Tiros, cueca e beija-mão: três histórias do poder no Brasil

 

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O deputado Barreto Pinto era daqueles que fazia de tudo para aparecer. Inexpressivo politicamente, somente entrou para a Câmara Federal na esteira da grande votação de Getúlio Vargas. Não tinha vergonha disso. Na tribuna do Palácio Tiradentes, improvisava com gestos teatrais, valorizando olhos e bocas. Quem via de longe, sugeria um ator fracassado. Não se importava com isso. Quando sentia que a imprensa não estava dando bola, lançava uma polêmica. O negócio era estender os cinco minutos de atenção.

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Pensando na audiência e na falta de limites do político nascido em Vassouras, região hoje conhecida como Vale do Café, os repórteres da revista “O Cruzeiro” David Nasser e Jean Manzon foram entrevistar o rapaz sobre suas ideias e realizações (tsc). Na sessão de fotos, a dupla de jornalistas indicou que só seria registrado a parte superior do corpo do parlamentar, que, de forma caseira e inusitada, estava vestindo fraque, gravata borboleta, camisa de punho fechado, sapatos elegantes… e um cuecão. Estava sem calças. Exibicionista, fez poses e mais poses, tal qual um imperador romano.

Quando a reportagem saiu, logo de cara duas provocações: o título “Feliz como um Peru” vinha acompanhado das fotos de corpo inteiro. A imagem de um deputado em traje oficial combinado com roupa íntima virou motivo de chacota nacional. A repercussão chegou ao Congresso. Considerado um comportamento incompatível com a dignidade do cargo, o episódio levou à abertura de processo disciplinar. Em 1949, Barreto Pinto foi cassado pela Câmara dos Deputados. Motivo: quebra do decoro parlamentar. Foi o primeiro da nossa história. Acusando os repórteres, Barreto Pinto até tentou se defender, mas foi em vão.

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Bang bang no Tiradentes

Você acha que já viu discussão política. Um dia após o natal de 1929, o deputado federal Manuel Francisco de Souza Filho, representante de Pernambuco, discutia com o deputado Idelfonso Simões Lopes, do Rio Grande do Sul. Os dois estavam em lados opostos da política nacional: Souza Filho defendia o governo e a manutenção do poder, enquanto Simões Lopes atuava na oposição e criticava a condução do Congresso.

A discussão teria começado na escadaria do palácio e seguiu para dentro da Câmara, diante de diversas testemunhas. Na época, a maioria parlamentar era favorável ao governo, e parlamentares da oposição reclamavam de falta de espaço e boicote às suas posições, o que ajudava a aumentar o clima de tensão.

Segundo relatos, o bate-boca evoluiu para agressões físicas, com troca de empurrões. Durante a confusão, o filho de Idelfonso Simões Lopes teria tentado intervir. Em meio ao tumulto, Souza Filho sacou um punhal. Simões Lopes reagiu puxando um revólver e disparou dois tiros contra o deputado pernambucano, que morreu.

O caso foi levado à Justiça, mas em 1930 tanto Idelfonso Simões Lopes quanto seu filho foram absolvidos.

O episódio ocorreu poucos meses antes de uma das maiores mudanças políticas da história do país. Ainda em 1930, a Revolução liderada por Getúlio Vargas derrubaria o governo e levaria ao poder justamente o grupo político que fazia oposição no Congresso — o mesmo campo que Simões Lopes defendia.

Por falar em poder

Vamos para a época do Brasil Colônia. Uma fila enorme em frente ao Paço Imperial indicava que o dia era diferente. Em uma sala específica, o então príncipe-regente João, que viria a ser Dom João VI, esperava os súditos para o famoso beija-mão. Isto significava que as pessoas iam até aquele cantinho dar umas bitocas na mão do poderoso e dar presentes em troca de pedidos e favores.

Foi numa dessas oportunidades que o traficante de pessoas escravizadas Elias Antônio ofertou a imponente Quinta da Boa Vista ao monarca, que evidentemente aceitou de bom grado. Era a mais rica construção da cidade. Sem pouso no Rio de Janeiro, João se mudou com mala e cuia para a Quinta. Em troca, Elias recebeu condecorações e mais condecorações, além de conseguir contatos mais estreitos com a Corte.

E hoje?

De uma maneira diferente, a prática do beija-mão continua vivíssima na política. Só não sei se as autoridades atuais seguem a mesma cartilha do antigo rei: Dom João odiava tomar banho.

Hoje em dia, Souza Filho não morreria. Não naquele dia, ao menos. Onde já se viu deputado federal trabalhar um dia após o Natal na Câmara? Brasília fica vazia.

Barreto Pinto se daria bem em 2026. Provavelmente seria tiktoker. Corro o risco em apostar que, se levantarmos a árvore genealógica, tem um bocado de Barretinhos Pinto por aí. Se antes era piada, hoje é aplauso. Esse é o nível.