Todo mundo odeia o Lula?

 

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Quem viu Todo Mundo Odeia o Chris lembra de um personagem cercado de pressão por todos os lados. Em casa, na escola, na rua, parecia sempre haver alguém pronto para implicar com ele. Lula chega a 2026 com algo parecido. Olhando de Brasília, do Congresso e do mercado, a impressão é de um presidente sitiado. Só que a política brasileira tem um vício antigo: confundir o condomínio político com a rua. E a rua, quase nunca, pensa igual ao plenário.

Desde 1989, a eleição presidencial brasileira quase sempre ofereceu ao eleitor ao menos uma prateleira competitiva de centro ou centro-direita. Em 2026 podemos ter algo diferente: um único nome competitivo à esquerda e nenhuma candidatura centrista com peso nacional. Isso não significa o fim do centro, o desejo de moderação continua existindo, mas a oferta eleitoral desse espaço encolheu. E, quando a prateleira esvazia, o consumidor leva o produto disponível que pareça menos arriscado.

O povo não organiza a vida pela lógica das guerras de gabinete. A régua da maioria é outra: o que pesa é comida, transporte, medo de assalto, dinheiro que acaba antes do fim do mês, tempo que falta para viver. O que tenho observado em nossas pesquisas é que a imagem dominante é a do cobertor curto.

Daí o eco que algumas pautas associadas ao lulismo encontram quando saem do palanque e entram na cozinha. Taxar super-ricos não soa como tese acadêmica para quem passa o mês espremido; soa como um pedido de justiça. Isentar Imposto de Renda para uma faixa relevante de trabalhadores é entendido como alívio. O fim da escala 6x1 conversa com algo que a classe C já entendeu: tempo virou moeda. E o Pé-de-Meia é reconhecido como uma das poucas novidades do terceiro mandato porque dialoga com uma angústia concreta de famílias que não querem ver o filho trocar estudo por bicos. Lula está mais isolado no sistema político, mas não necessariamente desalojado do imaginário popular. E é justamente aí que mora sua chance de avançar: reforçar aquilo que o eleitor já reconhece.

O adversário eleitoral de Lula não é o conservadorismo. O mesmo Brasil que é mais conservador nos costumes é bastante progressista na economia e na visão sobre o Estado. Defende família e ordem, mas também quer serviços públicos funcionando, oportunidade de aumentar a renda e algum amparo diante do desamparo do mercado. O conflito real, não é entre povo conservador e governo progressista. Muitas vezes é entre um eleitor socialmente tradicional e pautas econômicas que pedem menos Estado justamente para quem mais precisa dele.

É raso acreditar que o Brasil virou um país integralmente capturado pela polarização. Não virou. Nossos estudos mostram um país muito mais poroso, hesitante e contraditório do que o debate público admite. Há decisão tardia de voto, volatilidade alta e distância considerável entre o que as redes berram e o que a maioria realmente pensa. A polarização existe, claro. Mas uma parte dela é algorítmica, inflada pelos mais barulhentos, como se o feed fosse o país. Não é. O Brasil real é menos militante e muito mais pragmático.

No fim das contas, a pergunta não é se todo mundo odeia Lula. A pergunta é outra: por que um presidente que conversa com demandas reais da classe C parece tão sozinho no tabuleiro? A dificuldade está menos na falta de aderência de suas pautas e mais em transformá-las em narrativas fortes. Em 2024 o eleitor premiou quem parecia tapar o buraco da rua. No fim, ninguém vota para entrar numa guerra cultural. Vota para tentar dormir sem medo e acordar com alguma perspectiva.