Testes errados e zonas de conflito: como o ebola se espalha silenciosamente no Congo
No Hospital Nyankunde, na província de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo, o médico Charles Kashindi está na linha de frente da luta contra o mais recente surto mortal de ebola. Testes errôneos — que tinham como alvo uma cepa diferente da doença viral — fizeram com que seus médicos inicialmente não detectassem o primeiro caso do raro tipo Bundibugyo neste mês, provocando o que se provou ser um alívio equivocado.
— Dissemos: "OK, graças a Deus, não é Ebola" — diz Kashindi por telefone.
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Eles prepararam o corpo da vítima para entregar à família e, em seguida, estudaram outra morte com sintomas semelhantes. Menos de duas semanas depois, há 25 casos suspeitos no hospital de Kashindi, que não possui quartos de isolamento, poucos equipamentos de proteção e um estoque de máscaras que está diminuindo rapidamente.
Vários membros da equipe estão doentes, incluindo um cirurgião americano que foi evacuado para a Alemanha para tratamento, onde está em condição estável. Quatro pessoas morreram.
— É um verdadeiro pedido de socorro, um SOS — diz Kashindi, que está sendo monitorado por ter tido contato com pacientes infectados. — Estamos realmente com medo de um surto terrível aqui no hospital.
O Hospital Nyankunde, um extenso centro de referência que atende cerca de 200 mil pessoas no nordeste do Congo, opera há muito tempo sob a pressão do conflito. Uma placa na entrada alerta os visitantes para não atacarem profissionais de saúde nem portarem armas nas instalações — lembretes da insegurança que molda a vida há décadas nesta parte da província de Ituri, disse a médica Lindsey Cooper em um vídeo de apresentação publicado online em maio passado.
O Congo sofreu seu primeiro surto conhecido de ebola há meio século. Quase 20 anos se passaram até o próximo surto grave e mais de uma década até o terceiro.
Agora, surtos mortais como o atual em Ituri ocorrem com muito mais frequência. Este é o 17º surto registrado desde o primeiro, em 1976. E eles continuarão acontecendo, de acordo com Jean-Jacques Muyembe, chefe do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica do Congo e um dos maiores especialistas mundiais na doença.
Parte do aumento de casos pode ser explicada por melhores métodos de detecção, disse Muyembe a repórteres na terça-feira. Mas o crescimento populacional e as mudanças climáticas, que levam a um maior contato com a vida selvagem, são as principais causas da disseminação de doenças transmitidas por animais, como o ebola, afirmou.
É uma nova realidade com a qual o Congo — e o mundo — precisam se acostumar, e rapidamente.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a situação uma emergência de saúde pública de importância internacional, seu segundo nível mais alto de alerta, atrás apenas da emergência de pandemia. A agência afirmou que o surto em Bundibugyo atingiu o limiar porque não há vacina ou tratamento aprovado e está se espalhando em uma região devastada por conflitos, com infraestrutura precária e alta mobilidade populacional.
Até 20 de maio, o Congo havia registrado 671 casos suspeitos e 160 mortes suspeitas nas províncias de Ituri e Kivu do Norte, incluindo 64 infecções confirmadas em laboratório. Apesar de um surto de ebola na região que terminou há apenas seis anos, as autoridades demoraram a reconhecer os sinais desta vez, em parte devido à demora na identificação da cepa Bundibugyo, segundo Muyembe.
Ele reconhece que o sistema de monitoramento falhou, o que significa que as autoridades estão correndo atrás do prejuízo para conter a disseminação em uma população que já tem dúvidas sobre a confiança no governo.
Os esforços para lidar com um surto viral também são complicados pelas complexidades da vida no nordeste do Congo. É uma das regiões com maior biodiversidade do mundo, rica em jazidas de minerais e lar de diversos grupos armados que perpetraram alguns dos piores atos de violência do mundo nos últimos 30 anos.
Metade das mortes suspeitas e quase metade dos casos confirmados até o momento ocorreram em Mongbwalu, a cerca de 111 quilômetros de Nyankunde por estrada. É uma área remota, repleta de comerciantes de ouro e garimpeiros que extraem ouro com ferramentas rudimentares ou maquinário básico em concessões anteriormente pertencentes à AngloGold Ashanti Plc.
Há poucos centros de saúde na região, e os garimpeiros doentes têm feito a árdua jornada para buscar tratamento no hospital de Kashindi, segundo o médico. Um deles morreu duas horas após a chegada.
A palavra que mais se ouve sobre Mongbwalu é "caixões", disse Kashindi, acrescentando que os garimpeiros doentes relatavam que "pessoas estavam morrendo, morrendo, morrendo" ao redor das minas. De acordo com Muyembe, as antigas minas de ouro do Congo representam uma ameaça particular porque estão repletas de morcegos que podem transmitir o ebola para animais ou humanos.
— Eles contraem o vírus, mas não ficam doentes, embora ainda o tenham no sangue — afirma. — E existem morcegos tão grandes quanto uma galinha.
A origem do surto mais recente ainda não foi identificada, mas em casos anteriores de febres hemorrágicas como o ebola e seu parente, o vírus de Marburg, a carne de animais selvagens é uma das principais culpadas, disse Muyembe.
— A carne de animais silvestres é uma das principais fontes de proteína para os congoleses, pelo menos para aqueles que vivem em áreas rurais — acrescenta. — Não há galinhas por lá, não há carne bovina, então as pessoas se viram com o que conseguem caçando.
Jennifer Hinton, uma canadense que trabalha há duas décadas em projetos de mineração sustentável do outro lado da fronteira do Congo, em Uganda, vivenciou um surto de Marburg naquele país. Em 2009, ela investiu em uma mina de ouro da era colonial depois que o Marburg — provavelmente proveniente dos milhões de morcegos da região — matou o proprietário.
Hinton se lembra da primeira vez que viu morcegos voando sobre os lagos de Uganda.
— Eu estava semicerrando os olhos e pensando: será que vem aí uma tempestade? — diz ela. — E são morcegos, morcegos frugívoros. Milhões deles. É realmente espetacular.
Pesquisadores estimam que milhares de morcegos em uma única colônia podem ser portadores do vírus Marburg e transmiti-lo a qualquer pessoa ou animal que seja mordido ou que os coma malpassados, o que representou um problema inesperado no local da mina.
— Eu estava vendo 25 babuínos sentados do lado de fora de um túnel, pegando morcegos no ar como se fossem maçãs em uma árvore e simplesmente sentados lá, felizes, mastigando-os — diz Hinton à Bloomberg.
Ela afirmou que os funcionários em Uganda sabiam como se proteger do vírus Marburg e estavam familiarizados com o rastreamento de contatos após múltiplos surtos de febres hemorrágicas ao longo dos anos. Antes de ela se envolver, os trabalhadores prendiam os morcegos na mina para matá-los, enquanto seu projeto espantou os demais devido ao aumento do barulho, das luzes e da atividade.
A situação no epicentro do ebola em Mongbwalu é mais complexa. Grande parte da população reluta em seguir as instruções das autoridades de saúde e acredita que o ebola seja algo místico.
— Como um espírito da morte — segundo Kashindi.
A situação é agravada pelo fato de as autoridades não terem controle total sobre Mongbwalu, região que abriga diversos grupos armados ligados a comunidades étnicas locais.
Em um caso ocorrido entre 2020 e 2021, um grupo conhecido como Codeco enviou mais de 5 mil combatentes para patrulhar e minar Mongbwalu, segundo um relatório das Nações Unidas de 2021. No mês passado, o Codeco massacrou pelo menos 69 pessoas de uma comunidade étnica rival, não muito longe das minas, informou a AFP, citando as forças de segurança locais.
O conflito entre as duas comunidades — os Hema e os Lendu — persiste há anos. No seu auge, em 2002, o hospital de Nyankunde ficou sem energia elétrica. Desde então, o hospital utiliza geradores e energia solar, afirma Kashindi.
Também não se pode confiar totalmente nos soldados e policiais congoleses. As forças de segurança destacadas em Mongbwalu "também se envolveram em mineração ilegal de ouro e na cobrança de impostos dos garimpeiros", segundo um relatório da ONU de 2022.
O Ministro da Saúde do Congo, Roger Kamba, insiste que seu governo é capaz de lidar com o mais recente surto de ebola — afinal, já controlaram 16 surtos anteriores, e todos, exceto um, sem vacina.
— Temos a experiência necessária — diz diz Kamba. — Ebola não é uma doença mística.
