Três diferentes receitas e um mesmo resultado: estudantes que arrasaram no Enem revelam suas estratégias

 

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Da escola particular que está entre as mais caras da Zona Sul da capital a uma ONG encravada no Pavão-Pavãozinho, passando por um colégio tradicional de Niterói, três estudantes do Rio com realidades distintas se destacaram no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025. Enquanto uma aluna conquistou a nota máxima na redação e outra alcançou 960 pontos, um terceiro estudante simplesmente gabaritou a prova de Linguagens e obteve média geral de 836 no concurso. Apesar dos contextos sociais e educacionais diversos, as trajetórias dos três revelam pontos em comum, como estímulo à leitura, formação humanística, constância nos estudos e atenção ao desenvolvimento emocional ao longo da vida escolar. Confira as histórias dos três.

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Treino constante

Aluna da Escola Parque, na Gávea, Manoela Flores, de 17 anos, tirou nota 1.000 na redação do Enem e pretende cursar Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A estudante já havia feito o exame em duas edições anteriores como “treineira”, experiência que diz ter ajudado a reduzir a ansiedade no dia da prova.

Sucesso. Manoela Flores, aluna da Escola Parque, alcança nota máxima na redação do Enem

Divulgação/Escola Parque

— O hábito da leitura foi essencial para minha preparação. Sempre li livros de diferentes gêneros, além de assistir a filmes e séries, o que ajuda a construir repertório — afirma. — Na redação, citei desde Simone de Beauvoir até uma música da Melanie Martinez.

Segundo Manoela, a participação frequente em debates também foi decisiva para lidar com o tema sem recorrer a modelos prontos.

— Isso me deixou preparada para dissertar sobre qualquer assunto e buscar uma abordagem própria — diz.

Para Daniel Bahiense, coordenador pedagógico do ensino médio da Escola Parque, o resultado reflete um projeto educacional construído ao longo dos anos.

— Apostamos numa trajetória de formação que não se encerra no vestibular, embora o inclua. Os temas discutidos nos exames dialogam com o que já é trabalhado na escola — afirma.

No 3º ano, os alunos participam de projetos específicos para o Enem e outros vestibulares, com aulas interdisciplinares, simulados, reescrita de redações corrigidas por diferentes professores e atividades de relaxamento, como ioga e meditação, nas semanas que antecedem as provas.

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Confiança em si mesma

No Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, a trajetória até a redação também passou por um trabalho contínuo. Pietra Kottvitz, de 17 anos, aluna do Solar Meninos de Luz, alcançou 960 pontos na redação do Enem. A ONG oferece educação gratuita e integral, com cerca de dez horas diárias de atividades, além de alimentação, acompanhamento de saúde e atividades culturais e esportivas.

Conquista. Pietra Kottvitz, aluna do Solar Meninos de Luz, conquista nota 960 na redação do Enem

Acervo/Pietra Kottvitz

— O Solar teve um papel fundamental na minha formação, não só educacional, mas como pessoa. Eles me deram base, princípios e confiança — diz Pietra, que ingressou na instituição no 9º ano do ensino fundamental.

Segundo a estudante, o apoio emocional foi decisivo no período que antecedeu o exame.

— Os professores ajudaram a gente a organizar o tempo e a lidar com o nervosismo. Eles fizeram muito mais do que passar a matéria — relata.

No Solar, o trabalho com redação começa cedo, com estímulo à leitura, projetos literários e exercícios de autocorreção. A metodologia está integrada a uma proposta de educação integral.

— Investimos em todas as dimensões da vida do aluno para formar cidadãos críticos. Trabalhamos saúde, acompanhamos as famílias e mantemos encontros mensais com os pais — afirma Isabella Maltaroli, cofundadora e diretora da instituição.

A formação ampliou os horizontes de Pietra, que foi aprovada em Artes Visuais na Uerj.

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Estudo com limite

Aluno do Colégio La Salle Abel, em Niterói, desde o 6º ano do ensino fundamental, Henrique Moutinho acertou todas as 45 questões de Linguagens, obtendo 795,5 pontos. Em Matemática e suas Tecnologias, errou apenas uma questão e chegou a 967,7 pontos. O alto rendimento se repetiu nas demais áreas: foram 42 acertos em Ciências da Natureza e 40 em Ciências Humanas, números bem acima da média nacional.

Morador de Icaraí, Henrique Moutinho defende rotina equilibrada como chave para o sucesso

Arquivo pessoal/Henrique Seigarro Moutinho

Ao receber o resultado, o estudante não atribuiu o desempenho a fórmulas milagrosas ou rotinas exaustivas. Pelo contrário: Moutinho conta que sempre manteve uma relação natural com os estudos, sem necessidade de estender o aprendizado para além do ambiente escolar.

— Sempre tive facilidade para estudar e consegui manter esse hábito no colégio. Durante as aulas, eu fazia as atividades com seriedade, resolvia simulados e, quando percebia alguma dificuldade, tratava de aprender ali mesmo, sem levar pendências para casa — relata o jovem de 18 anos.

A leitura, presente desde cedo em sua rotina, foi outro pilar importante. Apesar disso, Moutinho afirma não ter um livro favorito, mas conta que costuma ler clássicos e obras ligadas à pesquisa científica, interesse que dialoga diretamente com seus planos futuros. Apesar do desempenho que o credenciaria a cursos de altíssima concorrência, como Medicina, ele já fez sua escolha: pretende cursar Engenharia Nuclear na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

— Vejo o setor nuclear como uma área em expansão no Brasil e no mundo, com possibilidades diversas e impacto social relevante. Acredito que é um campo em que meu trabalho pode, de fato, fazer diferença— explica.

Fora da sala de aula, Moutinho desenvolveu outras habilidades que considera decisivas para o resultado no Enem. Desde 2022, ele pratica xadrez e participa de competições representando um clube de Niterói. A vivência nos torneios, segundo ele, contribuiu para aprimorar a concentração e o raciocínio lógico, competências essenciais tanto para partidas longas quanto para provas extensas como o Enem.

— Manter a regularidade e a concentração ao longo de 90 questões por dia foi fundamental. O cansaço costuma ser um fator crítico, e eu consegui administrar isso bem— afirma. 

O equilíbrio entre estudo e lazer também fez parte da estratégia. Morador de Icaraí, Moutinho gosta de atividades ao ar livre, como trilhas e fotografia de vida selvagem, além de sair com amigos, frequentar bares e restaurantes e assistir a filmes e séries. Para ele, abrir mão da vida social não é sinônimo de bom desempenho.

—É importante saber aproveitar o tempo de forma equilibrada. Estudar demais pode acabar atrapalhando mais do que ajudando— aconselha.

Ao olhar para trás, Moutinho se diz satisfeito com a forma como viveu a vida escolar, mas faz uma reflexão que vai além das notas e medalhas.

— Se pudesse voltar no tempo, valorizaria ainda mais as amizades e as pessoas que cruzaram meu caminho. Tudo isso foi essencial para a minha formação acadêmica, pessoal e social— resume.

A trajetória do estudante reflete, segundo a escola, uma proposta de formação integral, que alia desempenho acadêmico ao desenvolvimento de autonomia intelectual, pensamento estratégico e convivência. Durante o período do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o La Salle Abel também promove ações de orientação aos alunos, como plantões de atendimento, auxiliando na escolha de cursos e universidades.

Para Moutinho, no entanto, o resultado do Enem é apenas mais um capítulo de um caminho construído com constância, curiosidade e escolhas conscientes dentro e fora da sala de aula.

*Esta matéria reúne conteúdo dos especiais de Educação do GLOBO-Zona Sul e do GLOBO-Niterói publicados no último fim de semana

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