Entre a fé em Deus e a devoção ao samba. Assim o padre Felipe Calisto, de 34 anos, pároco da Igreja de Santo Antônio, de Caridade, no Ceará, vem traçando sua caminhada. Apaixonado por carnaval desde criança pisou na quadra da Unidos da Tijuca uma única vez, no ano passado, quando esteve no Rio para assistir a um show da cantora Maria Bethânia, de quem é fã. Era final da escolha de samba-enredo para o desfile deste ano. A visita o marcou de tal maneira que quis repetir a experiência. Quando soube que a escola ia levar para a Sapucaí a saga contada por Socorro Acioli no livro "A cabeça do santo", inspirado numa história real da cidade onde é pároco, decidiu que era chegada a hora desse retorno ao Rio. Então, ainda em maio, quando a agremiação anunciou o enredo, comprou antecipadamente a passagem para acompanhar de perto a escolha do samba, marcada para sábado que vem. Ele só não contava que estaria na disputa, como finalista de uma das composições concorrentes. O convite para o padre entrar na parceria do samba-enredo, que concorre com outras três composições, aconteceu de maneira surpreendente. O religioso conta que, após a visita de uma equipe de criação da Unidos da Tijuca à cidade, para mergulhar no universo do livro de Socorro Acioli, recebeu mensagem pela rede social de um dos futuros parceiros, com pedido para que ele ajudasse na composição.
—Acho que o fato de eu ser padre e gostar de samba, além de ser pároco da cidade onde está a estátua que inspirou o livro, contribuiu para o convite — opina o religioso, sobre o contato feito por Leandro Gaúcho, que encabeça a parceria formada ainda por Marcelo Moraes, Ricardo Construção e Ailson Picanço.
O padre confessa que não conhece nenhum dos parceiros pessoalmente, o que só deve acontecer no próximo sábado, quando estarão juntos pela primeira vez defendendo a composição. O processo de feitura do samba foi todo à distância, por meio de trocas de mensagens pelo Whatsapp e pelas redes sociais.
— Fizemos algumas reuniões online e trocamos conversas por mensagem. Toda a estrutura da letra é baseada no livro. A gente conversava e ia trocando ideias e propostas. Eu mandava minhas sugestões, eles respondiam e assim fomos estruturando o samba, sempre dentro da proposta da escola — descreve o padre, comentando o processo de criação do samba finalista. Ele disse ainda que nunca havia feito um samba antes. Esse é o primeiro, e já começa com uma responsabilidade e tanto. Entraram na disputa nomes famosos e carimbados no carnaval carioca, como Paulo César Feital, Samir Trindade, Arlindinho, Fred Camacho, Igor Leal, Diego Nicolau, Marcelo Adnet, Dudu Nobre, Luiz Carlos Máximo e Manu da Cuíca, sendo que boa parte deles ficou pelo caminho, com suas composições cortadas durante as eliminatórias. Padre Felipe Calisto Acervo pessoal/Felipe calisto —Achei uma doideira entrar nessa. Mas, fazer o que, o universo estava me proporcionando tudo isso. Só o fato de estar do lado dessas feras já foi uma grande honra. Acho que cheguei na final pela força de Santo Antônio de Caridade. É aquela coisa, né, tem um padre na parada e já entra com a fé — brinca. Além da força divina, o padre compositor conta com a torcida da autora do livro, cearense de Fortaleza como ele. Felipe Calisto disse que os dois chegaram a se falar por telefone depois que ele compôs o samba, mas ainda não se encontraram pessoalmente, o que espera acontecer no dia da final, se a escritora também comparecer na quadra da escola para acompanhar a escolha do samba-enredo.
Padre sambista Felipe Calisto celebrando missa Acervo pessoal/Felipe Calisto Padre há cerca de quatro anos, Felipe Calisto é pároco de Caridade metade desse tempo. O carnaval entrou na sua vida bem antes disso. Ele se recorda que, aos dez anos, ficava fascinado diante da TV vendo os desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo. Mais tarde, com o advento da internet, ficou mais fácil mergulhar nesse universo e pesquisar sobre os bastidores da folia virou fixação. —Para algumas pessoas pode parecer contraditório conciliar a fé em Deus com o amor ao carnaval. Mas eu vejo isso como algo sagrado também e não como uma coisa pecaminosa — diz, o religioso que só foi conhecer uma escola de samba em 2017, quando esteve em São Paulo e visitou as quadras da Unidos de Vila Maria e da Acadêmicos do Tucuruvi. Na visita ao Rio, no ano passado, esteve também na da Vila Isabel. Panfleto do samba: padre é um dos compositores Reprodução Além de participar da composição do samba concorrente, como um dos autores, o padre também deu sua contribuição para a pesquisa do enredo. Ele conta que quando a equipe de criação da Unidos da Tijuca esteve na cidade, a igreja foi o primeiro lugar visitado. Sua presença no desfile da escola, no ano que vem, já está confirmada, independentemente de seu samba ser campeão ou não. Padre Felipe Calisto, com a camiseta do enredo e dentro da cabeça do santo, em Caridade, Ceará Acervo pessoal/Felipe Calisto De que fala o livro O livro "A cabeça do santo", conta a saga do personagem Samuel, que faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte a Candeia (cidade fictícia) para cumprir uma promessa feita à mãe antes de morrer. No lugarejo, quase fantasma, encontra abrigo num local curioso: a cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, separa do restante do corpo. De dentro da estrutura, passa a escutar os pedidos e orações das mulheres do lugar. A estátua que inspirou a autora, de fato existe. Com 19 metros de altura, ela fica no Morro do Serrote, em Caridade, onde o padre Felipe Calisto é pároco. A obra foi iniciada em 1984, com objetivo de impulsionar o turismo religioso local, mas acabou sendo paralisada por falta de recursos. Por quase 40 anos, o "corpo" da estátua ficou exposto no alto do morro, enquanto a cabeça feita de concreto ficava em uma rua a cerca de três quilômetros dali. Essa parte somente içada e colocada no lugar para complementar o monumento em meados de dezembro do ano passado.
Conheça a letra Autores: Leandro Gaúcho, Padre Felipe Calisto, Marcelo Moraes, Ricardo Construção e Ailson Picanço O sino da igrejinha No primeiro badalar Relicário, ladainha Não é céu e nem é mar Samuel, o peregrino Vem com Chico e Romão Da moleira de Antônio fez seu usucapião Em caridade (ô) tem fuzuê Moganga de boiadeiro, xetruá O problema foi o "santo" responder A promessa pra menina se ajuntá "Não tenha medo! Isso não é feitiço de visagem, catiço Venha ouvir o meu canto Arriado "ele" atende pedido Mas tudo tem preço, pois eu não sou santo" Mil flores no altar, moedas no bolso Aquele moço nem de longe parecia O sertanejo filho de Mariinha Ah! Coração Severino Guarda um vazio sem jeito Sobe a serra ligeiro Vá buscar seu destino: -Meu pai Quantas vezes te esperei ao pé da porta Pedi todo dia, roguei sua volta E veja só. Sempre esteve aqui! É hora, pai. De seguir pro meu Juazeiro Levando um rosário batendo no peito Outro milagre ainda está por vir" Santo Antônio pequenino Do sertão eu trouxe a luta! Venha abrir nossos caminhos, a vitória da Tijuca Ele é de fé! Amansador de burro brabo Se dúvida é melhor tomar cuidado
O Globo