Tráfico adota novas técnicas de cultivo no 'polígono da maconha', e expansão da produção desafia PF

 

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Sistemas de irrigação, uso intensivo de defensivos agrícolas, maquinário pesado, energia fornecida por placas solares e vigilância 24 horas. Em meio ao clima árido do sertão nordestino, uma plantação com uso de tecnologias tradicionalmente empregadas por fazendas de ponta foi alvo no fim do mês passado de operação da Polícia Federal. O investimento tinha como objetivo o cultivo de uma “maconha gourmet”, versão mais potente da droga, que vem se espalhando pela bacia do Rio São Francisco e desafiando a corporação na tentativa de erradicação da prática criminosa.

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Em Pernambuco, a planta já havia sido colhida e estava pronta para distribuição em larga escala, mas policiais chegaram no dia 20 para erradicar a produção. Foram destruídos 23 mil pés, o equivalente a 37 toneladas.

A nova realidade ocorre no chamado “polígono da maconha”, conhecida por escoar um tipo com alto teor de THC — substância responsável pelo efeito entorpecente —, mas que entrou em declínio nos últimos anos com a entrada da drogas paraguaia, mais barata. Agora, operações policiais apontam que a região teve uma retomada com a droga mais potente, sobretudo às margens dos rios. Diante dessa expansão, a PF passou a atuar com mais intensidade, rasgando o São Francisco em botes infláveis e helicópteros atrás de novas plantações.

Disparada na produção

Somente entre janeiro e abril deste ano, a corporação erradicou 241 toneladas de maconha na região, o que equivale praticamente à metade das 495 destruídas ao longo de todo o ano passado e 82,8% de todo o ano de 2023. Na fazenda interditada no mês passado, por exemplo, havia uma plantação que se estendia por uma área de 27.585 metros quadrados, equivalente a três campos de futebol. O produto seria vendido no próprio Nordeste, além do Norte e Centro-Oeste.

Mais do que o volume, a PF está investigando a mudança do perfil dos plantios. As equipes de inteligência da corporação identificaram a expansão para pelo menos 27 municípios do polígono, com plantio concentrado na Bahia e em Pernambuco, em cidades como Cabrobó, Orocó, Petrolina, Carnaubeira da Penha e Belém de São Francisco.

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Em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), análises indicaram que o teor da nova maconha do polígono pode chegar a ser até seis vezes maior do que o da droga paraguaia ou chilena. A título de comparação, segundo artigos especializados, a “manga rosa”, tradicional do polígono, tem em média 17% de THC, enquanto a paraguaia tem 5%.

Se antes o cultivo no polígono era associado a famílias em situação de vulnerabilidade econômica, hoje há indícios de maior profissionalização. A PF identificou investimentos elevados, com uso de tratores e técnicas de plantio de ponta. O cultivo também deixou de se restringir às ilhotas do rio e avançou para o continente, para áreas do interior que antes eram usadas para agricultura tradicional.

As operações da PF na região têm usado aparato de inteligência. Inicialmente, áreas suspeitas são identificadas por satélite. Em seguida, drones fazem o reconhecimento aéreo detalhado. Só então equipes em solo são enviadas para derrubar as plantações, muitas vezes com apoio de embarcações pelo Rio São Francisco.

Relatos colhidos pela PF indicam o potencial econômico da atividade. Em um dos casos, um plantador afirmou ter vendido uma motocicleta para investir cerca de R$ 16 mil no cultivo, com expectativa de faturar até R$ 300 mil.

Apesar disso, quem concentra os maiores lucros são os intermediários. O preço do quilo da maconha produzida na região, que antes girava em torno de R$ 1 mil, passou para cerca de R$ 3 mil, triplicando os ganhos potenciais.