Terra em transe: Derretimento de geleira abre debate sobre injustiça climática - QTU Questões do Universo

Terra em transe: Derretimento de geleira abre debate sobre injustiça climática

Fonte: Bandeira da fonte

A avalanche devastadora ocorrida na fronteira entre Nepal e Tibete no fim de agosto acendeu um alerta global para regiões montanhosas em várias partes do mundo, que passam por um derretimento acelerado de suas geleiras — inclusive em cidades turísticas da América do Sul.
O evento na Ásia — que já contabiliza mais de mil mortes e ao menos 4.200 desaparecidos — ainda precisa ser analisado por cientistas para comprovar em que medida foi causado pela mudança do clima.
No entanto, já abriu um debate sobre a questão da injustiça climática, conceito que aponta para a desigualdade com que populações de países mais pobres sofrem os efeitos da crise no clima, para a qual contribuíram bem menos do que as nações mais ricas e industrializadas.
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Dados divulgados neste ano pelo Icimod (Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas, órgão intergovernamental da região) mostram “declínio consistente” das geleiras do Himalaia nos últimos 50 anos, processo que se acelerou desde 2000.
Com instabilidade crescente nessas áreas, países mais pobres com população significativa próxima de montanhas e monitoramento precário tendem a sofrer desproporcionalmente os impactos.
— (O Nepal) é um exemplo clássico de injustiça climática: um dos países mais pobres do mundo, que definitivamente não está nem entre os 100 maiores causadores da crise climática, sendo atingido por um evento extremo sem que haja um fundo de perdas e danos com recurso suficiente para bancar a reparação dessa tragédia.
É algo que vamos ver cada vez mais — diz ao GLOBO o coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, Cláudio Angelo.

O fundo foi aprovado em 2022, na Cúpula do Clima de em Sharm el-Sheikh, no Egito, mas até hoje recebeu pouco aporte dos países ricos, principais responsáveis pela mudança do clima.
Os países afetados pelo desastre na Ásia Central estão entre os que menos contribuíram historicamente (em torno de 0,1%), em emissões, para o aquecimento do planeta.
A injustiça climática também atinge os países andinos: a Cordilheira dos Andes figura entre as mais ameaçadas por avalanches e enchentes a partir do derretimento acelerado dos glaciares.
Na região, um dos locais mais ameaçados é a cidade turística de El Chaltén, na Patagônia.
Localizada no trecho sul da cordilheira sul-americana, El Chaltén é conhecida como a “capital argentina do trekking” e tem preocupado cientistas e autoridades.
O pequeno povoado tem cerca de três mil habitantes, mas recebe grande fluxo de turistas anualmente.
O risco ali é de inundação súbita por rompimento de lago glacial (descrito por especialistas pela sigla GLOF, em inglês), semelhante ao que ocorreu no Nepal.
Com temperaturas mais altas, o Lago Torre, localizado a poucos quilômetros da localidade, tem aumentado a cada ano e pode transbordar.
É um tipo de risco que, em diferentes medidas, não é exceção na região.
Falta monitoramento
Segundo a glaciologista Inés Dussaillant, desastres do tipo com perda maciça de vidas humanas são mais prováveis nas regiões de montanha da Ásia Ocidental e Central, com destaque para o Himalaia, e em partes dos Andes, em picos do Peru, Bolívia e locais da Patagônia com maior atividade turística.
É onde há grandes populações vivendo muito perto das montanhas e falta monitoramento adequado, com tecnologia e apoio de governos.
Cordilheiras e geleiras em risco
Editoria de Arte
Nos Alpes, que também enfrentam o fenômeno, o monitoramento feito há mais de um século, com tecnologia de ponta e financiamento governamental, tem contribuído para atenuar impactos, com alertas emitidos com antecedência à população.
Blatten, vilarejo suíço com cerca de 300 habitantes, foi destruído em 2025 pelo desmoronamento de uma geleira, mas havia sido evacuado dias antes.
— Está acontecendo em todas as regiões que têm geleiras, mas na maioria delas o impacto acontece nos ecossistemas, longe dos humanos, sem sequer nos darmos conta — observa Dussaillant, pesquisadora da Universidade do Chile e do Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras.
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Dados do Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras apontam que o volume das geleiras começou a cair a partir da década de 1990.
Nos últimos anos, o recuo passou a ocorrer em todas as regiões do planeta, com poucas exceções, e cada vez mais rápido.
Um relatório inédito da ONU publicado na quarta-feira admitiu que o planeta vai superar o limite de 1,5°C de aquecimento global (sobre a temperatura dos níveis pré-industriais) estabelecido na década passada pelo Acordo de Paris, o que coloca o sistema climático em risco.
Cientistas já estimaram que esse limite ajudaria a conter a retração das geleiras, em comparação a temperaturas mais altas.
O Copernicus, serviço de mudanças climáticas europeu, aponta que os seis anos com maior perda global de massa em geleiras foram registrados nos últimos sete anos.
Em muitas regiões, geleiras devem desaparecer nas próximas décadas e outras não sobreviverão ao fim deste século, preveem cientistas.
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Além da intensificação dos desastres, o degelo é uma das principais causas do aumento do nível do mar, que põe em risco cidades e comunidades costeiras e impacta o ciclo hidrológico nas regiões de montanha e além.
No caso dos Andes, o derretimento acelerado afeta a dinâmica de chuvas na Bacia Amazônica e pode intensificar as secas na floresta.
Segundo o diretor do Centro Polar e Climático, Jefferson Simões, também professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o derretimento mais acelerado ocorre atualmente em regiões temperadas e nos trópicos, exatamente nas geleiras de montanha.
Há perdas substanciais em áreas mais baixas, mas o derretimento já alcança altitudes maiores .
Simões explica que a ocorrência de desastres como o do Nepal depende da morfologia local e de fatores que operam em conjunto.
— Quanto mais íngreme, mais quente e maior o corpo de gelo lá em cima, mais provável um desastre — disse o professor ao GLOBO.
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No caso do desastre do Nepal, uma análise do New York Times com base em imagens de satélite mostrou que uma parte da face norte da montanha Langtang Lirung desmoronou junto com a geleira, liberando 200 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo, equivalente ao volume contido por 100 estádios de futebol.
Vulnerabilidade
O professor da UFRGS lembra que eventos como o ocorrido na fronteira entre Nepal e Tibete podem ser desencadeados por fatores externos à intervenção humana, como terremotos, mas estão sendo intensificados pela mudança climática causada pelo homem.
Em 1970, um terremoto de magnitude 7,9 provocou a pior catástrofe da História do Peru: uma avalanche glacial em sua montanha mais alta, o Monte Huascarán.
A torrente de rochas, gelo e lama se desprendeu em alta velocidade e soterrou a cidade de Yungay, provocando dezenas de milhares de mortes.
Hoje, a região se tornou mais vulnerável pelo impacto da mudança do clima.
Ainda assim, a vulnerabilidade depende não só da propensão natural ao desastre, mas do grau de adaptação, destaca o coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, Cláudio Ângelo:
— A avalanche (no Nepal) talvez não pudesse ser evitada, mas o tanto de gente no caminho, sim.
É o tipo de cálculo que precisamos aumentar.
Cientistas da região têm se mobilizado para fortalecer o monitoramento de áreas sujeitas a catástrofes, como El Chaltén.
Uma das glaciologistas por trás da startup Mountain Futures, voltada a aumentar a resiliência climática nas áreas de montanha, Inés Dussaillant tem se articulado com os setores público e privado para instalar equipamentos de monitoramento na cidade e treinar a população para ler dados, compreender e gerenciar riscos.
Com o degelo acelerado nos Andes, é uma corrida contra o tempo.
— Estamos buscando financiamento para que possamos não apenas dar assessoria, mas fornecer toda a capacidade técnica para estruturar um sistema capaz de prever eventos desse tipo e evitar uma enorme catástrofe, como a do Nepal — diz Dussaillant.