Torturas, isolamento e desaparecimento: veja o inferno dos ucranianos nas prisões russas

 

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Em outubro de 2022, oito meses após o início da invasão russa, um tenente ucraniano, capturado e preso no país vizinho, morreu no cárcere após ser "surrado sem piedade" e privado de atendimento médico adequado. A denúncia é de Alexei, à época agente dos serviços penitenciários russos. Seu nome real foi preservado por segurança. Os carcereiros, diz, reclamavam que o tenente falava demais. Deram-lhe o apelido de "tagarela", pois "discutia sem parar". Morreu por espancamento.

— Ele tinha lesões extensas, hematomas nas nádegas e na parte posterior das coxas que infeccionaram — descreve Alexei.

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O russo, que trabalhava na unidade médica da prisão, acrescenta ser possível que o corpo do ucraniano, tomado pela gangrena, tenha sido enterrado sem qualquer identificação.

Uma dezena de testemunhos colhidos pela AFP dão conta de que milhares de soldados e civis ucranianos foram ou estão sendo submetidos a violência física e psicológica em centros de detenção na Rússia e na Ucrânia ocupada. Eles se juntam a relatórios de diversas ONGs e da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE).

Yaroslav Rumyantsev, ex-soldado ucraniano, mostra uma foto dele tirada quando estava sob poder dos russos

Genya SAVILOV / AFP

De acordo com autoridades ucranianas citadas em um relatório da OSCE, 89% dos capturados depois libertados afirmam ter sofrido maus-tratos em cativeiro, incluindo violências sexuais em 42% dos casos.

Três ex-funcionários da administração penitenciária russa, que desertaram e fugiram do país, confirmaram essas violências. Aos captores, "tudo era permitido", afirmam. Por razões de segurança, suas identidades também não são reveladas na reportagem.

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A maioria dos prisioneiros ficou sem qualquer comunicação com o mundo exterior, em um paralelo ao que ocorria nos Gulags, os campos de trabalho forçado da União Soviética, ativos principalmente entre os anos 1930 e 1950. Eles funcionavam para Moscou como repressão política e exploração econômica, com prisioneiros submetidos a condições extremas para realizar obras de infraestrutura no pa.

— Eles conseguem fazer você acreditar que ninguém está esperando por você aqui fora — conta Iaroslav Rumiantsev, de 30 anos, um ex-soldado ucraniano que sobreviveu a três anos e três meses de cativeiro.

Consultada pela AFP, a administração penitenciária russa não respondeu. No ano passado, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que as narrtativas são falsas e que Moscou trata seus prisioneiros "com humanidade".

Permissão sem restrições

O russo Vladimir Osechkin, de 44 anos, vive na França sob proteção policial. Ele afirma que os detidos ucranianos padecem com os abusos do poderoso Serviço de Segurança Nacional (FSB, na sigla em russo) e, em nível mais local, pela administração penitenciária, com total cumplicidade dos órgãos judiciais.

Os abusos e agressões durante as detenções denunciados incialmente a partir de 2014, com a guerra entre Kiev e os separatistas ucranianos de origem russa apoiados por Moscou, multiplicaram-se com a invasão russa à Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022. Nos últimos quatro anos, a Justiça ucraniana confirmou a morte de pelo menos 143 prisioneiros dentro das celas russas, entre eles seis civis.

Prisioneiro de guerra ucraniano é libertado pelas forças russas após troca de combatentes capturados

Roman PILIPEY / AFP

Em fevereiro deste ano, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que Kiev estimava em 7 mil o número de prisioneiros de guerra em mãos russas. Além deles, há exatos 15.378 civis "detidos ilegalmente" por Moscou, segundo dados oficiais do Departamento Ucraniano de Direitos Humanos enviados em março à AFP.

Sergei era funcionário das Forças Especiais da Administração Penitenciária russa. Já no primeiro dia da invasão russa, seu chefe imediato propôs à sua unidade realizar "missões em prisões nas aldeias e cidades ocupadas onde havia detidos ucranianos".

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— Antes mesmo da primeira missão, ele reuniu o pessoal e explicou que as normas em vigor não se aplicariam mais aos prisioneiros de guerra. Em outras palavras, deu permissão para se usar força física sem restrições. E frisou que ninguém seria responsabilizado — contou Sergei. — Na prática, nos disse: 'Trabalhem firme e não temam nada'.

Contrário à invasão da Ucrânia, Sergei conta que se recusou a participar dos atos violentos contra os detidos. Pediu demissão em 2022 e conseguiu deixar a Rússia.

— Não teria conseguido viver com esse peso. E nem olhar nos olhos dos meus filhos — acrescentou.

Muitos de seus colegas, no entanto, conta, ficavam "contentes" de poder usar "toda a violência que quisessem" e iam às missões "com alegria".

De acorco com a Justiça ucraniana, a presença de prisioneiros oriundos do país foi constatada em pelo menos 201 centros de detenção em 49 regiões diferentes da Rússia, incluindo o Extremo Oriente do país [que inclui a Sibéria], além de 116 locais de encarceramento na Ucrânia ocupada.

Baratas e ratos crus

Rumiantsev, militar de infantaria de Marinha ucraniana, foi feito prisioneiro em Mariupol em maio de 2022, após se render, juntamente com as tropas de Kiev entrincheiradas na usina de Azovstal, em Mariupol. Passou por quatro prisões russas antes de finalmente ser libertado em 2025.

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Em julho de 2022, quando estava detido em Olenivka, na região do Donetsk, uma explosão, conta, causou a morte de pelo menos 50 prisioneiros ucranianos e deixou dezenas de feridos. Em seguida, ele foi transferido para o centro de detenção nº 2 de Taganrog, no sudoeste da Rússia, que, conta, é um dos piores centros de tortura do país.

Militares prestam homenagem a prisioneiro de guerra ucraniano que morreu sob custódia russa

Dimitar DILKOFF / AFP

À sua chegada, conta que atravessou correndo, junto com cerca de 250 prisioneiros, um corredor formado por guardas que os espancavam. Era o "comitê de boas-vindas", descrito também por outros ucranianos. A prática foi utilizada anteriormente nos "campos de filtragem" na Chechênia durante a última guerra contra a Rna república do Cáucaso.

As agressões continuaram. Rumiantsev descreve detidos reduzidos "a um estado de animais aterrorizados".

Para resistir, ele e outros prisioneiros se agarravam à sua identidade e ao passado, repetindo a si mesmos: "Sou um ser humano e tenho valor".

A comida também é usada como instrumento de punição. Rumiantsev afirma que, em certos momentos, tinha apenas "dois minutos" para se alimentar, como um animal, sob ameaça de espancamento.

Em setembro do ano passado, o Escritório de Instituições Democráticas e Direitos Humanos (ODIHR) da OSCE publicou um relatório a partir de testemunhos de cerca de 200 ex-prisioneiros ucranianos. O documento revela métodos de tortura que incluem choques elétricos — inclusive nos genitais —, ataques com cães, estupros, simulacros de execução — incluindo falsos enforcamentos —, exercícios físicos extremos e a obrigação de permanecerem em posições que causam dor física.

Prisioneiros de guerra ucranianos chegam a base após troca com a Rússia

Genya SAVILOV / AFP

Em uma investigação publicada também no fim do ano passado, um ex-prisioneiro declarou à Human Rights Watch ter se alimentado de baratas de sua cela para derrotar a fome. Outros contam terem comido ratos crus.

Também há regras de submissão, que incluem a proibição de olhar os guardas nos olhos. Rumiantsev é assombrado por uma punição específica: permanecer de pé durante 16 horas seguidas sem permissão para ir ao banheiro, ao ponto em que alguns detidos urinavam em si mesmos. Ele também menciona "experimentos", como quando os guardas os fizeram dar as mãos e aplicaram choques elétricos para observar "quantos presos sentiam dor".

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O ex-agente penitenciário russo Vitali conta que presos comuns também sofriam violência, utilizadas para obter falsas confissões em investigações judiciais e coletar informações militares ou recrutar colaboradores sob coerção.

Marcado na carne

Em 2023, Alexei era membro de uma unidade médica em uma prisão russa. Na época, relatou sua vida cotidiana ao diretor da ONG Gulagu.net, Osechkin, durante conversas de várias horas às quais a AFP teve acesso.

Alexei explica como, em sua prisão, os prisioneiros ucranianos eram espancados com tubos de aquecimento de polipropileno, que "não se quebram". Após essas surras, os detidos recebiam cuidados superficiais, mas, a cada visita à enfermaria, eram obrigados a repetir: "Obrigado à Federação Russa por esses cuidados." Em certas ocasiões, segundo ele, as equipes médicas participavam diretamente das agressões.

Segundo investigação da Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade, financiada pelo governo americano, médicos russos gravaram as palavras "Glória à Rússia" no abdômen de um prisioneiro ucraniano, Andrii Pereverziev, durante cirurgia realizada na prisão. Após sua libertação, no ano passado, ele teve de se submeter a outra operação para remover o lema marcado em sua carne.

Para o ex-soldado Rumiantsev, "a lógica" por trás dos abusos é submeter e traumatizar os militares para que não voltem a se opor a Moscou. Assim como outros detentos, ele era obrigado a cantar músicas soviéticas na prisão. Se não cantasse "alto ou afinado o suficiente", recebia um "castigo".

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Em 2024, ele foi transferido para uma colônia penitenciária "menos severa", na região russa de Udmurtia, na parte européia do país. Os guardas continuavam a espancá-lo, mas com menos violência — de qualquer forma, ele já havia se "acostumado" a ter "o corpo destroçado entre gritos".

Ele também conta ter encontrado carcereiros mais humanos, que demonstravam "pesar" e afirmavam que, um dia, "a Rússia pedirá desculpas [a vocês]".

Invisíveis

Segundo Osechkin, um grande número de prisioneiros ucranianos se torna "invisíveis". O ativista documentou casos em que seus nomes foram alterados para impedir a identificação, especialmente enquanto mantidos em isolamento total.

Alexei, o ex-membro de unidade médica penitenciária russa, observou que uma prisão inteira havia sido "esvaziada" e destinada exclusivamente a ucranianos submetidos a agressões e abusos graves, sem possibilidade de testemunhas.

Também foram adotadas práticas para ocultar a identidade dos autores das torturas, que na maioria das vezes atuavam encapuçados. Sergei, o ex-membro das forças especiais penitenciárias russas, explica que durante o "trabalho" com os prisioneiros de guerra ucranianos, os integrantes de sua unidade não usavam câmeras corporais nem números de identificação nos uniformes.

— Não havia relatório sobre o uso de força física. Agiam como queriam, dando vazão às suas inclinações sádicas — afirmou Sergei.

O filho de Natalia Kravtsova, Artem, combatente da brigada nacionalista Azov, foi capturado em Mariupol em maio de 2022. Um ano depois, essa mulher de 52 anos recebeu a confirmação da Cruz Vermelha de que ele estava encarcerado, sem mais informações. Desde então, não soube mais nada. Sequer tem certeza de que Artem, de 33 anos, esteja vivo. A cada anúncio de troca de prisioneiros, Kravtsova sente uma esperança que logo se frustra.

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— Embora por fora eu pareça tranquila, por dentro estou em chamas — desabafa.

Quando se consegue localizar um detido, às vezes é possível utilizar plataformas on-line da administração penitenciária russa para escrever a eles — o que, porém, exige um número de telefone russo. Uma ativista russa, que falou com a AFP sob condição de anonimato, explica que usa seu próprio número para permitir que cerca de dez ucranianos escrevam a seus familiares.

Natalia Kravtsova, mãe de um soldado ucraniano capturado pelos russos, olha as fotos de sue filhop em um celular

Tetiana DZHAFAROVA / AFP

O ex-soldado Rumiantsev recebeu uma única carta pouco antes do fim de seu cativeiro. Diz que foi o único momento em que chorou na prisão.

— Vi aquelas primeiras palavras dirigidas a mim de forma tão calorosa. Só minha família me fala assim. Meus olhos se encheram de lágrima e eu tremi. Então meu amigo pôs a mão no meu ombro e disse: "Isso significa que você ainda é um ser humano" — afirmou.

Aksinia Bobruiko, ucraniana de 39 anos refugiada na Alemanha, luta para obter notícias de sua mãe, Olga Baranevska. Em 15 de maio de 2024, Baranevska, de 62 anos, civil, vivia em Melitopol, na Ucrânia ocupada, quando desapareceu. Dois meses depois, a filha soube por amigos da região que ela estava presa.

Bobruiko explicou à AFP que sua mãe era professora antes da invasão de 2022 e que se recusou a colaborar com as novas autoridades russas "por razões ideológicas". Em novembro de 2024, Olga, que sofre graves problemas de saúde, foi condenada a seis anos de prisão por suposta posse de "explosivos". Graças a um contato na zona ocupada, Bobruiko conseguiu receber provas de vida da mãe, embora sem informações detalhadas.

Para conter esse terrível "sistema de tortura e submissão", o ativista Osechkin demanda processos judiciais internacionais legítimos contra os responsáveis. E a revelação de suas identidades.

— Vamos encontrá-los. E todos serão responsabilizados — crê Sergei.