Daqui a menos de um ano o Maracanã voltará ao centro do futebol mundial, ao receber nove jogos da Copa feminina, entre eles a abertura e a final. No “entorno” do estádio, porém, a modalidade vive uma espécie de paradoxo: se na base os times do Rio são referência, no profissional ainda convivem com limitações estruturais, oscilações no investimento e a dureza de competir com projetos mais consolidados em São Paulo. Os resultados recentes ajudam a dimensionar o fenômeno. Desde a criação da Copinha feminina, todos os títulos ficaram no Rio, com Flamengo (2023 e 2025) ou Fluminense (2024). No Brasileirão Sub-20, a decisão de 2025 foi um clássico entre o Botafogo e o rubro-negro, com título alvinegro. Já em maio deste ano, o Flamengo retomou a taça ao superar o São Paulo na final. O panorama muda na elite. Na primeira fase do Brasileiro A1 deste ano, São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Ferroviária ocuparam as primeiras posições. O Flamengo, quinto colocado, foi o único carioca a avançar ao mata-mata. Já o Botafogo acabou rebaixado à segunda divisão e trocará de lugar com o Vasco, que disputou a última temporada por lá. CELEIRO PRECOCE Esse cenário não surpreende quem trabalha com a modalidade. Amanda Storck, gerente de futebol feminino do Fluminense, lembra que São Paulo estruturou seus projetos mais cedo, enquanto clubes de outros estados só aceleraram o processo após as exigências impostas a partir de 2019 — para disputar a Série A masculina, os clubes foram obrigados a manter equipes femininas. Sob o comando de Amanda, o tricolor tenta encurtar o caminho através da formação. Após reviver seu departamento de futebol de campo em 2018, numa parceria com o projeto social Daminhas da Bola, colhe os primeiros resultados na base: campeão brasileiro sub-18 em 2020, carioca sub-18 em 2021 e sub-17 em 2022 e da Copinha em 2024. — O que a gente vê agora na A1 são atletas que vieram das categorias de base, já na esteira desse novo futebol feminino. Se em tão pouco tempo a gente já consegue ter tanto resultado, imagina quando a gente tiver essa mesma conversa daqui a dez anos — projeta Amanda. O diagnóstico da gerente tricolor encontra eco nos rivais. Técnico do sub-20 do Botafogo, Alexander Alves vê uma “crescente boa” no trabalho dos grandes. Campeão brasileiro em 2025, o treinador aponta os títulos recentes como a evidência de que o Rio ocupa um espaço central na formação, mas ressalta uma diferença importante em relação a São Paulo: o calendário. — Ainda precisamos de mais investimentos e competições. Hoje, temos campeonatos sub-20 e sub-17. Em São Paulo, já há festivais sub-12 e sub-14. Isso dá resultado lá na frente — diz o treinador do Botafogo, em que as atletas têm acompanhamento psicológico, nutricional e assistência social. Dirigentes enxergam uma fresta para avançar. A partir deste ano, o cruz-maltino passou a trabalhar também com um time sub-15. Simone Lourenço, coordenadora do futebol feminino do clube, gostaria de iniciar ainda antes a formação. De preferência, integrada ao colégio de São Januário, oferecendo bolsas universitárias e cursos de idiomas às atletas. — As menores, mais jovens, estão vindo cada vez melhores. É essencial que a gente antecipe os trabalhos, porque elas vão chegar ao adulto muito mais qualificadas — defende Simone. A decisão reflete uma mudança geracional: meninas de 13 e 14 anos chegam mais preparadas do que no passado por consequência da redução do preconceito de gênero e da maior presença feminina no esporte. Amanda relata uma situação parecida. O Fluminense recebe consultas sobre meninas de 9 e 10 anos, mas não dispõe de competição regular no Rio para absorvê-las de forma estruturada. Fluminense tem conseguido usar a base para alimentar o adulto MARINA GARCIA/FLUMINENSE ADAPTAÇÃO RUBRO-NEGRA No Flamengo, a jornada começa antes de as atletas chegarem ao clube. André Rocha, gerente do feminino, destaca a rede de projetos parceiros espalhados pelo país. Segundo ele, mais de 600 meninas praticam futebol nesses núcleos, que recebem apoio financeiro e metodológico do rubro-negro. Há ainda festivais em cinco estados e cursos de formação de treinadores. A estrutura permite ao Fla acompanhar o processo de desenvolvimento antes de uma eventual incorporação às categorias de base. O rubro-negro é o exemplo mais evidente de tentativa de transformar a base em ponte para o profissional. Bicampeão da Copinha e do Brasileiro sub-20, o clube recuperou em 2026 a diretriz “craque, o Flamengo faz em casa”. Jovens como Anna Luiza, Emilly, Brendha, Isabela Nunes, Sofia e Kaylane Vieira passaram a integrar com frequência o elenco principal. O rubro-negro também foi o clube com mais convocadas para o Sul-Americano sub-20 deste ano, vencido pelo Brasil. André pondera, porém, que a passagem entre as categorias não é automática. O clube trabalha individualmente a promoção das atletas, levando em consideração minutagem, evolução técnica, capacidade de lidar com pressão e metas físicas. É importante ressalvar que a estratégia rubro-negra nasceu de uma abrupta readequação orçamentária do departamento, após cortes feitos pela gestão do presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, alvo de críticas por parte da torcida e que culminaram na saída da técnica Rosana Augusto. Situações como a do Fla expõem o principal desafio carioca: formar bem não significa competir, de imediato, com equipes consolidadas no adulto. A diferença aparece em orçamento, qualidade do elenco, calendário, estrutura de treinos e capacidade de reter talentos. No Botafogo, Alexander procura reduzir esse impacto aproximando base e profissional. O sub-20 reúne atletas mais jovens e no fim do processo formativo, e as duas equipes compartilham espaço e rotinas. Algumas atletas já chegaram à titularidade no time principal. Profissional do Vasco conseguiu acesso e voltará ao Brasileirão A1 Beatriz de Sá/Vasco/ PRÓXIMO DEGRAU A estrutura é outro fator decisivo no debate sobre o futebol de mulheres no Rio. Desde que passou a utilizar o Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (Cefan), na Penha, o Fluminense ganhou acesso a campos, academia, equipamentos para treinamento de força e piscinas. Anteriormente, o espaço foi utilizado pelo Flamengo, numa parceria com a Marinha do Brasil, de 2015 a 2025. Para Amanda, esse tipo de ambiente é determinante para que o futebol feminino deixe de ocupar estruturas originalmente montadas para homens. No Vasco, a Casa do Marinheiro cumpre função semelhante. A parceria firmada neste ano foi planejada para integrar profissional e categorias de base e facilitar a transição entre elas. Simone ainda enxerga como ideal, porém, a existência de uma estrutura própria e definitiva para o feminino. A preocupação se estende aos estádios. Com o retorno à A1 em 2027, o clube precisará conciliar calendário, custos e disponibilidade de São Januário, que já é uma questão na atual temporada: — Não vou conseguir fazer todas as partidas em São Januário, tenho que dividir com o masculino. Adoraria disputar a semifinal lá, por exemplo, mas ficamos a depender da situação do masculino na Sul-Americana. A coordenadora defende que a proximidade da Copa seja usada para uma discussão mais ampla. Em vez de depender de grandes estádios, cuja operação é cara, ela propõe recuperar arenas menores e criar no Rio um espaço com identidade ligada ao futebol feminino. O Fluminense, por exemplo, atua no Estádio Luso-Brasileiro. O Flamengo, também, e, em paralelo, articula uma parceria com a prefeitura de Maricá para o desenvolvimento de um estádio na cidade voltado especificamente para a modalidade. — É uma situação que certamente incomoda a todos. Não pode ser resolvida na base do “se vira”. O que juntos nós podemos fazer com isso? — questiona Simone, ao citar a necessidade de articulação entre clubes, Ferj, CBF e outras instituições. Amanda defende que falta à Ferj uma liderança dedicada exclusivamente à modalidade, nos moldes do que ocorreu na federação paulista, na qual a criação de uma diretoria específica ajudou a articular clubes e desenvolver competições. Já André pondera que as competições de base precisam ser mais extensas e menos caras para permitir a entrada e, principalmente, a permanência de projetos menores. Também avalia que, embora tenha crescido, o apoio da CBF às categorias inferiores pode aumentar. Procurada pelo GLOBO, a Ferj argumentou que seu “futebol feminino é integrado ao Departamento de Competições” e conta com uma gerente própria, Julieta Reggi. Acrescentou que a estreia da Copa Rio Sub-14, no mês que vem, é “mais um passo na direção de crescimento” da modalidade e disse ainda que espera que a Copa do Mundo feminina atraia investidores para expandir a prática do esporte. HOLOFOTES DA COPA A meses do Mundial, quem trabalha no futebol feminino carioca se vê entre a oportunidade de atrair novos públicos e a urgência para capitalizar apoio sob os holofotes do torneio da Fifa. Amanda reconhece a dificuldade para transformar a ida a partidas dos clubes cariocas em um hábito do torcedor. Para ela, a Copa pode funcionar como catalisador de um interesse que ainda não se consolidou. Alexander faz ressalva semelhante, mas alerta para o risco de o entusiasmo se restringir ao período do torneio. Entre as 23 jogadoras chamadas por Arthur Elias na última convocação da seleção feminina, quatro tiveram passagem pela base dos clubes cariocas: Tarciane, cria do Flu; Kaylane, revelada pelo Fla; Marta, que iniciou a carreira no Vasco, em 2000; e Angelina, que estreou profissionalmente pelo Santos, mas passou pela formação no cruz-maltino. Já na seleção sub-20, a presença de cariocas é mais forte. A lista de 21 jogadoras convocadas por Camilla Orlando para a Copa do Mundo inclui Sofia, Emilly, Kaylane e Brendha, do Flamengo; Thaynara, do Botafogo; e Carioca, do Fluminense. O Rio terá, em 2027, a responsabilidade de mostrar que também abraça o futebol feminino. Até lá, os principais clubes da cidade seguem na missão de formar, reter e levar suas campeãs da base ao protagonismo profissional e, quem sabe, a futuras Copas do Mundo. *Aluno do curso Jornalismo do Futuro, sob supervisão de Gabriel Rodrigues
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Transição para o profissional desafia bases dos clubes do Rio no futebol feminino
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O Globo
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