Tempestade nos EUA provoca maior volume de cancelamentos desde a pandemia e afeta 107 voos no Brasil

 

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A tempestade de inverno que paralisou a costa leste e atingiu parte do sul dos Estados Unidos neste fim de semana teve um impacto direto na malha aérea brasileira, com 107 voos com origem ou destino no país afetados. O colapso atingiu seu ápice no domingo, dia que se consolidou como o epicentro do "apagão aéreo". Em um intervalo de 24 horas, passageiros no Brasil e nos EUA enfrentaram 19 cancelamentos de voos e outros 27 atrasos críticos, isolando temporariamente as principais rotas entre as Américas.

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Segundo levantamento realizado pelo GLOBO, monitorando as operações nos aeroportos de Guarulhos (SP), Galeão (RJ) e nos quatro principais terminais americanos que conectam os países, foram 42 cancelamentos totais e 65 atrasos significativos entre a última sexta-feira (23) e a manhã desta segunda-feira (26).

Os dados apurados mostram como o efeito da tempestade "migrou" e se intensificou ao longo do fim de semana conforme a tempestade piorava. O sinal de alerta soou na sexta-feira, ainda de forma tímida, com cinco cancelamentos. No entanto, o sábado (24) marcou o início do efeito cascata. O Aeroporto de Guarulhos registrou quatro cancelamentos de partidas, mesmo número do Galeão naquele dia, refletindo problemas iniciais em centros de conexão específicos nos EUA, como Dallas.

Foi no domingo, contudo, que a situação se tornou crítica em São Paulo. Com a intensificação da neve em Nova York e o congelamento de pistas no Sul dos EUA, o Aeroporto de Guarulhos viu 11 voos serem cancelados em um único dia. Na ponta americana, o aeroporto JFK, em Nova York, travou suas operações para o Brasil, registrando quatro cancelamentos diretos na rota, enquanto Dallas e Atlanta operavam com restrições severas.

Neve em Nova York neste domingo

CHARLY TRIBALLEAU / AFP

Nesta segunda-feira (26), os números indicam uma lenta retomada, mas a "ressaca operacional" persiste. Até a última atualização da reportagem, foram contabilizados cinco cancelamentos em Guarulhos, reflexo de aeronaves que não conseguiram decolar dos EUA na noite anterior para cumprir a rota de retorno.

Para entender a dimensão do problema, é preciso olhar além do voo direto. O sistema de aviação americano opera no modelo de hubs, ou seja, grandes centros de distribuição de voos. Companhias americanas como American Airlines, Delta e United viram seus aviões ficarem literalmente "presos" na neve em seus aeroportos-base (Dallas, Atlanta e Newark/Houston, respectivamente). Sem conseguir tirar as aeronaves do solo nos EUA, os voos de volta que partiriam do Brasil foram cancelados por falta de equipamento.

Segundo informou a American Airlines, a operação foi inviabilizada pela "natureza dinâmica" e extrema das condições em solo, que mudavam em velocidade recorde. A gravidade foi tamanha que gerou, em diversos momentos, o fenômeno técnico de "zero holdover time": a precipitação era tão intensa que anulava a eficácia do fluido de degelo (deicing) aplicado nas asas antes mesmo que a aeronave pudesse iniciar a decolagem com segurança.

"As condições no solo nesses aeroportos tornaram as operações extremamente difíceis. Em Dallas, por exemplo, houve dez condições climáticas distintas envolvendo granizo, neve e chuva congelante — e as condições climáticas mudaram um total de 23 vezes ao longo de um único dia", disse a companhia.

A tempestade Fern também atingiu cidades que não possuem infraestrutura robusta para lidar com frio extremo, desencadeando um efeito dominó logístico. A American relatou que o colapso nas estradas impediu a chegada de equipes essenciais aos aeroportos, desde funcionários de serviços de solo até agentes federais e controladores de tráfego aéreo. Sem mão de obra suficiente nas torres de comando e com pistas intransitáveis, diversos aeroportos precisaram ser fechados oficialmente, travando toda a cadeia de voos.

Geografia do caos

A segunda-feira amanheceu nos Estados Unidos ainda sob o efeito do colapso aéreo: até as 10h da manhã, o monitoramento do FlightAware contabilizava cerca de 4 mil voos suspensos e mais de 2 mil atrasados dentro do país. Segundo o secretário de Transporte dos EUA, Sean Duffy, o domingo foi o dia com o maior volume de cancelamentos de voos desde março de 2020, marco inicial da pandemia de Covid-19.

Equipes fazem o processo de "degelo" em aeronave da Delta

Divulgação/Delta

Se no fim de semana os aeroportos de Atlanta, Dallas e Charlotte concentraram os cortes, na segunda-feira o problema migrou para o Nordeste. O Aeroporto Logan, em Boston, teve cerca de 60% de suas partidas suspensas, enquanto os terminais da área de Nova York (JFK, La Guardia e Newark) perderam metade de suas decolagens.

Apesar dos transtornos, há otimismo por uma recuperação acelerada. O fim de janeiro, tradicionalmente um período de baixa temporada, oferece às companhias aéreas mais flexibilidade e recursos para realocar aeronaves do que em épocas de feriados. Em entrevista à CNBC, Sean Duffy afirmou que a expectativa é de retorno à normalidade até a quarta-feira.

A tempestade despejou mais de 30 centímetros de neve em pelo menos 19 estados americanos, do Novo México ao Maine, de acordo com dados preliminares do Serviço Nacional de Meteorologia. Pelo menos 25 mortes foram relatadas em todo o país, incluindo várias por hipotermia e emergências médicas relacionadas à remoção da neve.

Ao menos outras nove mortes estão sendo investigadas para determinar se estão ligadas à tempestade. Cerca de 700 mil residências e empresas ficaram sem energia elétrica nesta segunda-feira por causa da tempestade, e mais de 70 milhões de pessoas ainda estão sob alerta de frio extremo.

Em nota, o RIOgaleão confirmou que, de sexta-feira até domingo, dia 25, registrou o cancelamento de sete voos com origem ou destino aos Estados Unidos, em razão das condições meteorológicas em cidades como Atlanta, Dallas, Nova York e Houston.