'The Matrix': como o Ueno levantou suspeitas no BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Funcionários do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) desconfiaram de que havia algo errado assim que entraram nas instalações do Ueno Bank, em Assunção, na capitaldo Paraguai. O elegante edifício sede do banco, apelidado de “The Matrix”, estava superlotado de jovens funcionários.

As fachadas de vidro, a madeira polida e as obras de arte sofisticadas pareciam mais adequadas a uma startup com muito dinheiro em caixa do que a uma instituição que atendia algumas das pessoas mais pobres do país. Os executivos do Ueno ofereceram um almoço em uma sala privativa, com chefs e garçons, um luxo considerado extravagante pela missão do BID, cujo staff está acostumado a ambientes menos ostensivos.

O BID Invest estudava adquirir uma participação acionária no Ueno, mas a visita, em 2025, levantou sinais de alerta demais, segundo pessoas familiarizadas com o ocorrido, que pediram anonimato por não estarem autorizadas a falar com a imprensa. Um porta-voz do BID Invest se recusou a comentar.

Quinze meses depois, o rápido colapso do banco repercute na política do país, no meio empresarial e na vida de milhões de clientes do Ueno, que acordaram nesta semana e descobriram que haviam perdido o acesso a suas contas. O acionista controlador, Miguel Vázquez, um dos homens mais ricos do Paraguai, está preso.

O presidente Santiago Peña, que havia sido investidor na empresa controladora do banco, ofereceu sua renúncia diante da ameaça de impeachment. O diretor do Banco Central, ex-funcionário do Ueno, pediu demissão.

E agora as ruas estão tomadas por manifestantes que exigem saber o que aconteceu e quem é o responsável. Nem mesmo o BID Invest, que concedeu um empréstimo de quase US$ 20 milhões ao Ueno em 2024, recebeu de volta todo o valor, segundo as pessoas familiarizadas com o caso.

O Ueno fazia parte da narrativa de sucesso do Paraguai: uma fintech de rápido crescimento, com foco digital, que estava levando novos clientes, muitos deles em situação de pobreza, a ingressar pela primeira vez no sistema financeiro formal. A instituição parecia integrar uma onda de empresas financeiras inovadoras em toda a América Latina que estavam abalando as estruturas tradicionais do setor e permitindo que consumidores em ascensão social tivessem acesso ao crédito.

O banco tornou-se o sexto maior do Paraguai em depósitos após sua fusão com o Visión Banco, em 2024, e uma agressiva estratégia de captação de recursos públicos. Os depósitos do setor público dispararam depois que Peña assumiu o cargo, em 2023, e chegaram a cerca de 5 trilhões de guaranis (US$ 869 milhões), ou 29% dos depósitos do banco, no fim de junho.

Na manhã de terça-feira, as autoridades reguladoras assumiram o controle do banco e o declararam insolvente. Mais tarde, naquele mesmo dia, autoridades fizeram uma operação de busca na mansão de Vázquez, em Assunção, repleta de obras de arte.

A polícia encontrou carros de luxo alinhados na garagem, entre eles um Porsche, um Bentley e um Mercedes-Benz, avaliados, segundo a imprensa local, em mais de US$ 1,4 milhão. Ainda não está claro o que acontecerá com os recursos públicos após o fechamento do banco.

O seguro de depósitos do Paraguai (similar ao FGC, o Fundo Garantidor de Crédito brasileiro) garante valores de até US$ 38 mil, e os parlamentares aprovaram na quarta-feira uma lei que determina que o Banco Central acelere o pagamento das indenizações aos clientes que têm dinheiro retido na instituição.

Mais de 1 milhão de paraguaios — em um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes — abriram sua primeira conta bancária por meio do Ueno, segundo o próprio banco. Até mesmo os jogadores da seleção paraguaia de futebol — considerados heróis há alguns meses, depois de derrotarem a poderosa Alemanha — foram atingidos pela crise e tentam recuperar o equivalente a milhões de dólares depositados no Ueno, patrocinador oficial da equipe.

A intervenção no banco ocorreu poucos dias depois de a imprensa local noticiar que os órgãos reguladores haviam constatado que o Ueno concedera empréstimos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, holding controlada por Miguel Vázquez, em valores muito superiores aos limites legais e que não haviam sido devidamente classificados no balanço do banco.

Em 2025, a equipe do BID Invest já havia identificado problemas semelhantes nos empréstimos entre empresas do mesmo grupo. Outros aspectos das operações do banco também haviam despertado a preocupação do BID Invest.

O Ueno informava ter uma taxa de inadimplência de apenas 2% — metade da registrada por concorrentes mais experientes. O Ueno Bank passou a sofrer crescente escrutínio público no início de setembro, quando o jornal local ABC começou a publicar documentos internos e correspondências do Banco Central que apontavam preocupações com suas práticas de concessão de crédito.

O Banco Central abriu uma investigação formal sobre o Ueno ainda naquele mês e, posteriormente, obrigou a instituição a revisar seus balanços. Após as correções, seu índice de solvência caiu para menos do mínimo exigido, de 50%.

O colapso representa um golpe particularmente doloroso para um país que passou anos projetando uma imagem de estabilidade política e econômica para investidores estrangeiros, apesar de ser uma das nações mais pobres da América do Sul. A crise também expôs divisões dentro do Partido Colorado, que domina a política paraguaia há quase sete décadas, enquanto as atenções se voltam para quem assumirá o lugar de Peña.

Em março, o Ueno Bank captou US$ 350 milhões com a emissão de títulos nos mercados internacionais de capitais, um recorde para uma emissão de dívida corporativa do Paraguai. Na terça-feira, os papéis eram negociados a 85 centavos por dólar.

No fechamento do mercado na quinta-feira, seu preço havia caído para menos de 10 centavos.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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