A morte do lutador brasileiro de Nascimento, de 34 anos, no início de agosto, chamou a atenção para os cuidados relacionados à prática de atividades físicas.
O atleta sofreu uma parada cardíaca enquanto dormia e chegou a receber atendimento médico, mas não resistiu.
Em Belém, também neste mês, um homem morreu após passar mal enquanto se exercitava em uma academia.
Os casos são distintos e não há relação estabelecida entre eles, mas reacenderam uma dúvida comum para quem pretende começar a se exercitar: é preciso passar por avaliação médica antes de iniciar uma atividade física?
Professora de Educação Física Hiolle Meneses, de 37 anos, já praticava musculação quando começou no CrossFit (O Liberal/ Igor Mota)
Cuidados com o coração
Segundo o cardiologista Antonio Monteiro, a necessidade de avaliação depende do perfil de cada pessoa e do tipo de atividade que será praticada.
Para exercícios leves, como começar a caminhar, nem sempre é necessário realizar uma bateria de exames.
Já pessoas sedentárias, mais velhas, com fatores de risco, histórico familiar de doença cardiovascular ou que pretendem iniciar atividades intensas devem passar por avaliação clínica.
“Alguém pode se considerar saudável apenas porque não sente nada, mas pode ter pressão alta, colesterol elevado, diabetes ou até alguma alteração cardiovascular ainda sem sintomas”, explica.
Professora de Educação Física Hiolle Meneses praticando crossfit (O Liberal/ Igor Mota)
A partir da avaliação, o médico pode identificar a necessidade de exames complementares, como eletrocardiograma e teste ergométrico.
Entre os fatores que aumentam a necessidade de acompanhamento estão hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade, tabagismo, doença renal, sedentarismo prolongado e histórico familiar de infarto precoce ou morte súbita.
Médica veterinária Verena da Costa Ferreira, de 39 anos, relata melhor qualidade de vida após começar a fazer crossfit (O Liberal/ Igor Mota)
Sinais de alerta
Nem todo cansaço durante o exercício indica um problema.
Segundo o cardiologista, aumento da frequência cardíaca, respiração acelerada e fadiga são respostas esperadas durante atividades intensas, desde que sejam proporcionais ao esforço e melhorem quando a pessoa reduz o ritmo.
O alerta está em sintomas súbitos, desproporcionais ou acompanhados de outros sinais.
Dor ou pressão no peito, falta de ar intensa, tontura, sensação de desmaio, palpitações com mal-estar e perda súbita de rendimento indicam a necessidade de interromper a atividade.
“Se os sintomas forem intensos, persistirem após o repouso ou vierem acompanhados de desmaio, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente.
Monteiro explica ainda que algumas doenças cardiovasculares podem permanecer silenciosas e se manifestar quando o coração é submetido a maior esforço, como doença coronariana, algumas arritmias e cardiomiopatias”, orienta.
Para quem já treina, a recomendação é aumentar carga e intensidade gradualmente, manter hidratação e períodos de recuperação e evitar exercícios intensos durante febre, infecção ou mal-estar.
Também é importante controlar fatores de risco como pressão arterial, colesterol e glicemia.
Danilo Barros orientando aulas durante o CrossFit (O Liberal/ Igor Mota)
Avaliação e progressão
A avaliação física reúne informações que ajudam a definir exercícios, cargas, intensidade e progressão de forma individualizada.
Entre os procedimentos estão anamnese, avaliação postural, dobras cutâneas, bioimpedância e aferição de pressão arterial e glicemia, dentro das competências profissionais, conforme detalha o personal trainer Bernardo Sálvio.
Para quem passou muito tempo sedentário, a orientação é começar com cargas leves, menor volume e mais períodos de descanso.
A intensidade deve aumentar gradualmente, conforme a resposta do aluno.
Durante o treino, o profissional deve observar sinais como tontura, palidez, alteração da respiração, confusão ou mudanças significativas no estado geral.
Limitações de movimento também podem exigir correções, adaptações ou interrupção do exercício.
Danilo Barros é educador físico e ministra as aulas de CrossFit (O Liberal/ Igor Mota)
Bernardo também alerta que copiar treino, carga ou intensidade de outra pessoa pode ser inadequado, mesmo entre praticantes com idade ou características físicas semelhantes.
Sono, alimentação, rotina, limitações de movimento, doenças e capacidade de recuperação interferem na resposta ao exercício.
“O treinamento deve respeitar as necessidades e limitações individuais, e não ser baseado na comparação com o desempenho de outra pessoa”, afirma.
Cuidados como aquecimento, hidratação, pausas e descanso também contribuem para a segurança.
Começar exercícios novos com cargas menores permite corrigir movimentos antes de aumentar a exigência.
Para quem está começando, a recomendação é não tentar acelerar os resultados com cargas excessivas.
“O organismo precisa de adaptação, recuperação e tempo.
Começar com cargas muito altas pode comprometer os movimentos, aumentar o risco de lesões e dificultar a continuidade”, explica Bernardo.
A atividade física pode contribuir para a saúde e a qualidade de vida, mas a intensidade e a progressão precisam considerar as condições individuais.
Conhecer os próprios limites, buscar orientação adequada e observar sinais fora do esperado são medidas que ajudam a tornar a prática mais segura.
CrossFit
Em Belém, academias e centros de treinamento continuam recebendo pessoas com diferentes idades e níveis de condicionamento.
Um grupo acompanhado durante um treino de CrossFit no bairro do Marco mostra como preparação e adaptação fazem parte da rotina de quem pratica a modalidade.
A professora de Educação Física Hiolle Meneses, de 37 anos, já praticava musculação quando começou no CrossFit e, por isso, não procurou avaliação médica específica.
Atualmente, mantém acompanhamento anual ou semestral e acompanhamento nutricional.
“Eu já era praticante de musculação há muito tempo e a atividade física sempre fez parte da minha rotina.
Então, não foi por acompanhamento médico, era mais uma questão de rotina mesmo”, relata.
Hiolle afirma ter percebido mudanças na força, no sono e na disposição.
A prática também ganhou importância depois que se mudou da Bahia para Belém e buscou uma atividade com maior convivência social.
“É uma experiência que mexe com várias áreas, não só com o físico ou com o gosto pela atividade física.
Tem também a questão social e emocional”, afirma.
A adaptação também envolve observar a resposta do organismo.
Hiolle considera fatores como sono, alimentação e nível de energia para definir como vai treinar.
“Nem todos os dias são iguais.
Cada dia tem um treino diferente e o nosso corpo também responde de uma forma diferente.
Então, procuro me conhecer e entender quando não tive uma noite boa”, diz.
A experiência da médica veterinária Verena da Costa Ferreira, de 39 anos, é diferente.
Antes do CrossFit, ela se considerava sedentária e afirma ter convivido com obesidade desde a infância.
Conheceu a modalidade por volta de 2020 e passou a treinar regularmente.
Desde então, perdeu cerca de 20 quilos.
Em 2021, também iniciou acompanhamento com endocrinologista devido a alterações metabólicas, como colesterol elevado.
“Mesmo com a atividade física, eu ainda não conseguia chegar ao peso que gostaria.
Então comecei o acompanhamento com endocrinologista”, explica.
Verena afirma que a adaptação ocorreu de forma gradual e com orientação profissional.
“Uma pessoa que nunca praticou atividade física não fica desacompanhada nesse tipo de exercício.
Sempre tivemos muita orientação e fazemos os movimentos dentro do nosso ritmo”, pontua.
Com o tempo, aprendeu a reconhecer os sinais do próprio corpo e a reduzir a intensidade quando necessário.
Alterações nos batimentos, cansaço acima do habitual e a percepção de que não está bem são alguns dos sinais observados.
“Fui aprendendo a conhecer meu limite.
Hoje, eu mesma consigo identificar quando preciso fazer uma pausa”, conta.
Adaptação durante o treino
O professor de CrossFit Danilo Barros explica que os alunos passam por uma anamnese antes de iniciar as atividades.
A equipe busca conhecer aspectos da rotina e oferece três aulas iniciais para identificar as necessidades de cada praticante.
“A adaptação é muito individualizada.
O que serve para mim pode não servir para você ou para outra pessoa”, afirma.
A lógica vale para o CrossFit e o HYROX, modalidades oferecidas no local.
Um aluno que não consegue realizar determinado agachamento, por exemplo, pode começar sentando e levantando de um banco.
Durante o treino, a equipe também considera percepção de esforço, intensidade e cargas.
Relógios e pulseiras com monitoramento de frequência cardíaca podem ser utilizados como ferramentas auxiliares para acompanhar a resposta do organismo.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de João Thiago, coordenador do núcleo de Atualidades
