Travessia a remo de Amyr Klink no Atlântico Sul vai para o cinema: ‘Nunca imaginei que um negócio maluco que fiz pudesse virar filme’

Travessia a remo de Amyr Klink no Atlântico Sul vai para o cinema: ‘Nunca imaginei que um negócio maluco que fiz pudesse virar filme’

 

Fonte: Bandeira



Uma viagem de cem dias da costa da Namíbia à do Brasil num barco a remo parece história de filme. E é. Mas também é real. E vai ser contada em imagens ainda neste ano, quando chega aos cinemas “100 dias”, ficção inspirada na travessia do navegador Amyr Klink pelo Atlântico Sul. Com direção de Carlos Saldanha e roteiro de Elena Soarez e Thais Tavares, o longa, estrelado por Filipe Bragança, é uma adaptação do livro “Cem dias entre céu e mar”. A obra, da editora Companhia das Letras, foi originalmente publicada em 1985, um ano depois de o paulistano navegar sozinho quase seis mil quilômetros entre o porto de Lüderitz, no sul do país africano, até a Praia da Espera, na Bahia.

—Para mim, foi uma baita de uma homenagem. Nunca imaginei que um negócio maluco que fiz pudesse virar filme — diz Amyr, de 70 anos, em entrevista ao GLOBO por telefone.

Carlos Saldanha (à esquerda) e Amyr Klink

Divulgação

O navegador e Saldanha se encontram na próxima sexta-feira no Rio2C, maior encontro de criatividade da América Latina, que acontece na Cidade das Artes entre 26 a 31 de maio. Às 11h30, no palco Global Stage, os dois participam do painel “O oceano pessoal: As travessias de Amyr Klink e Carlos Saldanha”, com mediação da jornalista Fernanda Gentil, e pretendem detalhar o desafio de filmar o tal “negócio maluco” em que Amyr se meteu.

— Ele fez uma jornada única — diz Saldanha, em entrevista por chamada de vídeo direto de Nova York, onde mora. — Amyr é a primeira pessoa que atravessa o Atlântico (remando sozinho). A força de vontade dele, o planejamento, o estudo, o que ele avançou em tecnologia própria para chegar aonde chegou são um acontecimento.

A nacionalidade de Amyr é especialmente instigante para Carlos, um diretor consagrado principalmente por seus trabalhos com animação em estúdios do exterior, como os sucessos “Rio” e a “A era do gelo”, e por duas indicações ao Oscar — melhor longa de animação em 2018, com “O touro Ferdinando”, e melhor curta de animação em 2004, com “A aventura perdida de Scrat”.

Filipe Bragança, como Amyr Klink em '100 dias'

Divulgação

—Agora vemos com maior frequência, mas, por muito tempo, o Brasil nunca havia feito filmes sobre os nossos heróis — diz o diretor, de 61 anos. —O livro é um super best-seller, a minha geração toda leu. Mas essa história precisa ser recontada.

semelhança física

Filipe Bragança, no ar na novela “Coração acelerado”, da TV Globo, foi o ator escolhido para viver o protagonista de “100 dias”, junto com um pequeno elenco composto também pela francesa Philippine Leroy-Beaulieu (da série “Emily em Paris”, agora no papel de Asa, a mãe de Amyr) e Felipe Camargo (como o pai dele, Jamil). Saldanha conta que o navegador, quando viu Filipe nos bastidores pela primeira vez, se impressionou com a semelhança física entre eles. Amyr confirma.

— Ele, de fato, é muito parecido comigo na época (da viagem) — diz Amyr. — É muito dedicado e esforçado, entrou e saiu do barco mais do que eu em cem dias. Conseguiu ler todos os meus trejeitos, o jeito de falar.

O navegador, que já assistiu, com a família, a um primeiro corte do filme, viu o roteiro, mas não fez nenhuma observação ou exigência no que seria filmado. Fez questão de frisar, tal qual o diretor, que a história é uma adaptação do que ele viu.

— Não quis dar sugestões, entendo que é uma obra nova, mas contei a parte emocionante dessa viagem dificílima, algo que ninguém tinha conseguido ainda. Deixei claro que foi uma experiência cheia de desafios contundentes — diz Amyr.

Missão complicada também para a equipe de produção, ciente de que o mar (com seus perigos) era personagem fundamental da história. Algumas cenas da travessia foram gravadas no litoral de Bertioga (SP), mas a maioria foi num tanque construído num galpão em São Paulo. Efeitos especiais de pós-produção completaram a tarefa de criar ondas de até 16 metros e tubarões que desestabilizaram a viagem.

— Criar água e tempestade é um desafio muito grande, algo que vemos mais nos filmes lá de fora, com orçamentos muito maiores. Foi um desafio legal: como fazer um filme com qualidade internacional dentro do contexto doméstico de produção — diz Saldanha.