Três atrizes indicadas ao Oscar 2026 têm origens esquecidas em reality shows; entenda
Durante anos, os reality shows foram considerados um dos gêneros de pior reputação na TV nos EUA, revelando estrelas de nicho que se limitavam a sonhar em alcançar a fama em publicidade nas redes sociais ou aparições em filmes de baixo orçamento. Mas será que os reality shows se tornaram a nova Juilliard?
É uma pergunta pertinente, agora que tantas atrizes indicadas ao Oscar surgiram desse improvável campo de treinamento. Jennifer Hudson foi a pioneira, passando de um sétimo lugar no "American Idol" para o filme "Dreamgirls" de 2006, que lhe rendeu o Oscar. Em 2022, Ariana DeBose seguiu os passos de Hudson, ganhando um Oscar por "Amor, sublime amor", de Steven Spielberg, 13 anos depois de competir no "So you think you can dance".
O que antes parecia uma novidade agora se configura como uma tendência, já que três das indicadas ao Oscar deste ano — Jessie Buckley, Teyana Taylor e Emma Stone — também começaram suas carreiras em reality shows. Será que essa experiência de alta pressão rendeu a garra e a determinação necessárias para ter sucesso em Hollywood? Conheça abaixo as três histórias de origem em reality shows que apresentaram ao mundo algumas das candidatas ao Oscar deste ano.
Jessie Buckley, "I’ll do anything"
Muito antes de arrebatar a temporada de premiações por sua atuação como a esposa enlutada de William Shakespeare em "Hamnet", Buckley era uma jovem de 18 anos de Killarney, Irlanda, competindo no concurso de talentos britânico "I’ll do anything" ("Topo qualquer coisa", numa tradução livre). A edição de 2008 oferecia um prêmio bem específico: 12 atrizes desconhecidas disputavam o papel principal de Nancy em uma remontagem do musical "Oliver!" no West End.
Na direita, Jessie Buckley na época do reality; e na esquerda, a atriz atualmente
Reprodução
A cada semana, Buckley e suas colegas cantavam músicas pop ao vivo em um formato semelhante ao "American Idol", com as candidatas sendo eliminadas por votação popular e por um júri liderado por Andrew Lloyd Webber. E, como é comum em realities de competição, as participantes também recebiam tarefas inusitadas para ajudá-las a superar suas inibições, como segurar ratos vivos ou dar um beijo no palco na frente de seus pais.
Apresentando uma mistura de clássicos da Broadway e sucessos pop de artistas como Christina Aguilera, Buckley provou ser uma presença cativante. Ainda assim, era frustrante a frequência com que os jurados tentavam moldar a jovem despojada em um modelo de feminilidade mais convencional. É uma demonstração da autenticidade de Buckley que ainda fosse possível se conectar com ela mesmo quando era obrigada a usar sombra metálica e um batom rosa-choque berrante enquanto desfilava pelo palco em saltos altíssimos.
Ela ganhou? Não, embora tenha chegado muito perto. Apesar de se tornar a favorita de Lloyd Webber, Buckley terminou em segundo lugar e foi eliminada na final. Mesmo assim, ela superou Samantha Barks, a terceira colocada, que mais tarde conquistou o cobiçado papel de Éponine na adaptação cinematográfica de "Os miseráveis".
Ela se arrepende? Em uma entrevista recente à Vogue britânica, Buckley relembrou a série com algo próximo ao horror absoluto. Numa época em que ainda estava descobrindo quem era, a pressão dos jurados a afetou profundamente.
"Havia muita coisa realmente perturbadora", disse, relembrando a humilhação física que ela e as outras participantes sofreram. "Como mulheres, é uma objetificação muito injusta. Espero sinceramente que uma mulher de 15, 17 anos, ou qualquer idade, nunca tenha que ser brutalizada como aconteceu naquele programa".
Ainda assim, ela admirou a coragem que demonstrou em sua versão mais jovem ao chegar até o fim. "É inacreditável, olhando para trás. Quando penso nisso, me pergunto: 'Nossa, como eu era corajosa'. Não sei se teria essa coragem hoje. E não sei se era inocência ou ignorância."
Teyana Taylor, "My super sweet 16"
Se você conheceu Teyana Taylor em “Uma batalha após a outra”, como a revolucionária e impetuosa Perfidia Beverly Hills, saiba que a cantora de 35 anos já viveu várias vidas antes de seu atual momento sob os holofotes do Oscar. Antes de completar 16 anos, a garota do Harlem já havia coreografado o videoclipe de “Ring the alarm”, de Beyoncé, e assinado com a gravadora de Pharrell como cantora, rapper e dançarina.
Na direita, Teyana Taylor na época do reality; na esquerda, a atriz durante a temporada de premiações
Reprodução
Então, o que pode querer uma mulher que já conquistou tanto, tão cedo? Que tal uma participação na série “My super sweet 16”, da MTV, documentando os planos de uma festa inesquecível no Museu de Ciências de Nova York, alugado por sua mãe para o aniversário marcante?
“Eu falo muito sobre como sou descolada, mas agora preciso provar isso com a festa de 16 anos mais louca e selvagem que o Harlem já viu”, disse a jovem Taylor às câmeras da MTV, em 2007. Nesse quesito, ela não decepcionou, chegando como uma Barbie em tamanho real, lacrada em uma caixa rosa carregada por rapazes sarados sem camisa. A festa com tema de skate teve coreografias elaboradas e uma participação especial de Pharrell, enquanto Teyana acumulava presentes extravagantes como uma Range Rover branca e uma bicicleta cromada de US$ 8 mil.
“E aí, T! Não precisamos mais de skates”, disse um amigo.
Ela ganhou? Embora "My super sweet 16" não fosse um reality show de competição, ainda poderia haver um "vencedor", de certa forma, se a participante estivesse disposta a parecer tão arrogante e prepotente a ponto de ser eternizada na infâmia da TV. Mas a adolescente evitou os chiliques exagerados, passando menos a imagem de uma princesa mimada e mais a de uma diretora criativa exigente. Diante de problemas, como o seguro que impede uma pista de skate indoor, ela fica chateada principalmente pelo prejuízo da coesão temática da festa.
Ainda assim, não seria uma festa "My super sweet 16" sem muito consumo ostensivo. "Eu consigo tudo o que quero da minha mãe", Teyana se gaba, acrescentando: "Ela é completamente apaixonada por mim". A mãe, Nikki, se incomoda com os tênis de grife caros que Taylor insiste em usar na festa. "Você está disposta a pagar 700 dólares por um par de tênis?", questiona. "Estou disposta a aceitar os 700 dólares para pagar os tênis", Teyana responde.
Ela se arrepende? Com o estrelato no cinema, trechos de sua luxuosa festa televisionada ressurgiram nas redes sociais. Em uma matéria de novembro para o "Hollywood Reporter", ela rebateu as especulações de que teria conseguido o papel em "My super sweet 16" por ter tido uma criação privilegiada.
"Já vi gente dizendo que eu sou... como é que se chama? Nee-po baby? Nepobaby!", disse. "Já ouvi todo tipo de coisa, como se eu tivesse um pai chinês rico ou um pai produtor. Eu morava na 144th Street com a Sétima Avenida, e minha mãe solteira se matava de trabalhar em uma grande empresa para me sustentar. Ela queria que eu tivesse uma festa bonita!"
Emma Stone, ‘Em busca da família Partridge’
Ela cantou “Good luck, babe!” em “Bugonia”, dançou ao som de “Pocketful of sunshine” em “A mentira” e fez um dueto digno do Oscar com Ryan Gosling em “La La Land”, mas os verdadeiros fãs sabem que Stone mostrou seu talento musical na tela pela primeira vez no lugar mais inusitado.
Na esquerda, Emma Stone na época do reality; na direita, a atriz atualmente
Reprodução
Em 2004, ela participou do programa “Em busca da família Partridge”, uma tentativa equivocada do canal VH1 de reviver a sitcom dos anos 70 sobre uma família musical, transformando o processo de seleção em um reality show de competição no estilo “Ídolos”. A cada semana, atores faziam testes para diferentes papéis na nova versão cantando músicas pop diante de uma plateia ao vivo. Foi assim que Stone, então com 15 anos (ainda usando seu nome de batismo, Emily), apareceu de cropped, calça jeans de cintura baixa e pulseiras grossas, interpretando “Bitch”, de Meredith Brooks.
Hoje, o mais surpreendente no programa é o quanto Stone se entregou ao humor exagerado. Não houve piscadela para a plateia, nenhum distanciamento irônico, nenhum sinal sutil de que ela estava acima de tudo isso. Ela se entregou ao material com um entusiasmo desajeitado que pode ser difícil de conciliar com a atriz que conhecemos hoje — estrela dos filmes do ousado diretor Yorgos Lanthimos e produtora de filmes independentes de vanguarda como "I saw the TV glow".
Ainda assim, toda aquela cantoria e requebrado acabou se mostrando cativante. Ofereceu uma visão inesperada de quem Stone é em sua essência. Mesmo cantando um dueto competitivo e um tanto desajeitado de "We Belong", de Pat Benatar, fica claro que ela sempre foi movida por um amor simples pela arte de se apresentar. O VH1 teve a sorte de ser o primeiro canal a mostrar isso.
Ela ganhou? Stone superou a concorrência e conquistou o papel de Laurie, mas uma ressalva importante: apesar de toda a expectativa criada, o VH1 acabou recusando a produção de uma temporada completa de "The Partridge Family". Apenas o episódio piloto foi feito e, segundo Stone, a produção foi tão desastrosa que os roteiristas retiraram seus nomes e a emissora engavetou o programa.
"Eles exibiram o piloto por volta das 22h15 de uma sexta-feira", ela relembrou anos depois. "Em algum horário intermediário, nem 22h, nem 22h30 — tipo 22h15, em uma sexta-feira qualquer." Ainda assim, talvez tenha sido melhor assim: se a série tivesse desafiado todas as expectativas e se tornado um sucesso na TV a cabo, Stone provavelmente não estaria disponível para filmar sua atuação marcante em "Superbad" apenas três anos depois.
Ela se arrepende? Stone continua sendo uma grande fã de reality shows e menciona regularmente diferentes franquias de "Real Housewives" em entrevistas. Ao longo dos anos, afirmou que sua experiência em "In search of the Partridge family" lhe proporcionou uma visão sobre como um reality show pode distorcer a mente de seus participantes.
"Eu entendo como os participantes de 'The Bachelor' ou 'The Bachelorette' devem se sentir, porque você meio que entra num vórtice onde pensa: 'Esta é a única coisa que importa'. Você perde completamente a perspectiva."
Em uma entrevista para o "Entertainment Tonight", seu colega de elenco em "Bugonia", Jesse Plemons, perguntou se ainda era possível assistir ao reality show online.
"Infelizmente, sim, você pode", respondeu ela. "Está no YouTube. Você pode ver minhas extensões de cabelo, meu bronzeado artificial e minhas unhas de acrílico."
