Tenente-coronel vira reú por feminicídio e fraude em processo que apura morte da PM Gisele
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto virou reú por feminicídio e fraude processual no processo que apura a morte da policial militar Gisele Alves Santana. Ela foi morta com um tiro na cabeça no apartamento onde os dois moravam, no Centro de São Paulo.
O oficial responderá no Tribunal do Júri por feminicídio e fraude processual, pela alteração da cena do crime para induzir a investigação a erro. O MP pede ainda R$ 100 mil de indenização.
Geraldo Neto foi preso na manhã desta quarta-feira em São José dos Campos, no interior paulista, e levado ao Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte de São Paulo. A prisão aconteceu no mesmo dia em que a morte de Gisele completou um mês.
Antes de virar réu na Justiça comum, a alta cúpula da Secretaria da Segurança Pública se reuniu para esclarecer os pontos da morte da policial.
A primeira hipótese, de suicídio, que havia sido apresentada pelo próprio tenente-coronel, foi descartada pela polícia. A perícia concluiu que o agressor estava atrás de Gisele e, com uma das mãos segurou o rosto dela e, no outro, atirou.
Outro ponto que chamou a atenção foi a entrada de três policiais femininas no apartamento para realizar a limpeza do local horas depois da morte de Gisele, antes da conclusão total das investigações.
O Corregedor da PM, Coronel Alex dos Reis Asaka, diz que os policiais que estiveram no local para fazer essa limpeza o fizeram "por uma questão de humanidade".
"No primeiro momento, a notícia que se tinha era de um suicídio. A polícia já tinha passado e liberado o local do crime. Em momento algum, essa limpeza foi feita no sentido de suprimir qualquer tipo de troca."
A Corregedoria da Polícia Militar também trouxe à tona mensagens do celular do oficial, que revelam um comportamento descrito pelos investigadores como tóxico, autoritário e possessivo, além de um claro desejo de separação da soldado Gisele.
Em uma das conversas, Geraldo Neto diz a Gisele que "lugar de mulher é em casa, cuidando do marido (...) Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho".
Em outro trecho, a policial pede para que o marido mude o comportamento que ela classifica como estúpido, ignorante e intolerante, chegando a ser chamada por ele de "burra" e "babaca".
Poucos dias dias antes de morrer, Gisele reclama de ter sido agredida por Geraldo Neto. Dois dias antes do crime, o tenente-coronel diz que trata Gisele como todo macho alfa trata a sua esposa. E que fêmea beta obediente é submissa, como toda mulher casada deve ser.
Para o Comandante-Geral da PM, Coronel José Augusto Coutinho, o episódio é uma mácula na imagem da corporação:
"Obviamente, a Polícia Militar está maculada. Um dos seus integrantes está preso hoje, acusado, preso definitivamente, acusado de ter inocido. Não é um motivo de orgulho para a gente, mas é o cumprimento do dever e o nosso dever vem em primeiro lugar."
A prisão foi homologada pela Justiça Militar.
A defesa do tenente-coronel afirmou que a Justiça Militar não tem competência para analisar e julgar o caso, que deve ser encaminhado à Justiça comum. E que entrou com uma liminar no Superior Tribunal de Justiça pedindo o relaxamento no pedido de prisão.
Além da ação penal, Geraldo Neto vai responder pelos dois crimes em investigação aberta na Corregedoria.
