Tina Correia lança segundo romance, 'Fidiguido', valorizando a oralidade do folclore e dos cordéis

Tina Correia lança segundo romance, 'Fidiguido', valorizando a oralidade do folclore e dos cordéis - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Nos anos 1950, uma tia fofoqueira da jornalista Tina Correia foi mexer, de madrugada, no lixo de um vizinho para saber se ele usava “camisa de Vênus”. Na época, camisinha era “coisa de prostituta”, e a senhorinha não economizou esforço para medir o decoro da família que morava ao lado. A sobrinha nunca soube se a mexeriqueira encontrou o que procurava, mas usou este e outros “causos” para rechear seu segundo livro, “Fidiguido”. A partir de histórias vividas e, principalmente, ouvidas em Aracaju durante a infância e a juventude, Tina tece a teia de relações dos moradores de uma pequena cidade do Nordeste, mobilizada pelo sumiço do menino do pé torto. O pai dele é Guido, o marinheiro mais famoso daquele litoral e um personagens centrais da ficção de Tina, marcada pela oralidade do folclore, da poesia dos cordéis e da música popular regional. O próprio nome do livro é um sinal disso: “Fidiguido” é a corruptela para “filho de Guido”. — O título veio de um sobrinho, que me falou essa palavra uma vez. Fiquei encantada com a sonoridade e com o estranhamento que causa em quem não está acostumado — diz Tina, que lança a obra na Livraria Travessa do Shopping Leblon amanhã, a partir das 19h. —Vivi neste ambiente cercado pela oralidade. Era muito comum, para minha família, cantar, ouvir rádio, contar histórias. Tina mudou-se de Aracaju para o Rio em 1973, para cursar um mestrado em Letras e relembra ter precisado “ajustar a linguagem” na cidade grande. Por isso, quis manter frescas na memória todas as expressões do cotidiano de sua família e vizinhos, grande inspiração inclusive de seu primeiro romance, “Essa menina: de Paris a Paripiranga”, lançado há exatos dez anos. — No primeiro livro, jorraram muitas histórias da memória. Todas sempre com inspiração na família e na cidade pequena. Escrevi muita coisa e tive que reduzir para que o romance tivesse lógica. Separei alguns personagens, deixei encostado e retomei agora — diz ela, que retoma “uns quaro ou cinco” das páginas de estreia e já está rascunha histórias para um terceiro romance. —

Gabo e Graciliano Sétima filha de uma prole de 11 mulheres e dois homens (“minha mãe também tinha vergonha de camisinha”, brinca), Tina começou a escrever com paixão, em tudo quanto é canto, tão logo foi alfabetizada. Lembra-se nitidamente da primeira frase, rabiscada na parede branca da casa recém-pintada, numa forma de agradecer ao pai por um maiô que ele havia costurado para ela. —Minha mãe fazia os vestidos e ele, as roupas de banho. Fiquei tão feliz com um modelo novo que resolvi escrever “obrigada, meu pai, nunca pensei que vós fosses tão bom”. Usei o “vós” porque a professora ensinou que era o pronome para pessoas importantes, autoridades (risos) — conta Tina. — Quando viu, ele riu tanto que nem me castigou. Da parede aos livros, foi um pulo. Apaixonou-se por Gabriel García Márquez (1927-2014), de onde tira a inspiração para o realismo mágico de suas obras, e por Graciliano Ramos, que homenageia em “Essa menina” e em “Fidiguido”, com o personagem do soldado Cambito, que aparece nas duas obras e é inspirado no soldado Amarelo, de “Vidas secas”, obra-prima do romancista alagoano (1892-1953). — Eles continuam sempre sendo minhas referências.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo