O Tesouro Direto suspendeu as negociações na manhã desta segunda-feira, em meio à turbulência no mercado após o segundo turno das eleições presidenciais. Segundo o Tesouro Nacional, a interrupção ocorre devido à alta volatilidade nas taxas de juros dos títulos públicos, e a expectativa é de normalização ao longo do dia.
Após a suspensão, as negociações foram retomadas no período da tarde. A pausa é um procedimento previsto nas regras do programa para atualizar os preços e as taxas dos papéis às condições do mercado.
O Tesouro Reserva, que não possui marcação a mercado, continua funcionando normalmente, informou o órgão. As taxas oferecidas pelo programa têm como referência o mercado secundário, no qual investidores negociam títulos públicos já emitidos.
Em dias de maior volatilidade, os juros dos títulos públicos podem mudar rapidamente, fazendo com que os valores disponíveis na plataforma fiquem defasados. A pausa permite atualizar as condições de compra e venda antes da retomada das operações.
Segundo o Tesouro Nacional, a suspensão busca assegurar a adequada formação dos preços e proteger o investidor, evitando que compre um título por um preço mais alto ou venda por um valor mais baixo do que o considerado justo nas condições daquele momento. Gustavo Spinola, estrategista da Sincra Investimentos, explica que interrupções nas negociações são utilizadas em diferentes mercados durante movimentos muito intensos.
Além do ajuste das condições de negociação, essas pausas dão aos investidores tempo para avaliar as informações. — É uma forma de tentar acalmar investidores, dar um tempo para todos pensarem, discutirem e tentar suavizar o movimento, que pode ser uma corrida sem muito parâmetro para quem está investindo — afirma.
Nesta segunda-feira, a reação ao resultado das urnas provocou forte alta do dólar e queda da Bolsa, com interrupções nas negociações na B3. Investidores passaram a rever suas expectativas para a economia após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o senador Flávio Bolsonaro.
Na avaliação de Spinola, o movimento reflete uma mudança brusca nas apostas do mercado. — Não é uma crise econômica, é uma reversão muito grande nas projeções de investidores locais e internacionais sobre como devem ser os próximos quatro anos, em termos de inflação, juros, câmbio, o que esperar no geral da política econômica que será praticada no Brasil — diz.
O impacto depende, principalmente, de quando o investidor pretende resgatar o dinheiro. Para quem mantém a aplicação até o vencimento, continuam valendo as regras contratadas, conforme a modalidade escolhida.
— Quem tem esse investimento visando o retorno até o vencimento, não muda muita coisa. Muda mais para quem se programou para vender antes do vencimento — explica Spinola.
Para quem pretende vender antes desse prazo, o valor recebido depende do preço do título no mercado no momento da operação, podendo resultar em rendimento menor que o esperado ou até prejuízo. O valor dos títulos é atualizado conforme os preços de negociação no mercado, procedimento conhecido como marcação a mercado.
Nos papéis prefixados e nos atrelados à inflação, uma alta das taxas de juros de mercado reduz o preço dos títulos já emitidos. Quando as taxas caem, ocorre o contrário, e os papéis podem se valorizar.
Essas oscilações não alteram as condições de remuneração contratadas para quem mantém o título até o vencimento. Já quem vende antes desse prazo recebe o valor de mercado, podendo ter um retorno diferente do previsto na compra.
As regras do programa permitem registrar solicitações de investimento e resgate na área exclusiva do Tesouro Direto durante a interrupção. As operações, porém, são processadas na reabertura, com os novos preços e taxas divulgados pelo Tesouro Nacional, respeitado o valor financeiro informado na solicitação.
O programa já adotou a medida em outros episódios de turbulência. Em 5 de outubro, após o primeiro turno das eleições, o Tesouro Direto publicou um comunicado informando o fechamento das negociações devido à elevada volatilidade dos mercados naquela manhã.
O Globo