Tráfico na Lapa usa Fallet-Fogueteiro, em Santa Teresa, para armazenar drogas e dinheiro
O encontro com Piu foi por acaso. Policiais civis da 5ª DP (Mem de Sá) tentavam confirmar o endereço dele no Fallet-Fogueteiro, uma das comunidades de Santa Teresa. Tinham a descrição de um imóvel e o nome da rua. No início de março do ano passado, um dos agentes visitou o local à paisana. Estava de moto e usava óculos equipados com câmera. Para a surpresa dele, ao passar em frente à casa, viu Anderson Venâncio Nobre de Souza no portão. O policial deu meia volta, estacionou próximo e fingiu estar perdido. Prontamente, recebeu dele o direcionamento certo — enquanto gravava, com sucesso, toda a cena.
Ele voltou animado para a delegacia.
— Consegui filmar! Está tudo registrado! — exclamou aos colegas.
Anderson Venâncio Nobre de Souza, o Piu ou Português, dando orientações a policial disfarçado
Reprodução
O material foi adicionado a uma investigação sobre o funcionamento do tráfico na Lapa, um dos bairros de maior frequência turística da cidade. Produzido entre outubro de 2024 e novembro de 2025, o documento detalha a venda de drogas, organizada pelo Comando Vermelho, na Rua Joaquim Silva e na Travessa do Mosqueira. Anderson, ou Piu, é apontado como o chefe da facção no bairro e elo com o Fallet. Na hierarquia local, está abaixo apenas de Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, ligado à cúpula e atualmente escondido na Rocinha, na Zona Sul.
Amigo da cúpula
Os agentes só voltaram ao endereço de Anderson um ano depois, em 17 de março passado, quando realizaram uma operação conjunta com a Polícia Militar e o Ministério Público. O imóvel, no entanto, estava vazio. Além do inquérito policial, a ação foi pautada em procedimento investigatório criminal do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado, do MPRJ, feito paralelamente e com apoio da inteligência do 5º BPM (Gamboa). Os documentos somam quase 700 páginas.
Apesar da fuga de Anderson, os agentes conseguiram prender 12 denunciados por associação ao tráfico na Lapa, de um total de 28 alvos com mandado de prisão em aberto. Entre eles estão gerentes gerais, gerentes de drogas, vapores e responsáveis pela endolação dos entorpecentes.
Além de Piu, Anderson é conhecido por Português — apelidos que aparecem em pichações espalhadas por portões, paredes e muros na Rua Joaquim Silva e na Travessa do Mosqueira. Os traficantes sujeitos a ele integram a “Tropa do Português” e fazem alusão ao chefe por meio das cores da bandeira de Portugal: verde e vermelha. No dia 3 de março, ele completou 44 anos, e fogos de artifício nesses tons foram lançados em homenagem, como mostram vídeos interceptados pela polícia.
Segundo fontes locais, o traficante cresceu entre a Lapa e o Fallet. No passado, herdou um ponto de táxi do pai e, aos poucos, foi se familiarizando com o comércio de drogas, principalmente pela amizade com Abelha, conterrâneo de bairro. A ascensão no tráfico, inclusive, teria acontecido com a prisão do amigo, em 2002: Anderson assumiu os pontos e a logística das vendas na Lapa.
Ele já foi preso cinco vezes, sendo a última em 2021. Ganhou liberdade dois anos depois e, atualmente, devido à investigação do ano passado, tem um mandado de prisão em aberto.
— Ele é “cria” do lugar. Todos os moradores mais antigos conhecem ele, o viram crescer, assim como acontece com o Abelha. Os dois são “velha guarda”. Apesar de terem aí uma diferença de idade de uns dez anos, são amigos de longa data e atuam juntos no tráfico. Na prática, são chefes iguais, mas as decisões do Abelha têm mais peso porque ele é influente na cúpula da facção — explica um PM da área, que prefere não se identificar.
Durante sua gestão, Anderson aproximou a Lapa do Fallet, comunidade usada, como apontam as investigações, para o armazenamento de drogas e dinheiro, assim como para a endolação. Um imóvel, em específico, é citado cinco vezes no inquérito: uma casa na Rua Onze, onde policiais conseguiram fotos e vídeos de traficantes fazendo a separação dos entorpecentes. As imagens também revelam adolescentes manuseando óleo de skank (derivado da maconha com alto teor de tetrahidrocanabinol e que custa, em média, R$ 80 o grama por lá).
Numa conversa captada pelos agentes, os traficantes Wesley Paes Saturnino de Souza, o WL (gerente-geral na Lapa), e Pedro Martins Ramos, o Magrinho (gerente do pó de 10), alvos pendentes da operação de março, afirmam que um menino de 14 anos “gosta” do serviço.
“O moleque gosta, Magrinho!”, diz WL num vídeo gravado em 14 de abril de 2024. Na imagem, o adolescente aparece segurando uma espátula e um pequeno recipiente de silicone, ferramentas usadas para espalhar o óleo. A expressão do rosto dele sugere que foi pego de surpresa com a gravação.
As investigações apontam ainda que a integração das comunidades é feita com permissão do chefe do tráfico no Fallet, Paulo César Baptista de Castro, o Paulinhozinho, também do Comando Vermelho. De acordo com a PM, ele recebe um “aluguel” dos colegas de facção pelo uso do território, que inclui ainda a presença de seguranças nos depósitos. A Civil, no entanto, afirma não ter nada comprovado em relação a essa dinâmica.
Casarões como barricadas
Armazenadas no Fallet, as drogas são levadas para a Lapa por meio de “mulas”, função de transporte no tráfico que, geralmente, é ocupada por mulheres e menores de idade. O relatório afirma que veículos particulares e até de serviço, como táxis e mototáxis, são usados para facilitar o trajeto entre as regiões.
Uma das mulas por lá, segundo a investigação, é Thainá Porto e Silva, a Tata. O documento afirma que ela tem a “função específica de buscar as cargas de drogas já embaladas na comunidade do Fallet”, entregando o material aos gerentes de carga da Lapa — posteriormente, eles distribuem os entorpecentes aos vapores, responsáveis pelo comércio.
Num diálogo de 30 de setembro de 2024, presente no relatório, ela aparece afirmando a Magrinho — o mesmo gerente citado na conversa sobre o adolescente no Fallet — que vai avisar caso uma droga acabe. Ela tinha guardado uma quantidade extra e estava monitorando o que era vendido numa das bocas.
“Até mais tarde, eu vou te falando, pegou a visão? Quando fechar o plantão, eu vou te falar”. No dia seguinte, Magrinho escreveu para ela dizendo que estava na “embala” (aquela casa na Rua Onze, no Fallet), e ela afirmou que iria “brotar” para buscar mais droga.
Quando chegam à Lapa, as drogas são escondidas em casarões abandonados que, no inquérito, são equiparados a bunkers: os traficantes costumam colocar portas de aço na entrada para impedir o ingresso de policiais em operações ou flagrantes. Na Rua Joaquim Silva, os imóveis que funcionariam como bocas de fumo são identificados pelos respectivos números — há quatro deles —, enquanto na Travessa do Mosqueira o comércio é predominante num prédio branco de três andares, na esquina com a Avenida Mem de Sá.
Na última terça-feira, O GLOBO passou em frente a esse local e observou o tráfico acontecendo normalmente, com fila de usuários. Na quinta, agentes da Polinter, da Polícia Civil, fizeram uma ação por lá e apreenderam, entre outras drogas, um grama de fentanil, entorpecente responsável por uma epidemia de mortes por overdose nos Estados Unidos. Três suspeitos de tráfico foram presos em flagrante.
