'Times Square' paulistana: veja onde e como serão os telões de LED no Centro de SP

 

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O cruzamento das avenidas São João e Ipiranga, um dos mais simbólicos da capital paulista, vai passar por uma transformação a partir de setembro. Quatro painéis gigantes de LED vão iluminar as fachadas de edifícios históricos do Centro, enquanto calçadas serão requalificadas, monumentos restaurados e a rua, fechada para carros nos fins de semana. O polêmico projeto, batizado de Boulevard São João, é uma iniciativa privada com investimento total de R$ 42 milhões e aval da Prefeitura de São Paulo.

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Para entender o que o boulevard pretende transformar, é preciso entender o que esse trecho já foi. O cruzamento da São João com a Ipiranga não é apenas uma esquina movimentada, é um endereço com peso simbólico na história da cidade. Durante boa parte do século XX, aquela região concentrava o que havia de mais vibrante na vida urbana paulistana: cinemas, teatros, bares, livrarias, redações de jornais e uma circulação intensa de trabalhadores, artistas e intelectuais.

A decadência veio gradualmente, acelerada nas décadas de 1980 e 1990 com a expansão da cidade em direção aos bairros nobres da zona sul e oeste, o esvaziamento comercial do Centro e o crescimento da cracolândia na região da Luz, a poucos quarteirões dali. Cinemas fecharam, edifícios foram abandonados, e o cruzamento que já reuniu o melhor da cidade passou a ser associado à degradação urbana.

Dono do Bar Brahma, na Avenida São João, é um dos idealizadores do projeto

Reprodução/Redes sociais

Quem passa pelo cruzamento da São João com a Ipiranga hoje encontra um espaço marcado pela contradição típica do Centro paulistano: de um lado, a arquitetura imponente de edifícios do século XX e o movimento intenso de pedestres; do outro, calçadas deterioradas e monumentos sem manutenção. O fluxo de pessoas é grande, já que o Centro ainda concentra terminais de ônibus, estações de metrô e uma densidade de comércio popular que atrai milhares de trabalhadores por dia, mas a permanência é pequena.

Nos últimos anos, iniciativas pontuais tentaram reverter esse quadro. O programa Ruas Abertas, que fecha a Avenida Paulista aos domingos, inspirou experimentos semelhantes no Centro. O próprio Bar Brahma, que está à frente do projeto da “Times Square paulistana”, passou por reformas e voltou a funcionar na região.

O que vai mudar

A intervenção prevê a instalação de painéis de LED em quatro pontos do eixo São João-Ipiranga. O maior deles, no Edifício New York, terá 1.000 m² de área, cerca de 40 metros de largura por 25 de altura, ocupando praticamente toda a fachada do prédio. O Edifício Herculano de Almeida receberá um painel de 300 m², enquanto o endereço da Avenida Ipiranga 882 e o Cine Paris República terão telas de 400 m² cada.

O Edifício Independência II, onde funciona o Bar Brahma, é tombado pelo patrimônio histórico e não pode receber estrutura metálica na fachada. Por isso, no lugar do telão fixo, receberá projeções mapeadas diretamente na edificação.

Boulevard São João

Editoria de Arte/O Globo

Nos telões, 70% do tempo de exibição será dedicado a conteúdo não publicitário: agenda de teatros, campanhas de saúde pública, conteúdos da prefeitura e governo do estado, educativos e interativos. Os outros 30% poderão ser comercializados como publicidade, limitada a identificações institucionais de marcas.

Além dos painéis, o projeto prevê um redesenho do uso do espaço público. Aos fins de semana, a São João será fechada para veículos entre as 18h de sábado e as 23h de domingo. Quatro palcos serão montados ao longo do corredor para apresentações musicais, e o eixo contará ainda com feiras de gastronomia e artesanato, espaço pet e área reservada para artistas independentes de rua, nos mesmos moldes da Paulista Aberta. A praça em frente ao bar será requalificada e rebatizada de Espaço Cauby Peixoto, em homenagem ao cantor paulistano que marcou gerações.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, a programação cultural é um dos pilares centrais do projeto e um dos aspectos mais detalhados no acordo firmado entre a Fábrica de Bares — dona do Bar Brahma — e a Prefeitura. A estimativa é de cerca de 29 horas de atividades por fim de semana, distribuídas entre os quatro palcos fixos instalados ao longo do corredor.

A curadoria das atrações será compartilhada através de um comitê formado por representantes da Fábrica de Bares, da Prefeitura e do governo do estado, responsável por aprovar tanto o conteúdo exibido nos telões quanto a grade de shows e eventos presenciais. Em teoria, essa estrutura tripartite tem como objetivo garantir que a programação não seja ditada apenas pelos interesses comerciais do consórcio privado, mas também atenda a critérios culturais e de interesse público.

Painéis de LED que serão instalados no Boulevard São João

Divulgação

Para a seleção dos artistas, a Fábrica de Bares promete utilizar o banco de dados do aplicativo Eshows, plataforma para contratação de músicos, que reúne cerca de 5.000 bandas e artistas cadastrados. A ideia é priorizar artistas de pequeno e médio porte, criando uma vitrine para talentos locais e para artistas de rua independentes, que também poderão se apresentar livremente no trecho, sem necessidade de credenciamento.

O projeto também prevê a participação de corpos artísticos públicos, como o balé e a orquestra juvenil do Theatro Municipal, além de atrações indicadas pelas secretarias municipais e estaduais de Cultura. O calendário de eventos deve seguir os temas mensais da cidade: março terá programação voltada às mulheres, maio às mães, junho e julho serão dominados pelas festas juninas, novembro celebrará a cultura negra e dezembro será tomado pelo Natal.

A inspiração declarada para as feiras e o uso do espaço físico é a tradicional Feira de San Telmo, em Buenos Aires, um modelo de ocupação cultural de rua que combina gastronomia, artesanato e entretenimento ao vivo.

Os monumentos que serão restaurados

Como contrapartida pela autorização para explorar publicidade nos telões, a Fábrica de Bares deverá investir R$ 8 milhões em melhorias urbanas num perímetro de 42 mil m², incluindo o restauro de três monumentos históricos da região.

Monumentos serão restaurados como contrapartida para os telões

Editoria de Arte/O Globo

O primeiro é a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu. Construída no século XVIII por irmandades de escravizados e negros livres, a igreja de fachada amarela é um dos mais importantes símbolos da resistência negra em São Paulo. Ao lado, será restaurada a Estátua da Mãe Preta, escultura em bronze do artista Júlio Guerra que homenageia as mulheres negras escravizadas que amamentaram filhos de senhores brancos.

O terceiro monumento é o Relógio de Nichile, na Praça Antônio Prado, a poucos quarteirões do boulevard. Instalado em 1878 como presente do comerciante italiano Abramo Nicolau Nichile à cidade, o relógio de ferro fundido é considerado o mais antigo ainda em funcionamento em São Paulo.

Regras de uso e fiscalização

Os telões funcionarão entre 5h e 23h, sem emissão de áudio. A luminosidade será ajustada automaticamente conforme o horário, e cada imagem deverá permanecer na tela por no mínimo 10 segundos, sendo proibidas animações com cortes rápidos que possam distrair motoristas.

Dos 30% do tempo reservados à publicidade, só serão aceitas identificações institucionais de marcas, vedadas propagandas de varejo, apostas esportivas, conteúdo adulto, político ou religioso. A operação será monitorada pela Prefeitura e pela Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU).

Em caso de descumprimento, a gestão municipal pode determinar redução de luminosidade, ajuste de conteúdo ou até suspensão das atividades. O acordo tem prazo de 36 meses, e ao término, os telões precisam ser retirados e todas as melhorias urbanas passam a integrar definitivamente o patrimônio público.