Transformar rotina em paixão: lições de envelhecer com prazer e propósito

 

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Não nasci para ser atleta. Ginástica nunca foi o meu forte. Mas fiz os esforços possíveis: tive aulas de dança, me tornei campeã no frescobol e torrei um bom dinheiro nas academias em que me matriculei. Sem falar que já dei três voltas ao redor da Terra caminhando. Mas agora que ficou no passado a tal “flor da idade”, não dá mais para fingir que caminhada é um esporte olímpico. Passei a treinar seriamente com um preparador físico. Há quatro anos. Às oito da manhã. Três vezes por semana. Sem matar nenhuma aula. Nem a ele. O segredo para me tornar quase uma fisiculturista: me apaixonei por trabalhar bíceps e tríceps, por fazer abdominais e agachamentos. Como se sabe, o amor não é um sentimento, e sim uma habilidade. Eu decidi adorar os exercícios. Transformei obrigação em desejo.

A maioria das nossas queixas evaporariam se usássemos esse truque: encontrar o prazer que há por trás daquilo que é imperioso fazer. Votar, por exemplo. Sou contra o voto obrigatório, mas caso deixasse de sê-lo, eu continuaria indo até a seção eleitoral (caminhando) para cumprir minha responsabilidade cívica, pois passei a me interessar pelo que antes desprezava. Política continua sendo um troço chato, mas a partir do momento em que decidi me envolver com o futuro do país, sair de casa para votar virou um programão.

Escrever é uma facilidade? Aviso aos postulantes: longe disso. É trabalho braçal e mental, esgota e frustra. Gasta-se horas, dias em busca de acertos que ora acontecem, ora não. Mas já fui longe demais para desistir da escrita e procurar um emprego “normal”, então renovei os votos com minha atividade, passei a valorizar ainda mais o benefício de não ter rotina e de compartilhar minhas ideias e emoções, vá que sirvam para alguém — é o que me faz continuar na profissão com entusiasmo (desconsiderando a pressão de ter que continuar).

Depois dos 60 anos, já não dá para entornar muitos copos de vinho: bebidas 0% álcool entraram para minha lista do supermercado. Para alguns, envelhecer parece opcional, mas, para mim, é um dever que cumpro me divertindo, apesar das necessárias mudanças de hábito. Resolvi que é melhor enfrentar pequenas perdas pontuais do que morrer de uma hora para outra.

Deu nessa esquisitice. Agora sou uma mulher devota dos exercícios físicos, que nem sonha em se aposentar, que ainda procura se informar sobre o que não domina e que trocou as ressacas por juízo. Enfim, uma mulher que, em vez de praguejar, aderiu. E o melhor de tudo ainda não contei. Ao transformar obrigações em desejos, descobri que poderia fazer o caminho inverso, e fiz: meus dois maiores desejos — amar e viajar — transformei em obrigação.