Três anos depois, atentado terrorista de 7 de Outubro ecoa entre israelenses e vira tema central nas eleições

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Com eleições gerais marcadas para definir a nova composição da Knesset em 27 de outubro, parte da população israelense acompanha a disputa eleitoral com os pensamentos voltados para o passado. Três anos depois do atentado terrorista do Hamas contra Israel — que matou 1,2 mil pessoas e desencadeou a crise envolvendo 251 reféns, seguida por uma guerra que dizimou o território palestino e matou 74 mil pessoas, expandindo-se para outras frentes no Oriente Médio —, as marcas do ataque de 7 de outubro de 2023 permanecem como um trauma coletivo entre os israelenses e desempenham um papel central na atual contenda. O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Analistas há muito apontam o dano à sensação de segurança dos israelenses em seu território como um dos principais impactos psicológicos e simbólicos do ataque do Hamas. A incursão por terra, com homens armados avançando por estradas e comunidades no sul do Estado judeu, deixou um rastro de destruição e morte amplamente captado em imagens — em parte, registradas pelos agressores — que alimentaram sensações de medo e terror. Apesar do trauma ter sido uma experiência compartilhada, a significação sobre o atentado e decisões do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu foram diversas.

— Existe uma disputa narrativa entre o governo e a oposição sobre o 7 de Outubro, da qual o governo entendeu que não pode se esquivar — afirmou o pesquisador João Miragaya, mestre em História pela Universidade de Tel Aviv e colaborador do Instituto Brasil-Israel (IBI) em entrevista ao GLOBO. — O 7 de Outubro é certamente o principal assunto das eleições deste ano, e enquanto a oposição tenta colar em Netanyahu a responsabilidade pelo fracasso de segurança que possibilitou o ataque, o governo tenta pautar o debate e constrói um discurso próprio para tentar colher louros. Em busca de respaldo, algumas siglas têm investido em uma tentativa de atenção direta ao tema. Levantamentos realizados pelas agências de notícias AFP e Reuters identificaram nove candidatos diretamente afetados ou que viram suas famílias se tornarem vítimas ou reféns do Hamas no dia do atentado. Em contraposição ao ativismo quase uniforme no período de cativeiro dos reféns, quando o apelo uníssono era o retorno do maior número deles com vida, as candidaturas agora se espalham por todo o espectro político. Em busca de respaldo Cada um dos candidatos justificou a entrada para a política e a escolha partidária com razões próprias. Muitos demonstraram concordância com uma linha política específica, enquanto outros vincularam as pretensões partidárias ao legado deixado pelos parentes afetados pelo atentado. — Estou dando continuidade à missão em que Rani estava. Ele foi defender Israel — disse Talik Gvili, mãe de um policial morto durante a resposta inicial ao atentado do Hamas, que lançou candidatura pelo Likud, partido de Netanyahu, em um vídeo de campanha. — Quero um líder forte, alguém com quem eu possa contar.

Candidata pelo partido de oposição Direto!, criado pelo ex-chefe militar Gadi Eisenkot em oposição ao Gabinete atual, Shira Shapiro, cujo filho também foi morto pelo Hamas, afirmou que ela e outros pais de vítimas estão "tentando pegar essa dor e dar-lhe um sentido, crescer a partir dela", em entrevista à Reuters. Aner, seu filho mais velho, foi morto após arremessar de volta granadas jogadas dentro de um abrigo onde estava com outras 26 pessoas. — Ouço a voz dele dizendo 'continuem depois de mim' — disse Shira, referindo-se às últimas palavras de Aner, captadas por outra das vítimas dentro do bunker. Sharon Sharabi, cujos dois irmãos, Yossi e Eli, foram capturados pelo Hamas no kibutz Beeri, lançou-se pelo partido oposicionista de direita Israel Nosso Lar, afirmando que as falhas da liderança de Israel foram decisivas para o atentado. Defensor de uma resposta linha-dura aos grupos considerados por Israel como organizações terroristas, ele disse que "consideraria uma coalizão" entre familiares de outras vítimas em caso de confirmarem vagas no Parlamento, mas que isso dependeria de interesses comuns. Líder da oposição Naftali Bennett encontra com famílias de vítimas do 7 de Outubro em ato em Tel Aviv Jack Guez/AFP Ameaça terrorista: Copiloto da FlyDubai planejava jogar avião contra aeroporto israelense ou prédio em Tel Aviv, dizem relatos Fora do debate público Ao passo que a violência sofrida há três anos continua como tema central, as repercussões da guerra em Gaza não têm o mesmo apelo. Não se fala sobre os 73 mil mortos — dos quais 20 mil menores — nem que 80% do território foram devastados, segundo a ONU. Em entrevista à rede catari al-Jazeera, a acadêmica e analista de mídia israelense Ayala Panievsky caracterizou o 7 de Outubro como "o pior evento da História do país para a maioria dos israelenses", avaliando como "nada surpreendente" o fato de as eleições girarem em torno do 7 de Outubro e acrescentando que o trauma fez com que "até hoje, nenhum dos horrores que se seguiram em Gaza penetrasse no debate público em Israel". Ao GLOBO, Miragaya apontou que "não existe mea-culpa sobre o excesso de violência em Gaza" nas campanhas em andamento, apontando a ausência do tema no debate público israelense e o próprio contexto eleitoral como fatores a dificultar qualquer movimento neste sentido. O pesquisador indica que a oposição tem tido dificuldade até mesmo de criticar os resultados políticos da guerra. — Grande parte da população e a maioria desses líderes não alinhados a Netanyahu pressionavam o governo para terminar a guerra pelo menos um ano e meio antes do momento em que ela terminou, para ter os reféns de volta, e porque o próprio Exército dizia que tudo o que podia fazer já tinha feito. Ainda assim, a guerra durou um ano e meio a mais e alguns reféns morreram no meio do caminho — disse Miragaya. — A oposição não tem explorado isso. O discurso mais frequente é de que o Hamas manda em Gaza, que Israel não bateu neles até o fim como prometeu. Se falta bater mais no Hamas, por que o eleitor votaria na oposição, e não no governo que sempre defendeu continuar a guerra? Acusações trocadas Ainda assim, o 7 de Outubro tem mobilizado a retórica política. O Juntos, sigla de oposição que reuniu partidos da centro-esquerda à direita de Netanyahu nesta eleição, coliderada por Naftali Bennett e Yair Lapid, esteve entre os partidos que repercutiram as denúncias feitas pelo jornal israelense Haaretz, de que o premier havia recebido e ignorado informações de inteligência sobre a iminência de um ataque do Hamas. Netanyahu refutou as denúncias e entrou com processos por difamação contra veículos e jornalistas que publicaram a matéria. Em contrapartida, o primeiro-ministro é alvo de reclamações judiciais por sugerir que autoridades do Exército e de outros setores do governo teriam prevaricado ao ignorar ameaças de segurança e subdimensionar o ataque após este ser lançado. A esposa de Netanyahu, Sara, chegou a acusar o líder do partido de esquerda Os Democratas, Yair Golan, de ter escondido informações sobre o ataque, pelo fato do ex-general ter sido um dos primeiros a oferecer resistência à invasão, ao mobilizar um pequeno grupo de voluntários para resgatar civis, incluindo seu próprio filho, na área sob ataque. O candidato negou as acusações, e entrou na Justiça contra a primeira-dama. — A memória do 7 de Outubro tende a ser ruim para a campanha governista. Eles queriam que a votação fosse antes, mas não conseguiram encontrar uma data para isso — indicou Miragaya. — [Quando o eleitor for às urnas,] vai estar fresco na memória dos cidadãos. Se isso vai fazer o governo perder votos, não sei se vai acontecer.

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