Transição sob tutela dos EUA e interesse no petróleo ampliam incertezas na Venezuela, dizem diplomatas brasileiros
Diplomatas brasileiros ouvidos pelo GLOBO avaliam que o anúncio feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que Washington passará a governar a Venezuela “até segunda ordem” abre uma fase de profunda incerteza sobre o futuro político do país. Em declarações públicas, Trump deixou claro que o petróleo venezuelano é um dos interesses centrais de Washington, o que acrescenta um componente econômico à ofensiva e amplia as preocupações do governo brasileiro quanto aos desdobramentos da crise.
Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmam que ainda não está claro como será estruturada a administração transitória em Caracas, nem de que forma ela será operacionalizada ou quais mecanismos serão usados para exercer esse controle.
Trump também sinalizou que a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, deverá permanecer no comando do país, em coordenação com os americanos, até que seja definida uma “transição considerada adequada”. A indicação, segundo essa avaliação, reforça a percepção de que os Estados Unidos pretendem exercer influência direta sobre o processo político venezuelano no curto prazo, sem detalhar os mecanismos institucionais dessa condução.
Interlocutores com conhecimento do assunto chamaram atenção para o fato de Trump não ter citado a oposição como alternativa para o país — o que incluiria nomes como Edmundo González, candidato da oposição na última eleição presidencial, ou Maria Corina Machado, principal liderança opositora e figura central na articulação contra o chavismo.
Maria Corina foi mencionada de forma lateral como possível alternativa.
— É uma mulher legal, mas não tem o apoio e o respeito na Venezuela — afirmou Trump.
Esse vácuo político tende a abrir uma disputa interna intensa pelo comando do país. Nas palavras de um importante integrante do governo Lula, “agora começa a briga de foice no escuro pelo poder”, ao mencionar a possibilidade de embates entre diferentes grupos da oposição, incluindo aliados de Maria Corina, de Edmundo González e de outros atores que buscam espaço no novo arranjo. Segundo ele, trata-se de uma dinâmica recorrente na história recente da Venezuela, marcada por fragmentação e disputas internas.
Recado a Cuba e Colômbia
Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, afirmaram que os presidentes de Cuba e da Colômbia, Miguel Díaz-Canel e Gustavo Petro, deixaram claro que ambos “devem se preocupar” com o que aconteceu com a Venezuela. Para interlocutores do Itamaraty, a declaração foi interpretada como um recado direto aos dois líderes. Uma ofensiva em Havana seria considerada mais provável, avalia um importante diplomata.
Interlocutores que acompanham o assunto em Brasília também fizeram comparações com intervenções militares anteriores conduzidas pelos Estados Unidos. Lembraram que, no caso do Iraque, foram necessários cerca de nove meses até a captura de Saddam Hussein, apesar da rápida derrubada do regime. Para essas fontes, o cenário atual guarda paralelos com o que ocorreu tanto no Iraque quanto no Afeganistão, onde a queda do governo central não resultou em estabilidade imediata e foi seguida por longos períodos de conflito, disputas internas e dificuldades para a consolidação de um novo poder político.
Na leitura de diplomatas, esse histórico amplia as incertezas em torno do desfecho venezuelano e reforça as preocupações regionais sobre os efeitos de uma intervenção externa direta em um país sul-americano, especialmente em um contexto de fragilidade institucional e elevada polarização política.
O governo brasileiro passou, ainda, a reavaliar os impactos da ação sobre a segurança regional e a política externa sul-americana, diante da percepção de que a iniciativa estabelece um precedente com potencial de alterar o equilíbrio diplomático no continente. Interlocutores afirmam que a ofensiva americana pode produzir efeitos políticos indiretos na América do Sul. A avaliação é de que, ao atuar dessa forma em relação à Venezuela, Washington amplia a percepção de que poderia adotar medidas semelhantes contra outros países da região, em contextos distintos.
Integrantes do governo Lula avaliam que esse cenário pode estimular movimentos políticos regionais. Segundo essas fontes, um bloco de governos de direita na América do Sul pode se sentir mais legitimado a adotar discursos ou práticas de viés intervencionista, o que tenderia a elevar o grau de instabilidade política e diplomática.
Para esses interlocutores, a decisão dos Estados Unidos de recorrer a uma ação militar direta fragiliza princípios como soberania e não intervenção, historicamente defendidos pelo Brasil e centrais na atuação diplomática do país. A leitura é de que esses fundamentos perdem força quando uma potência externa opta por intervir diretamente em um país sul-americano.
Além do impacto político, a ofensiva desperta preocupações relacionadas à segurança regional. Na avaliação interna do governo brasileiro, a ação rompe um longo período em que a América do Sul se manteve, ao menos formalmente, como uma zona de paz, sem intervenções militares diretas promovidas por atores externos.
Um dos principais focos de apreensão para o Brasil é a extensa fronteira terrestre com a Venezuela, que ultrapassa 2 mil quilômetros. A instabilidade no país vizinho, segundo essa avaliação, tende a intensificar pressões já existentes, como o aumento do fluxo migratório e o agravamento de riscos à segurança na faixa de fronteira, incluindo a atuação de grupos criminosos e o tráfico de drogas. Esse cenário pode exigir maior presença do Estado brasileiro, tanto na área militar quanto na assistência humanitária.
Questionados se a ofensiva do presidente Donald Trump representaria um recado direto à China, integrantes do governo brasileiro minimizaram essa interpretação. A visão predominante é de que a disputa entre Estados Unidos e China é estrutural, de longo prazo, e se desenvolve de forma gradual, em múltiplas frentes, configurando uma espécie de nova Guerra Fria. Nesse contexto, a crise na Venezuela não seria um movimento central dessa rivalidade.
Avaliações internas também indicam que não há elementos concretos que confirmem negociações mais amplas envolvendo outros pontos sensíveis da geopolítica global, como Taiwan. Outras leituras, de caráter mais especulativo, veem a ofensiva como parte de um processo mais amplo de pressão dos Estados Unidos sobre governos considerados adversários na região, com possíveis desdobramentos futuros. Essas interpretações, no entanto, não refletem uma posição oficial do governo brasileiro, que mantém cautela e prioriza o acompanhamento dos fatos por meio de canais diplomáticos.
