'Tenham a seriedade pelo momento que está por vir', diz a deputados desembargador Ricardo Couto, governador em exercício do Rio

 

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A retomada dos trabalhos legislativos na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), nesta terça-feira, foi marcada por um discurso duro e considerado sensível nos bastidores do Palácio Tiradentes. O desembargador Ricardo Couto, que discursou durante a solenidade na condição de governador em exercício, cobrou “seriedade” dos deputados diante do momento político vivido pelo estado e afirmou que não faria a transmissão de mensagens do governo estadual à Casa. A sessão ocorreu em meio a protestos de servidores, ausências e intensas articulações em torno do mandato-tampão no comando do Executivo.

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O presidente afastado Rodrigo Bacellar não compareceu à cerimônia. O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Rodrigo Amorim, também se ausentou. O secretário da Casa Civil, Nicola Miccione, que fez a leitura das mensagens no ano passado, também não compareceu.

Antes da abertura oficial, houve tumulto no plenário que estava de salão cheio, com servidores cobrando recomposição salarial e entoando palavras de ordem contra a política previdenciária do governo, como “recomposição já” e “sem caráter, tiram dinheiro da previdência para colocar no Banco Master”. Assunto que também reverberou entre os deputados de esquerda.

A cerimônia contou com a presença do procurador-geral de Justiça, Antônio José, além de representantes dos três Poderes. As bandeiras foram hasteadas pela deputada Célia Jordão e pelo deputado Samuel Malafaia, e o Hino Nacional foi executado. Coube ao desembargador Ricardo Couto a leitura da mensagem institucional, em uma fala que fugiu do protocolo tradicional e adotou tom pessoal e político.

Ao iniciar o discurso, o magistrado justificou a informalidade e disse falar não apenas como representante do Judiciário, mas também “como amigo” e “como cidadão”, ressaltando o caráter excepcional do momento. Em um dos trechos mais comentados, afirmou que não levaria à Alerj mensagens do governo estadual.

— Conversando com o governador, me parece mais oportuno que ele próprio encaminhe essa mensagem. Não falarei do plano de governo neste instante — disse.

Couto afirmou que o estado vive um “tempo de entrega” e de responsabilidade institucional, especialmente diante da vacância recente no comando do Executivo. Segundo ele, caberia à Assembleia conduzir com maturidade a escolha de quem estará à frente do governo estadual.

— Vivemos um momento excepcional. Haverá uma vacância de um lugar tão recente e esta Casa, a Casa do Legislativo, deverá ter a responsabilidade e a seriedade de saber bem conduzir quem estará à frente do Executivo estadual — afirmou.

O desembargador alertou ainda para os riscos do “jogo político” em um momento sensível e pediu que interesses partidários não se sobreponham ao interesse público.

— É tempo de união, de seriedade e de solidariedade. Aqui é tempo em que a política ou o jogo político não pode acarretar prejuízos para o poder público. É tempo de atender aos anseios da sociedade — declarou.

Ao encerrar a fala, fez um apelo direto aos parlamentares:

— É um pedido que faço como cidadão: tenham a seriedade pelo momento que está por vir.

Na sequência, o presidente da Alerj, Guilherme Delaroli (PL), declarou abertos os trabalhos do quarto ano legislativo e também fez um discurso com forte tom político, defendendo união, maturidade e foco no interesse coletivo. Delaroli destacou a diversidade do Parlamento e afirmou que "divergências são legítimas, mas não podem paralisar a Casa".

— A democracia não nos exige que pensemos igual. Ela nos exige que saibamos caminhar juntos — afirmou.

O presidente da Casa deu destaque ao tema da segurança pública, afirmando que o medo não pode ser naturalizado e que a violência não pode ser tratada como algo cotidiano, defendendo a valorização das forças de segurança e políticas públicas baseadas em prevenção, inteligência, tecnologia e presença do Estado.

Nos bastidores, a retomada dos trabalhos foi marcada por conversas ao pé do ouvido e sussurros no plenário, com a disputa pelo mandato-tampão dominando as articulações. Deputados ausentes da sessão foram Rodrigo Bacellar (União) e Carlinhos BNH (Progressistas).

Delaroli chegou à cerimônia acompanhado da esposa, do pai, da mãe e do filho. Estiveram presentes ainda vereadores de Itaboraí e prefeitos de Niterói, Queimados, Porciúncula, Mendes e São Gonçalo. Um detalhe que chamou atenção nos bastidores foi a ausência do nome de Nicolla Miccione na leitura oficial dos convidados.

Com os trabalhos oficialmente retomados, a expectativa é de que o clima de tensão e negociação se intensifique nas próximas sessões, diante da definição do mandato-tampão e de seus impactos políticos no estado.

Em meio aos desdobramentos das investigações sobre o RioPrevidência e o Banco Master, o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL) afirmou que o fundo previdenciário dos servidores foi usado para financiar a instituição financeira, com prejuízo aos aposentados.

— Já está claro que o RioPrevidência foi instrumentalizado para financiar o Banco Master, com crimes financeiros envolvendo o dinheiro dos aposentados. Essa prisão é importante para identificar quem indicou os responsáveis e chegar aos verdadeiros responsáveis políticos — disse.