Tentáculos da quadrilha de Adilsinho se espalham por oito estados de norte a sul do país, mostram investigações
Investigações das polícias Civil e Federal identificaram tentáculos da organização criminosa de Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, preso nesta quinta-feira, em oito estados diferentes, de norte a sul do país. Nascido no seio de uma família de bicheiros da Baixada Fluminense, Adilsinho usou o centenário modelo de negócios do jogo do bicho — baseado no monopólio territorial e na corrupção policial — para dominar o mercado do cigarro ilegal no Rio. Atualmente, segundo os inquéritos, tanto o jogo ilegal quanto a venda clandestina de fumo integram seu portfólio criminoso.
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A primeira investigação a descortinar a participação de Adilsinho em negócios ilícitos foi a Operação Furacão, da PF, deflagrada em 2007. Na ocasião, escutas telefônicas revelaram que o bicheiro fraudava máquinas caça-níquel para garantir uma margem mínima de lucro. Em uma das conversas, de novembro de 2006, o próprio Adilsinho combina com um comparsa o aumento da frequência das premiações e a redução dos valores pagos, para estimular a “compulsividade” do apostador: “Lembra aquele papo que você me deu da compulsividade? Em outra escala, bem menor, mas toda hora sai. Se pagasse até R$ 30 mil, já pagava esse prêmio. Diluía mais, e toda hora ia ter um camarada acertando”.
Os diálogos captados na investigação também mostraram que, ao longo da primeira década dos anos 2000, Adilsinho extrapolou os limites de Duque de Caxias — onde sua família já monopolizava o jogo havia pelo menos 40 anos — e passou a operar bingos e máquinas em Minas Gerais, no Rio Grande do Norte, no Rio Grande do Sul e no Amazonas. “Estamos com 23 pecinhas (máquinas) paradas, zero de receita. A gente tem que botar o bloco na rua pra poder crescer. Estou pensando em mandar para Manaus, tem 30 pedidas lá”, afirma o bicheiro em outro diálogo. Ao final do processo, Adilsinho chegou a ser condenado a três anos e meio de prisão, mas a pena prescreveu antes de ser cumprida.
Imagens de drone mostram operação para prender Adilsinho
Mesmo após a Operação Furacão, Adilsinho seguiu expandindo seus tentáculos. Em fevereiro de 2021, o goiano Bruno Vinícius Nazon Moraes Borges, dono de uma bet que tentava se estabelecer no Maranhão, foi executado a tiros no litoral de São Luís. A investigação apontou que os autores do crime eram dois homens da escolta pessoal de Adilsinho, que viajaram mais de 3 mil quilômetros, de avião e carro, para cumprir a missão.
Modelo reproduzido no Nordeste
Segundo o inquérito, os pistoleiros atuavam em nome da “Paratodos Rio”, uma espécie de filial da banca de Duque de Caxias que conquistou o monopólio da jogatina na capital maranhense e passou a faturar cerca de R$ 1 milhão por mês. A polícia também identificou outros três operadores vindos da Baixada Fluminense que se estabeleceram em São Luís para administrar os negócios do grupo e reproduzir o modelo fluminense — marcado por ameaças, depredações de máquinas e assassinatos de desafetos — no estado nordestino.
Adilsinho foi preso nesta quinta-feira em Cabo Frio
Divulgação PCERJ
“Minha função é a segurança, sou responsável por aplicar punições e execuções a adversários, tenho muito respeito do dono da empresa no Rio de Janeiro e fui mandado para cá para organizar os pontos”, afirmou um comparsa do bicheiro, em conversa interceptada pela Polícia Civil do Maranhão.
Segundo a PF, a partir de 2018 Adilsinho passou a reinvestir o dinheiro do jogo ilegal na produção e comercialização de cigarros clandestinos, vendidos abaixo do preço mínimo de R$ 6,50 por maço, fixado por decreto. Para garantir os lucros, replicou no novo negócio a mesma lógica da contravenção: monopólio territorial, corrupção de agentes públicos e fraude fiscal. Comerciantes são coagidos a vender apenas os produtos do grupo, concorrentes são eliminados a tiros, e a impunidade é assegurada pela infiltração da quadrilha no aparelho estatal. Ao todo, 34 policiais militares já foram identificados como integrantes da escolta de Adilsinho.
Fachada de legalidade
Inicialmente, a operação ainda mantinha uma fachada de legalidade, com empresas regularmente constituídas usadas para emitir notas fiscais e conferir aparência lícita ao negócio. Com o mapeamento dessas firmas, porém, a PF descobriu que a quadrilha passou a atuar de forma informal: desde 2022, 70 paraguaios foram resgatados de condições análogas à escravidão em quatro fábricas clandestinas instaladas em três cidades do Rio. Os estrangeiros eram aliciados em seu país de origem e trazidos ilegalmente ao Brasil sob a promessa de receber R$ 5 mil. Em depoimento, relataram jornadas de 12 horas diárias, sem folgas, sob a vigilância de um segurança armado.
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Os agentes federais também identificaram ramificações da operação de cigarros ilegais de Adilsinho em outros três estados, além do Rio. Em Minas Gerais, a PF apreendeu cargas enviadas pela quadrilha e localizou mais uma fábrica clandestina, na cidade de Cláudio, gerenciada por comparsas do bicheiro. Em abril de 2023, trabalhadores paraguaios em condição análoga à escravidão foram resgatados no local. No Espírito Santo, a PF identificou comparsas a quem a quadrilha vendeu uma máquina de cigarros. Já no Paraná, foram investigadas operações financeiras entre integrantes da máfia do cigarro ligada a Adilsinho e contraventores locais.
