Toda mulher

 

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Toda mulher carrega segredos. Segredos escondidos, muitas vezes divididos com outras mulheres. Toda mulher carrega uma dor que se esforça para esconder pra viver melhor. Toda mulher aprende desde cedo que o mundo tem opinião sobre o corpo dela antes mesmo dela se reconhecer nele. Toda mulher já se comparou, já se culpou. Toda mulher se sente devedora.

Toda mulher pesa os ombros pra dar leveza pros outros. Porque mulher foi criada pra cuidar. Cuidar dos filhos, da casa, dos pais, dos animais. É ela que dá o remédio, que desce com o cachorro, que organiza a agenda, o uniforme, lembra do filtro solar atrás da orelha porque todo mundo esquece, ouve, acolhe, ameniza, pensa na frente, relembra pra trás.

Toda mulher já se esforçou o dobro para receber o mínimo. Fez mestrado, doutorado, pós-doc e recebeu menos que todos os homens no mesmo cargo. Toda mulher já ganhou “parabéns” quando na verdade merecia era um aumento mesmo.

Toda mulher conhece a sensação de encarar uma rua vazia à noite. Sente no corpo a cada mulher violentada. Toda mulher tem medo das filhas pelas ruas. Toda mulher conhece a sensação de ser livre e ainda assim ser julgada. Toda mulher já teve medo de falar. E também já teve medo de ser julgada por não falar. Porque se fala firme, vira grossa. Se fala doce dizem que não tem liderança. Então toda mulher alguma hora se cala.

Mas quase toda mulher também sabe a alegria de ter alguém dentro de você. E esse filho se alimentar de você. Toda mulher já chorou com uma música bonita dirigindo, passou um batom vermelho e dançou rebolando, já sentiu o vento batendo no cabelo, teve empatia de graça, gargalhou com outra mulher. Cuidou do outro sem esperar nada em troca.

E apesar disso, toda mulher uma hora sempre se sente culpada por faltar: na reunião da escola, na visita, na brincadeira com os filhos, na reunião de amigos, no sexo, no autocuidado. Toda mulher sempre acha que poderia ter feito melhor. E quando tudo isso pesa e ela se descontrola, quando o cansaço toma conta e ela reage, quando ela larga tudo e parte, quando ela chora e deprime, quando ela grita e perde a linha, é chamada de louca, descontrolada, deprimida, problemática, histérica. Porque ser mulher é sempre ser acompanhada por um adjetivo. Ela é uma boa mãe. Uma péssima esposa. Uma filha ausente. Uma irmã ingrata. Uma amiga falsa. Aquela gostosa, piranha, feia, velha, novinha, vagabunda, mulher boa pra casar.

Mulher deveria ser só mulher. Porque ser mulher é o suficiente pra uma vida toda. E não existe mundo sem a gente. Feliz Dia Internacional da Mulher.