Terra de Padre Cícero vai em busca do título de Patrimônio Cultural do Brasil
Os Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte, no Ceará, visitados pelos fiéis de Padre Cícero Romão Batista, estão a poucos passos de serem reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil. O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) encerra no próximo dia 6 a consulta popular sobre a concessão do título, etapa que antecede a reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. É o grupo que definirá a inclusão do roteiro de romarias, que reúne cerca de três milhões de pessoas anualmente, no Livro dos Registros dos Lugares, com forte expectativa de aprovação. Paralelo ao trabalho, segue no Vaticano o processo de canonização de Padre Cícero.
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O Livro de Registros dos Lugares do Iphan reúne locais de atividades culturais coletivas. Até hoje, apenas quatro conseguiram figurar no documento: a Feira de Campina Grande, na Paraíba; a Feira de Caruaru, em Pernambuco; a Cachoeira de Iauaretê, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas; e Tava Guarani, em São Miguel Arcanjo, no Rio Grande do Sul. Os dois últimos locais, assim como Juazeiro do Norte, estão ligados à religiosidade.
Para o padre Cícero José da Silva, pároco da Basílica de Nossa Senhora das Dores, fundada pelo Padre Cícero, o reconhecimento dos Lugares Sagrados ajudará a divulgar o roteiro além da Região Nordeste, permitindo entender o sacerdote não só pela figura do religioso.
— A visita aos Lugares Sagrados é uma contextualização. Quem passa por lá entende Padre Cícero além da bibliografia em que é relatado no restante do país. Permite conhecer Padre Cícero não só como religioso, mas também como uma figura forte na sociedade, com influência na política e trabalho social. Ele era considerado polêmico, conversava com coronéis, evitava que cangaceiros liderados por Lampião invadissem Juazeiro — avalia o pároco, um dos 14 padres da Diocese de Crato com o nome Cícero. — Pelo menos um filho ou uma filha em cada família leva o nome Cícero ou Cícera, em homenagem a Padre Cícero.
A Basílica de Nossa Senhora das Dores integra os Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte
Divulgação/PMJN
O processo que pede o reconhecimento dos Lugares Sagrados como Patrimônio Cultural do Brasil tramita no Iphan desde 2018. Apresentada pela prefeitura de Juazeiro do Norte, a solicitação reuniu 12.125 assinaturas de fiéis dos nove estados do Nordeste. Os Lugares Santos incluem, entre outras áreas de peregrinação, a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela de Nossa Senhora do Socorro, o Santuário de São Francisco, a Casa dos Milagres, a Estátua de 27 metros de altura de Padre Cícero, a Casa do Horto, o imóvel em que viveu o religioso, a Capela de Santa Edwiges e o Santo Sepulcro.
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Processo de beatificação
Paralelo à análise dos Lugares Sagrados de Juazeiro como Patrimônio Cultural, segue no Vaticano o pedido de canonização de Padre Cícero, santo para fiéis, mas ainda sem o reconhecimento oficial da Igreja Católica. O processo está na segunda fase, chamada de Romana, iniciada após o envio, há um ano, do material organizado pela Diocese de Crato sobre a biografia do sacerdote. O material reuniu 4.762 mil páginas com informações focadas na vida religiosa do hoje servo de Deus.
Segundo o padre Wesley Barros, vice-postulador da causa de beatificação e pároco da Catedral de Nossa Senhora da Penha, em Crato, é na segunda etapa em que o material enviado passa por um filtro jurídico, para evitar possíveis erros ou contestações ao longo do processo. Encerrada a fase, a terceira etapa mira na beatificação de Padre Cícero, com a produção de dados que comprovem um milagre. Após confirmado o fenômeno, o religioso será considerado beato. Já a quarta fase mira na canonização, com a apresentação de um segundo milagre.
Para ser considerado um milagre, o Vaticano faz cinco exigências, em um processo apontado pelo religioso como rigoroso e complexo:
— A primeira é que o enfermo tenha uma doença incurável; a segunda, que ele tenha feito uma prece pedindo a cura ao servo de Deus. A terceira é a cura imediata, com o desaparecimento repentino da doença; a quarta é não ter intervenção médica ou uso de medicamentos que ajudaram na cura e, por fim, a quinta exigência prevê um tempo de carência para que o enfermo se mantenha saudável, tenha conseguido realmente a cura, que a doença não retorne.
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Relação familiar
Fiel segura imagem de Padre Cícero na missa na Basílica de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte
Divulgação/PNMJ
Quase que diariamente, segundo padre Wesley, chegam à Diocese de Crato, da qual Juazeiro do Norte faz parte, informações sobre graças obtidas por fiéis. No entanto, nem todas cumprem as cinco exigências do Vaticano. A equipe responsável pelo processo já trabalha na busca pelos dois milagres, que ainda não foram definidos. A expectativa é que o processo seja concluído até 2034, ano em que se completam cem anos da morte de Padre Cícero, data considerada simbólica para os fiéis.
— Juazeiro do Norte é muito interessante; só quem passa pelos Lugares Sagrados sente essa experiência de fé. Os romeiros chegam, fazem suas orações para Deus e depois seguem para a visita ao túmulo de Padre Cícero. Eles têm nele um padrinho, um pai, consideram um membro da família, é como se visitassem o túmulo de um parente — afirma padre Wesley, que completou 15 anos de sacerdócio.
A fama de santo e os milagres de Padre Cícero começaram em 1889, quando uma hóstia entregue pelo religioso se transformou em sangue na boca da beata Maria de Araújo. Desde então, o fenômeno chamado “Milagre de Juazeiro” se repetiu outras vezes. Após o ocorrido, o religioso foi afastado de suas atividades. Em 2015, a Igreja Católica se reconciliou com ele.
Padre Cícero nasceu em março de 1844 e morreu em julho de 1934, aos 90 anos. Sua despedida provocou grande comoção popular.
De acordo com o Iphan, a reunião do conselho consultivo acontecerá no dia 10 de junho. A consulta popular reuniu, até sexta-feira passada, seis depoimentos.
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Patrimônios Culturais já inscritos no Iphan
Feira de Campina, Paraíba
Criada no final do século XVIII, a feira atrai moradores da cidade, distante 126km de João Pessoa, e municípios vizinhos. Começou como ponto de parada entre o litoral e o sertão. É considerado um dos principais centros de comércio do estado. No local é possível comprar de queijo, carne e farinha a ferramentas, roupas e brinquedos. Tornou-se um ponto de encontro para várias gerações.
Tava Guarani, Rio Grande do Sul
Para o povo Guarani, a região localizada no Sítio Histórico de São Miguel Arcanjo é um lugar sagrado em que os indígenas fortalecem o vínculo com os antepassados, compartilham conhecimentos e buscam aperfeiçoamento. Eles, em especial os Mbyá-Guaranis, reconhecem marcas em pedras, construções e caminhos antigos de um território com ensinamentos que levam à “Terra sem Mal”.
Feira de Caruaru, Pernambuco
Na região do Agreste, é a principal atração do município, distante 130km do Recife. Além da venda de produtos regionais, como carne de sol, redes, produtos de couro e cordéis, o local se tornou uma área de convivência e de expressões artísticas. A feira surgiu no final do século XVIII, criada por tropeiros, vaqueiros e mascates após a construção da capela de Nossa Senhora da Conceição.
Cachoeira de Iauaretê, Amazonas
Também conhecida por Cachoeira da Onça, é considerada um lugar sagrado pelos povos indígenas que vivem ao longo dos rios Uaupés e Papuri, em São Gabriel da Cachoeira. Pedras, ilhas e corredeiras guardam histórias contadas pelos indígenas sobre mitos de criação. Eles apontam que no local surgiram os primeiros ancestrais, plantas e animais. São lembradas nas histórias a formação de 14 etnias.
