Principal autoridade do país no monitoramento do risco de tragédias naturais, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) opera hoje sob uma combinação de falta de servidores, limitações de infraestrutura e insuficiência orçamentária que pode comprometer sua capacidade de prevenir tragédias.
Investigação do Ministério Público Federal (MPF) à qual O GLOBO teve acesso mostra que o próprio instituto já relatou situações em que a falta de manutenção de equipamentos prejudicou o envio de alertas sobre tempestades.
Aberto no ano passado, o procedimento administrativo do MPF cobra do governo federal o reforço de recursos para o órgão.
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A apuração da Procuradoria da República em Taubaté (SP) começou em janeiro de 2025, depois de O GLOBO revelar que o Cemaden contava com 96 servidores — cerca de metade do quadro de 180 funcionários considerado ideal quando o órgão foi criado, em 2011, para monitorar 821 municípios.
Desde então, a estrutura de pessoal cresceu, mas não acompanhou a expansão da área de atuação: são 129 servidores para 1.295 cidades monitoradas, déficit de 28%.
A situação é especialmente sensível na Sala de Situação, onde especialistas em hidrologia, geodinâmica, meteorologia e desastres trabalham no monitoramento permanente e na emissão de alertas.
Segundo a direção do Cemaden, seriam necessários ao menos mais 30 servidores para completar a equipe.
A necessidade se torna ainda mais evidente diante da possibilidade de um Super-El Niño e dos efeitos que um fenômeno dessa intensidade pode provocar no país.
Equipamentos inoperantes
O problema não está apenas na falta de pessoal.
O Cemaden mantém uma rede com mais de 4,5 mil equipamentos de monitoramento, mas parte está inoperante.
Dos nove radares meteorológicos do órgão, só cinco funcionam.
Eles são complementados por aparelhos de outros institutos e por sistemas estaduais e municipais.
Na rede pluviométrica, responsável por medir a quantidade de chuva em pontos específicos, 23,5% dos 991 equipamentos estão inativos por necessidade de reposição de peças e problemas relacionados aos chips de comunicação.
É uma vulnerabilidade que atinge justamente a engrenagem responsável por transformar dados em tempo de resposta.
Criado para antecipar eventos extremos e avisar as prefeituras com horas ou até dias de antecedência, o Cemaden depende de uma cadeia que começa nas equipes e nos equipamentos de monitoramento e termina na atuação das Defesas Civis municipais, responsáveis por levar o alerta à população.
Documentos mostram que a própria direção do Cemaden reconheceu, em reuniões, episódios de falhas relacionados à rede de equipamentos e à integração com municípios.
Em 2024, uma cidade de Minas Gerais não teria sido avisada sobre uma tempestade porque seu único pluviômetro estava entupido e registrava ausência de chuva.
O episódio deixou 500 desabrigados.
Em janeiro de 2025, outro caso expôs a dificuldade de transformar o monitoramento em prevenção efetiva.
Em Ipatinga (MG), forte tempestade provocou 11 mortes.
Na ocasião, a prefeitura afirmou não ter recebido o alerta, enquanto o Cemaden apresentou registros que comprovavam o envio.
Procurada, a prefeitura sustentou que a mensagem chegou durante as chuvas, e não com antecedência suficiente, e afirmou ainda que as previsões do sistema estadual indicavam um volume de precipitação muito menor do que o registrado.
Elo frágil com municípios
A integração com os municípios é apontada pelo MPF como um elo frágil.
Em cidades pequenas, é comum que os contatos cadastrados para receber os alertas sejam e-mails pessoais, e não institucionais, o que aumenta o risco de que deixem de ser atualizados quando há mudança de gestão ou de servidores.
“Um grande problema é a fragilidade institucional desses municípios pequenos, que acabam não dando conta de receber alertas e adotar medidas a partir deles”, escreveu a procuradora Ana Carolina Haliuc Bragança no procedimento administrativo.
Concluída em fevereiro deste ano, a investigação do MPF classifica como preocupante a “fragilização” do Cemaden, diante do risco à vida, à saúde e à moradia das populações expostas a desastres.
Em 7 de agosto, a procuradora afirmou que a insuficiência de recursos humanos e de infraestrutura “não vem sendo eficientemente equacionada pelo Estado brasileiro”.
A falta de sede própria também é alvo de críticas.
Apesar de o órgão ter um terreno disponível para a construção, o projeto permanece pendente.
Atualmente, o Cemaden funciona em um espaço alugado no Parque Tecnológico de São José dos Campos (SP).
No procedimento, a procuradora criticou a falta de “sensibilidade” do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), ao qual o órgão é subordinado.
“Quando acontece um desastre, o Cemaden fica assoberbado, monitorando a situação, atendendo as Defesas Civis, respondendo ofícios direcionados por órgãos diversos, atendendo o próprio Ministério Público, imprensa etc.
O MCTI não tem essa sensibilidade”, escreveu a procuradora.
Ao GLOBO, Ana Carolina Haliuc afirmou que, em mais de um ano e meio, houve avanços, como novas nomeações e recursos provenientes do PAC, mas que a estrutura ainda está distante do necessário:
— É preciso compreender o Cemaden como um órgão essencial.
No contexto de mudança climática, de previsão de Super-El Niño, não podemos correr o risco de que o Cemaden não funcione, porque isso significaria risco às vidas.
Em 26 de abril, o MCTI solicitou à Secretaria de Planejamento a abertura de crédito suplementar de R$ 8,4 milhões para evitar que os serviços do Cemaden fossem afetados até o fim do ano.
Ainda não houve retorno.
A procuradora planeja reuniões com a secretaria e com a Casa Civil.
Também foram solicitadas novas nomeações ao Ministério da Gestão e da Inovação.
Sistema inovador
O Cemaden nasceu após as tragédias de 2011 na Região Serrana do Rio, que deixaram 918 mortos, e desenvolveu desde então uma estrutura de monitoramento e alertas considerada inovadora.
O trabalho ganhou reconhecimento em fóruns internacionais e passou a ser apontado como um dos instrumentos capazes de reduzir o número de vítimas diante de eventos extremos, como os registrados em Pernambuco, em 2022; no litoral Norte de São Paulo, em 2023; e no Rio Grande do Sul, em 2024.
Em março de 2024, a Região Serrana fluminense voltou a enfrentar uma tempestade de volume semelhante ao registrado em 2011.
Desta vez, porém, os alertas e as obras de contenção contribuíram para reduzir a dimensão da tragédia: foram quatro mortes.
No mesmo ano, o Cemaden emitiu 3.620 alertas.
— O ideal é ter mais equipamentos, para ter leitura melhor.
Mas, desde que começamos a monitorar municípios e espalhar pluviômetros, tivemos avanço grande — disse Giovanni Dolif, coordenador de Operações do Cemaden.
O órgão monitora atualmente 1.295 municípios — 162 deles incluídos em 2026 — em relação a tempestades, deslizamentos e enxurradas.
A meta é chegar a 2.095 cidades até 2027, priorizando as mais vulneráveis.
Para ampliar a rede pluviométrica, são estimados cerca de R$ 60 milhões adicionais, além dos recursos necessários para manutenção.
No caso das secas, o monitoramento alcança todos os 5.571 municípios brasileiros.
Paulo Artaxo, professor da USP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da Onu (IPCC), afirma que o Cemaden é o único instrumento que o Brasil tem para monitoramento de desastres climáticos, e que sua importância cresce á medida que os eventos extremos se intensificam no mundo.
— Ele tem uma importância econômica e social estratégica para o nosso país e a quantidade de recursos é totalmente insuficiente para que ele possa desempenhar minimamente a sua função com competência — disse Artaxo.
Renata Libonati, coordenadora do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) da UFRJ e integrante do grupo de trabalho do Ministério do Meio Ambiente sobre o El Niño, disse que o trabalho do Cemaden vai além do envio de alertas.
— Não é apenas emitir alertas para reagir a desastres, mas sim aumentar a capacidade do país de antecipar os riscos que a gente sabe que só tende a se tornar mais frequentes e mais intensos. Quando a gente tem falta de pessoal, de equipamento, de recursos para manutenção, isso vai obviamente reduzir essa capacidade de antecipação justamente quando a demanda está aumentando.
É uma questão de segurança e de proteção da população.
Procurado, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou que “tem atuado para expandir e aprimorar” a capacidade do Cemaden, em diálogo com o Ministério do Planejamento e Orçamento.
O Ministério da Gestão e da Inovação informou que os pedidos de vagas e concursos são analisados de acordo com as prioridades e o orçamento.
O Cemaden, por sua vez, disse que a falta de complemento no orçamento de 2026 pode impactar a “manutenção da rede observacional”, com redução de peças e insumos.
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