Trend da Rocinha: vídeo de drone em laje da favela vira febre e é copiado no país e no mundo; escolha o seu preferido
Das lajes da Rocinha para o mundo, o vídeo com drones ao som de “Baianá”, da banda Barbatuques, virou um fenômeno global nas redes sociais. O roteiro se repete em diferentes países e cenários: alguém abre uma porta, caminha até um terraço improvisado e posa enquanto a câmera se afasta lentamente, revelando a paisagem ao redor. A cena, que nasceu na Zona Sul do Rio, transformou a maior favela do país, segundo o IBGE, em referência internacional, impulsionada por enquadramentos quase cinematográficos que revelam, em plano aberto, a imensidão da comunidade em contraste com o mar, o Cristo Redentor e a Lagoa Rodrigo de Freitas.
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A partir daí, a estética ganhou o mundo e passou a ser recriada em diferentes contextos. No distrito de Ate, no Peru, três mulheres recriam a cena na laje de casa e brincam com a impossibilidade de viajar ao Brasil para gravar o original. Já em Aveiro, em Portugal, um homem simula a trend a partir do letreiro da cidade. Em Nova York, por sua vez, um jovem grava do alto de um prédio e diz que também não tem dinheiro para viajar ao Rio, recorrendo aos telhados dos edifícios para sua versão.
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No Brasil, o formato ganhou releituras em diferentes estados, muitas vezes com humor ou referências à identidade local. É nesse contexto que aparece a versão do influenciador Leidivan Sampaio, de 38 anos. Morador da zona rural de Manhuaçu, no interior de Minas Gerais, a cerca de 440 quilômetros da favela, ele decidiu conectar a Rocinha à "roça" onde vive.
— Vi os vídeos e pensei: “Já que é Rocinha lá, eu moro na roça, posso fazer na minha rocinha” — conta. — Acho muito bacana, enfrentaria fila de horas para ver de perto. Nunca vi uma vista assim na vida real.
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Muito além do vídeo
Na Rocinha, porém, o vídeo está longe de ser apenas um improviso. Ele integra um roteiro turístico estruturado, construído com a participação da comunidade e da associação de moradores, que inclui guias, mototáxis e pontos específicos de visitação na comunidade. Ao todo, cinco lajes concentram as gravações: Porta do Céu, Bela Vista, Alto Visual, Vista Show e De Cara para o Gol.
A experiência foi organizada por meio do aplicativo Na Favela Turismo, criado por Renan Monteiro, que acompanhou desde cedo a chegada desordenada de turistas à favela e decidiu transformar o fluxo em uma atividade mais estruturada e sustentável. A proposta, segundo ele, é evitar a exploração desorganizada do território e garantir que os moradores sejam beneficiados economicamente.
— Quando as pessoas chegam interessadas no vídeo, a gente explica que ele faz parte do roteiro turístico e que, por lá, é possível conhecer a cultura da favela, passar pela gastronomia e gravar o conteúdo em alguma das lajes — explica.
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A viralização dos vídeos aumentou a procura pelo passeio, que pode custar cerca de R$ 320. Segundo Monteiro, 41 mil visitantes foram cadastrados no aplicativo em fevereiro, sendo 70% estrangeiros. Muitos chegam com os vídeos salvos no celular e o pedido direto de reproduzir a cena que viram nas redes.
O guia Guilherme Valentim, conhecido como Guinnes, conta que a trend elevou o fluxo de visitantes a um novo patamar, a ponto de praticamente eliminar a baixa temporada.
— Todo dia é alta temporada. Tem gente que atravessa o oceano só para fazer o vídeo e vai embora no mesmo dia — diz.
Turismo de experiência
Para a turismóloga e antropóloga Caroline Bottino, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o fenômeno não surge isolado, mas se insere em uma transformação mais ampla do comportamento do turista contemporâneo, cada vez mais interessado em experiências autênticas. A pesquisadora afirma que essa tendência dialoga com o interesse histórico por territórios “fora do circuito”, agora ressignificado pelas redes sociais e pela busca por narrativas mais próximas da realidade dos moradores.
Ela avalia que o caso da Rocinha também evidencia o avanço do chamado turismo de base comunitária, em que os próprios moradores assumem o protagonismo da atividade e reorganizam a forma como o território é apresentado a quem chega de fora.
— Hoje há um envolvimento muito maior dos moradores da favela. Para a comunidade, isso tem gerado um impacto significativo. O fato de ter viralizado e estar sendo reproduzido em outros lugares contribui para a autoestima dos moradores, fortalecendo a sensação de pertencimento e o orgulho pelo lugar onde vivem — afirma.
Ao mesmo tempo, a tendência reacende discussões antigas. Em debate recente em uma rádio canadense, especialistas classificaram o fenômeno como parte do chamado “turismo da pobreza” e questionaram até que ponto o interesse externo contribui para reduzir desigualdades ou apenas as transforma em conteúdo. Já publicações em jornais internacionais apontam que os vídeos podem glamourizar a desigualdade.
— O que eu observo nos turistas é uma sede por entender o que seria a alma do povo brasileiro, mais especificamente do carioca. É óbvio que o contraste da Rocinha com o mar e a vista do Cristo Redentor, inserida na Floresta da Tijuca, compõe um cenário que desperta interesse — rebate a especialista.
