Título de 100 anos da Alphabet, dona do Google, atrai demanda dez vezes maior que a esperada

 

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A Alphabet recebeu pedidos equivalentes a quase dez vezes o valor de uma venda de £1 bilhão (US$ 1,4 bilhão ou R$ 9,9 bilhões) de um raríssimo título com vencimento em 100 anos, uma transação histórica na corrida, financiada por dívida, pela supremacia em inteligência artificial (IA).

A controladora do Google atraiu £ 9,5 bilhões (R$ 67,4 bilhões) em ofertas para o título centenário, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, que pediram anonimato.

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O título de 100 anos faz parte de uma ofensiva mais ampla de financiamento da Alphabet, que captou recursos em dólares americanos na segunda-feira.

Além do título de 100 anos, a dona do Google está vendendo em paralelo mais de US$ 11 bilhões em títulos denominados em libras esterlinas e francos suíços. A oferta em libras deve atingir um valor recorde de £ 5,5 bilhões (US$ 7,5 bilhões) e inclui prazos de três a 32 anos. Segundo afirmaram as fontes, a Alphabet atraiu um volume recorde de £ 30 bilhões em pedidos para a operação.

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A oferta em francos suíços será de, no mínimo, 2,75 bilhões de francos suíços (US$ 3,6 bilhões), distribuídos em diversos vencimentos. Ambas as operações devem ser precificadas ainda hoje e ocorrem após uma venda de dívida em dólares, dividida em sete tranches, que levantou US$ 20 bilhões na segunda-feira e registrou uma das maiores demandas já vistas para uma emissão de títulos corporativos.

Essa mega-ofensiva de endividamento ocorre depois que a Alphabet afirmou que seus investimentos de capital podem chegar a até US$ 185 bilhões neste ano — o dobro do que gastou no ano passado — para financiar suas ambições em inteligência artificial.

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A gigante de software Oracle também levantou recentemente US$ 25 bilhões para financiar seus planos em IA, atraindo US$ 129 bilhões em demanda. Outras empresas de tecnologia, incluindo Meta e Microsoft, anunciaram planos de gastos vultosos para 2026, enquanto o Morgan Stanley espera que o endividamento das grandes companhias de computação em nuvem, conhecidas como hyperscalers, chegue a US$ 400 bilhões neste ano, acima dos US$ 165 bilhões em 2025.

— Os hyperscalers continuarão vindo em grande escala —disse Andrea Seminara, diretor-executivo da Redhedge Asset Management LLP, um fundo de hedge com sede em Londres.— Eles precisam emitir mais, então estão testando todos os canais disponíveis, todo o apetite do mercado. E será assim para todos — acrescentou, referindo-se a outros hyperscalers.

As enormes necessidades de captação das grandes empresas de tecnologia começaram a levantar algumas preocupações sobre uma possível pressão nas avaliações dos títulos. Esses papéis já estão caros pelos padrões históricos.

Alguns investidores também se mostram preocupados com a longevidade do estouro da inteligência artificial — e com seus efeitos disruptivos sobre empresas relacionadas, como as do setor de Software as a Service (SaaS).

Feito raro

O título de 100 anos deve ser o primeiro, com um prazo tão extremo, a ser emitido por uma empresa de tecnologia desde a era da bolha das empresas pontocom. Sua inclusão no programa de emissão de dívida da companhia mostra até onde os gigantes de tecnologia terão de ir para levantar as enormes quantias de dinheiro necessárias para financiar seus investimentos em capacidades de inteligência artificial.

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Trata-se de um feito raro para um emissor corporativo, já que 100 anos é um período muito longo para que qualquer modelo de negócios, balanço patrimonial ou estrutura empresarial sobreviva. Por isso, governos e instituições como universidades — algumas das quais existem há centenas de anos — são os principais emissores desse tipo de título.

— É bastante difícil prever como será o ecossistema de IA daqui a cinco anos — quanto mais daqui a cem anos — disse Song Jin Lee, estrategista de crédito para Europa e Estados Unidos do HSBC Bank. — O setor como um todo continuará existindo. Mas a hierarquia relativa entre as empresas é bastante imprevisível— afirmou, reconhecendo que há investidores com passivos de longo prazo que precisam casar essas obrigações com títulos como este.

As coisas evoluíram rapidamente desde que a Google foi fundada, há cerca de 28 anos. Os cofundadores Larry Page e Sergey Brin iniciaram oficialmente a empresa de mecanismo de busca após receberem um investimento de US$ 100 mil em 1998. Em seus primeiros anos, a startup operava a partir de uma garagem em Menlo Park, nos subúrbios da Califórnia, utilizando computadores de mesa.

A duração extrema tem um grande impacto na matemática dos títulos. Há um exemplo concreto do que um prazo tão longo pode provocar no preço de um papel. Um título de 100 anos emitido pela Áustria em 2020, com cupom inferior a 1% — reflexo das baixas taxas de juros da época —, é atualmente cotado abaixo de 30% do valor de face, com base em dados compilados pela Bloomberg.

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