Tem mais de 60 anos e é viciado em telas? Estudiosos alertam para riscos da hiperconexão: 'Mais sedentarismo e dificuldade de gerir o tempo'

 

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A psicóloga carioca Gabriela Bessa, de 52 anos, já perdeu as contas de quantas vezes alertou a mãe, de 78, sobre o uso consciente do celular e pediu atenção aos conteúdos que consome no YouTube. O tempo gasto on-line pela matriarca da família, explica, aumentou consideravelmente após as eleições presidenciais de 2018. “Ela assiste a vídeos de astrologia e de política, estes últimos, bem ruins. São muitas horas ao longo do dia, nem dá para mensurar. À noite, vê as mensagens no WhastsApp e repassa tudo o que recebe em grupos de amigos, sem filtro”, relata Gabriela.

O comportamento já ansioso da mãe piorou com a disseminação das fake news, que proliferam aos montes nas redes. “Ela quase levou um golpe financeiro, e também tirou o dinheiro que tinha no banco para guardar em casa, com medo de ser roubada.” Mesmo vivendo sozinha, mas com a companhia frequente de Gabriela e das irmãs, a idosa está “viciada” em telas, acredita a psicóloga. Em parte, por causa da epidemia de solidão gerada pelos estímulos on-line. “A rede social vira companhia. Mas é uma falsa sensação, porque não há troca, só entretenimento barato. É uma dopamina fácil. Minha mãe deixa de sair, de viver a realidade.”

A preocupação de Gabriela com a saúde física e, principalmente, mental da mãe, tem razão de ser. Segundo pesquisa feita pelo IBGE, em 2024, 69,4% das pessoas acima dos 60 anos têm acesso à internet, 25% a mais do que em 2019. No ano anterior, o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) registrou aumento de 70% em golpes contra a terceira idade no país. Embora a tecnologia também traga benefícios como uma maior autonomia e novos estímulos cognitivos, para a terapeuta ocupacional e doutora em medicina ocupacional da UFMG, Renata Maria Santos, duas vias são afetadas pelo uso excessivo. “O tempo e o conteúdo. Há risco de mais sedentarismo, desestruturação da rotina e a dificuldade de gestão do tempo. Além disso, idosos são mais expostos a golpes, pessoas mal-intencionadas, jogos de azar e compras por impulso”, afirma.

Em um estudo desenvolvido em 2024, Renata encontrou um resultado inesperado e preocupante: pessoas mais velhas têm uma tendência maior a sofrer de “nomofobia”, o medo de estar longe do smartphone. “Cada vez mais, as ruas não são um espaço seguro, os encontros presenciais diminuíram, as reuniões familiares são menos frequentes. Então, a tecnologia ocupa esse espaço, impactando negativamente na saúde dos idosos.”

A dependência digital, ressalta o psicólogo e psicanalista Francisco Nogueira, pode agravar sintomas como estresse, depressão e ansiedade. Paradoxalmente, os gadgets também funcionam como um escudo contra angústias e medos típicos da terceira idade. “Existe um sofrimento em certa fase da vida porque o idoso começa a sentir o declínio do corpo, da vivacidade. E o perigo dos excessos é estar submetido aos algoritmos, tornando-se mais vulnerável.”

Foi o que aconteceu com a mãe da fotógrafa paulista Swell Nóbrega, de 40 anos. Auxiliar de enfermagem, trabalhava em dois empregos e sempre foi bastante ativa. “Mas ao se aposentar, a ensinamos a usar a internet, e percebi que o consumismo dela aumentou muito”, explica a fotógrafa. Aos 77 anos, a aposentada é fã de aplicativos como Shopee e Shein e, ao menos uma vez por semana, faz compras. Quando não está assistindo TV, o smartphone assume o posto de melhor amigo. “Até na madrugada, quando acorda por ter perdido o sono, fica com o celular na mão rolando a tela. Meu filho mora com ela, e já tentamos dialogar, mas não adianta, é muito teimosa”, lamenta.

Apesar das armadilhas, não é preciso abrir guerra contra o celular e, muito menos, com os pais ou os avós. Renata Maria Santos diz ser imprescindível uma educação digital contínua, ampliando as conversas familiares. “Assim como os estímulos cognitivos, como jogo da memória, e a participação em grupos de atividades físicas e sociais. É primordial manter os vínculos afetivos presenciais.”

O geriatra Eduardo Canteiro Cruz, diretor administrativo da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, ensina também que a conexão digital deve ter um propósito claro: o de informar, comunicar e entreter, mas com um tempo limitado. “Da mesma forma como acontece nos lares com crianças, para os idosos, deve haver um comportamento uniforme entre as pessoas”, ele recomenda. “Não adianta cobrar dos mais velhos uma postura que nós mesmos não conseguimos sustentar”, acrescenta. É importante educar sobre os riscos, oferecer uma comunicação clara sobre os comportamentos nocivos e monitorá-los. “Afinal, nada substitui o contato físico e as experiências reais em sociedade.”