade dos apostadores brasileiros transitando no mercado não licenciado.
O dado positivo é que há quase consenso de que esse problema precisa ser encarado: mesmo quem joga nos sites clandestinos acha que é um dever do país combatê-los com mais força — diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.
A pesquisa realizou 2.291 entrevistas no Brasil em maio deste ano.
A margem de erro é de 2,1 pontos percentuais para mais ou para menos.
